ANATOMIA DO FANATISMO E DO ÓDIO

 

 

George Orwell (1903-1950) desempenhou um papel decisivo na luta contra a consciência totalitária e o ódio organizado. Foi através das suas sátiras, distopias e ensaios políticos que a literatura de humanistas solitários e liberais céticos se tornou no campo de batalha no qual a natureza cínica da política violenta e do ódio organizado do século XX foi exposta de uma forma estimulante. Não só expôs o totalitarismo e o ódio ideocrático, inerente à era do fazer e desfazer de inimigos, mas também colocou  a nu as trajetórias da consciência e da imaginação modernas, características das sociedades ocidentais, e profundamente sintomáticas da fabricação de adversários políticos e ideológicos. Podemos dizer que o nome de Orwell se tornou na bandeira erguida por todos quantos acreditaram no valor da singularidade da vida humana, da razão individual e da consciência individual.

Pode dizer-se que a busca de inimigos e a invenção de adversários foi um dos temas principais de Orwell, que permeia a sua ficção e os seus ensaios políticos. Ele decifrou a política do ódio organizado que resulta dos fantasmas e das tramas da perturbada imaginação moderna como mais ninguém na literatura e na filosofia. Se pensarmos que a Europa Central e de Leste pode muito bem ter-se tornado um caso de experiência-limite, dentro da história universal, no que à intensidade e à loucura do ódio político e ideológico moderno diz respeito, então Orwell merecia o título de cidadão honorário da Europa Central e de Leste. 1984 ainda é o exemplo espantoso e ainda não superado do poder de análise social e reflexão moral que a literatura pode ter. Animal Farm (“A Revolução dos Bichos”) surge como a primeira sátira social a capturar a inadequação tragicômica entre a fase inicial da revolução, idealista e romântica, e as práticas totalitárias que se seguem, as quais, sendo muito mais do que distorções de uma teoria válida, decorrem inexoravelmente da natureza da revolução.

É no entanto o seu ensaio reflexivo “Notes on Nationalism” que nos dá pistas sobre a origem do fanatismo político e ideológico, muito mais do que as suas distopias notáveis. Não tendo encontrado uma palavra melhor para descrever este fenômeno inquietante do século XX, Orwell usa “nacionalismo”, que aqui quer claramente dizer algo diverso daquilo que os estudiosos do nacionalismo equipados com a sua sabedoria acadêmica convencional entendem.

Por “nacionalismo” quero referir, em primeiro lugar, ao hábito de pressupor que os seres humanos podem ser classificados como insetos, e que porções inteiras de milhões ou dezenas de milhão de pessoas podem ser tabeladas de “boas” ou “más” com toda a convicção. Em segundo lugar – e isto é mais importante – refiro o hábito de alguém se auto-identificar com uma nação ou outra unidade singular, colocando-a para além do bem e do mal, e não reconhecendo outro dever senão a defesa dos seus interesses. O nacionalismo não deve ser confundido com o patriotismo. Ambas as palavras são usadas de uma forma tão vaga, que qualquer definição pode ser questionada; no entanto, devemos estabelecer as diferenças entre as duas palavras, uma vez que estamos perante duas ideias diversas e mesmo opostas. Por “patriotismo”, entendo a devoção a um local e a um modo de vida particulares, que acreditamos ser o melhor do mundo, sem que isso nos leve a querer impô-lo a outros. O patriotismo é por natureza defensivo, tanto militar como culturalmente. O nacionalismo, pelo contrário, é inseparável do desejo pelo poder. O propósito regulador de cada nacionalista é conseguir mais poder e mais prestígio, não para si próprio, mas para a sua nação ou outra unidade na qual escolheu dissolver a sua individualidade.

Na verdade, é fácil defender o nacionalismo da crítica devastadora de Orwell. Por exemplo, pode-se argumentar que o que ele descreve como a tendência para colocar o objeto da nossa devoção e afeto para além do bem e do mal, e para não reconhecer outro dever para além da defesa dos seus interesses, diz respeito a um nacionalismo radical conservador, e não a um nacionalismo liberal.

