IBERÊ CAMARGO – “Um Trágico nos Trópicos”

 

O Centro Cultural Banco do Brasil apresenta uma exposição, com parceria da Fundação Iberê Camargo, dedicada ao pintor, gravador, desenhista, escritor e professor gaúcho Iberê Camargo. Sob a curadoria de Luiz Camillo Osório, professor da PUC-RJ e curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a mostra aborda a questão do Homem, seu corpo e sua existência, marca que percorre sua produção artística desde os anos 1940 até sua morte, em 1994.

 

 

Um dos grandes nomes da arte brasileira do século XX , e autor de uma extensa obra que inclui pinturas, desenhos, guaches e gravuras, o artista desenvolveu as famosas séries de Carretéis, Ciclistas e As Idiotas, que marcaram grande parte da sua trajetória; desde sempre um artista ávido por conhecimento, torna-se aluno de de nomes como Giorgio de Chirico, Carlos Alberto Petrucci, Antônio Achille, Leone Rosa e André Lhote; a partir de 1958. Devido alimitações físicas causadas por uma hérnia de disco, Iberê troca o desenho e a pintura ao ar livre pelo trabalho no ateliê..

Ao longo de sua vida, esse gaúcho de Restinga Seca, cidade do interior do Rio Grande do Sul, exerceu forte influência no meio artístico e intelectual. Entre várias outras atividades, destaca-se sua participação na organização do Salão Branco e Preto , em 1954, e no ano seguinte do Salão Miniatura, ambos realizados em protesto às altas taxas de importação de material artístico. Suas obras participaram de exposições de renome internacional, como a Bienal de S. Paulo, a Bienal de Veneza, a Bienal de Tóquio e a Bienal de Madrid, além de integrarem numerosas mostras no Brasil e no exterior. Iberê faleceu em 1994, em Porto Alegre, onde, a partir de um desejo do próprio artista e sua esposa, Maria Coussirat Camargo, e com o apoio de amigos sob a liderança do empresário Jorge Gerdau Johannpeter, foi criada, em 1995, a Fundação Iberê Camargo, arrojado  e premiadíssimo projeto de arquitetura do renomado arquiteto português, ÁlvaroSiza – Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza em 2012 -, uma referência arquitetônica da capital gaúcha, às margens do Guaíba,  que preserva  um acervo de mais de cinco mil obras – entre pinturas, gravuras, desenhos, guaches e documentos pessoais do artista.

A retrospectiva é a primeira mostra em comemoração ao centenário do melancólico Iberê Camargo (1914-1994). Na seleção, focada em seus últimos cinco anos, há 145 obras produzidas entre as décadas de 40 e 90. Sua desilusão com a vida fica clara na série As Idiotas, exposta no 3º andar, o mais impactante de todos. Nela, personagens em tons roxos, de corpo caído e expressão débil, são retratados em fundos de cores semelhantes. Impressiona a escala das telas, considerando que Iberê beirava os 80 anos na época — As Idiotas (1991), por exemplo, tem 2,5 metros de largura. Seus carretéis também estão lá. A sobreposição de tintas marrons, cinza, brancas e pretas faz com que as formas só sejam perceptíveis devido à força das pinceladas. No subsolo, encontram-se rascunhos e gravuras, um passeio pelo processo criativo de um artista genial e solitário, que entrou para a história isolado em seu ateliê. A curadoria é de Luiz Camillo Osório, professor da PUC-RJ e curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro que dá o mote do que é essa belíssima exposição:

 

“Foi em uma exposição no CCBB do Rio de Janeiro, em 1994, que vi pela primeira vez o conjunto de grandespinturas figurativas de Iberê Camargo. Beirando os oitenta anos, ele daria naquelas últimas telas um salto trágico, radicalizando a experiência do corpo e da finitude. Tudo ali ganhava uma gravidade exacerbada. As fisonomias são abrutalhadas como na fase negra de Goya; os corpos ganham uma carnalidade aderida à superfície encrespada da tela; a atmosfera, atravessada por uma luminosidade fria, é pós-apocalíptica. Deparar-me com essas telas foi desconcertante. Continua sendo. Quanta força e quanto desencanto.”

 

(Luiz  Camillo  Osório)

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