AS ÚLTIMAS TESTEMUNHAS

 

 

“Na época da Grande Guerra Patriótica (1941-1945), quando as tropas de Hitler invadiram a União Soviética,  morreram milhões de crianças soviéticas: russas, bielorrussas, ucranianas, judias, tártaras, letãs, ciganas, cazaques, uzbeques, armênias, tadjiques…”

(Revista Drujba Naródov, 1985 n° 5)

No passado, Dostoiévski fez a seguinte pergunta: e será que encontraremos absolvição para o Mundo, para a nossa felicidade e até para a nossa harmonia eterna se, em nome disso, for derramada uma lagrimazinha de uma criança inocente?

E ele mesmo respondeu: essa lagrimazinha não legitima nenhum progresso, nenhuma revolução. Nenhuma guerra. Ela sempre pesa mais.

Uma só lagrimazinha…

Em vários relatos, quase sempre curtos e sempre devastadores, a escritora e jornalista bielorrussa, Svetlana Aleksiévitch, Prêmio Nobel de Literatura de 2015, transcreve as histórias e as reminiscências tiradas das conversas com dezenas de cidadãos russos que eram crianças ou adolescentes durante a II Grande Guerra e que presenciaram horrores que nenhum ser humano jamais deveria experimentar.

Os relatos francos e terrivelmente contundentes desses indivíduos, adultos à época das entrevistas, mas nunca antes ouvidos, são a matéria dolorosa e potente deste livro colossal.

 

Relato de Jênia Belkiévitch, Seis anos naquela época (Hoje: Operária)

 

Junho de 1941…

Ficou na minha memória. Eu era bem pequena, mas guardei tudo na memória…

A última coisa que me lembro da vida de paz é uma historinha; mamãe a lia de noite. Era a minha preferida, a do Peixinho Dourado. Eu também sempre pedia algo para o Peixinho Dourado: “Peixinho Dourado…Querido Peixinho Dourado…”. Minha irmãzinha também pedia. Mas pesia de outro jeito: Por ordem do Lúcio, por minha vontade…”. Queríamos ir para a casa da vovó no verão, e que o papai fosse conosco. Ele era tão alegre.

Uma manhã acordei de medo. Uns sons desconhecidos…

Mamãe e papai achavam que estávamos dormindo, mas eu estava deitada ao lado de minha irmãzinha e fingia que estava dormindo. Vi que papai ficou muito tempo beijando a mamãe, beijava no rosto, as mãos, e eu me espantei: nunca antes ele a havia beijado daquele jeito. Eles saíram para o pátio de mãos dadas. Dei um pulo e fui para a janela: minha mãe estava pendurada no pescoço do meu pai e não o deixava ir. Ele a arracou e saiu correndo, ela o perseguiu, de novo não soltava e gritava algo. Então eu também comecei a gritar: “Papai, Papai”. Minha irmãzinha e meu irmãozinho Vássia acordaram; ela viu que eu estava chorando e soltou um grito: “Papai!”. Todos nós saímos para o terraço da entrada: “Papai!”. Meu pai nos viu, lembro como se fosse hoje, cobriu a cabeça com as mãos e foi andando, até sair correndo. Ele tinha medo de olhar para trás.

O sol batia no meu rosto. Tão quente… Mesmo agora não consigo acreditar que naquela manhã meu pai foi para a guerra. Na época eu era bem pequena, mas acho que eu tinha consciência de que eu o estava vendo pela última vez. Nunca mais me encontraria com ele. Eu era muito… muito pequena…

Foi assim que ficou associado na minha memória: guerra é quando meu pai não está…

E depois me lembro do céu preto e dos aviões pretos. Ao lado da rodovia estava minha mãe, deitada. Com os braços abertos. Nós pedíamos que ela se levantasse, e  ela não levantava. Não ficava de pé. Os soldados enrolaram a mamãe numa  capa de lona e a enterraram na areia, naquele lugar mesmo. Nós gritávamos e pedíamos: ”Não enterrem a nossa mãe na vala. Ela vai acordar e vamos continuar o caminho”. Uns besouros grandes rastejavam pela areia… Eu não conseguia imaginar como mamãe ia conseguir viver  embaixo da terra com eles. Como a gente ia localizá-la depois, como a gente ia se encontrar? Quem iria escrever para o nosso pai? Um dos soldados me disse: “Menina, como você se chama?”. Mas eu tinha esquecido. “Menina, qual é o seu sobrenome? Como é o nome da sua mãe?” Eu não lembrava… Ficamos sentados junto ao montinho da mamãe até à noite, até que nos pegaram e nos puseram numa telega (“carroça). Uma telega cheia de crianças. Um velho conduzia, recolhia todas pela estrada. Chegamos a uma aldeia desconhecida e  nos distribuíram pelas “khatas” (casa típica da Ucrânia) de pessoas desconhecidas.

Passei muito tempo sem falar. Só olhava.

Depois, me lembro, era Verão. Um verão luminoso. Uma mulher desconhecida me fazia cafuné. Eu comecei a chorar. E comecei a falar… a contar sobre minha mãe e sobre meu pai. Como papai correu de nós e nem olhou para trás… Como a mamãe estava deitada… Como os besouros rastejavam pela areia…

A mulher me fazia cafuné. Naquele momento eu entendi: ela parecia minha mãe…

 

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