Com o patriotismo estas questões também não são transparentes. Se a faceta liberal do fenômeno implica a questionação crítica da sua própria sociedade e cultura, o patriotismo é, em muitos casos, uma espécie de adesão e identificação com um determinado país, o seu território, cultura, paisagem, língua e símbolos de poder. Este tipo de adesão e identificação é normalmente desprovido de uma abordagem crítica. Do princípio “o meu país, certo ou errado”, pode muito bem dizer-se que tem sempre sido a quintessência do patriotismo.

Neste ponto temos de concordar com Orwell: não faz sentido classificar seres humanos como aos insetos, nem generalizar nações inteiras como sendo intrinsecamente boas ou más. Pérolas da sabedoria convencional, tal como a tendência para descrever o espanhol como um aristocrata natural, o britânico como hipócrita, ou o alemão como traiçoeiro, Orwel classificou como sendo do mesmo tipo de divórcio entre a lealdade e julgamento moral – um sintoma da consciência moderna, que ele descreveu como nacionalismo. Como temos testemunhado, a tendência sinistra para fazer equivaler uma modernidade odiada exclusivamente com “os judeus” ou com “a América” – que é provavelmente uma das loucuras mais sinistras e perigosas da imaginação moderna perturbada – pode conduzir a consequências mais trágicas do que a simples construção de estereótipos ou o difundir clichês gastos. Podemos sugerir, no entanto, que numa era de intenso ódio coletivo nada é inocente, e que tudo começa em cartoons políticos ou em falsificações literárias, e acaba por matar pessoas.

Este tipo de moralidade inconsistente e flexível acontece juntamente com os mencionados bloqueios ideológicos. Uma vez que o nosso empenhamento ideológico pode ser posto em perigo pelo fato de outros seres humanos de carne e osso sofrerem massacres, torturas e outras calamidades, a única atitude possível que pode impedir-nos de infligir dor e sofrimento noutros seres humanos, é negar o fato da existência desse sofrimento. Esta recusa em acreditar nos fatos politicamente inconvenientes ou nocivos pode ser bem combinada como uma propensão para negar aos nossos inimigos os traços humanos. Este mecanismo de autodefesa, ou melhor, de cegueira moral auto-infligida, revela a natureza defensiva e compensatória do ódio: o ódio parece uma consequência do autodesprezo e de um sentido de culpa recalcado. O mesmo podia ser dito acerca da raiva, que é uma consequência inevitável de um sentimento de vergonha recalcado. À luz disto, torna-se mais ou menos compreensível a razão pela qual até acadêmicos altamente qualificados e intelectuais sofisticados são capazes de negar o Holocausto. Também se torna mais clara a razão pela qual o anti-semitismo é tão intenso e forte nos países da Europa Central e de Leste, onde já não existem judeus e, no entanto, onde o Holocausto aconteceu em conjunção com um apoio forte dos governos locais e mesmo com a participação ativa da população local.

Em segundo lugar, as ideias de Orwell permitem-nos ver, sob uma nova luz, como e porquê marxistas ocidentais e russófilos políticos e ideológicos podem muito bem ser olhados, se não como irmãos na fé, pelo menos como irmãos na perda dramática da sua identidade e objetos de lealdade primordiais. A perda de um objeto primordial de amor, lealdade, pertença e memória, antecipa a chegada dos objetos forjados do ódio e do amor coletivos. Se começarmos a forjar um enquadramento interpretativo para uma verdade móvel e facilmente reajustável, e a criar um padrão do eu que apenas deixa espaço para lealdades transferíveis e permutáveis, ou para identidades de algum modo forjadas, mais cedo ou mais tarde acabaremos na ideocracia. Perderemos inevitavelmente as nossas tradições, as nossas pequenas coisas favoritas, amigos, família e, finalmente, língua e memória. Perderemos aquilo que nos torna humanos – identidade, liberdade e sensibilidade. Tendo sacrificado a fé, a história e a cultura, à glória dos fantasmas da imaginação perturbada, acabaremos inexoravelmente num terrível travesti de Verdade, Liberdade, Igualdade e Justiça.

Foi este o aviso de Orwell à humanidade no pós-guerra. Afirmar que, nos nossos dias, este aviso está desatualizado, seria uma forma de auto-engano.

 

Texto extraído de um artigo assinado por Leonidas Donskis

 

Você pode ler o artigo na íntegra pelo link

https://www.eurozine.com/george-orwell-anatomia-do-fanatismo-e-do-odio/

 

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