INOVAR PARA SER MAIS FELIZ

Um dos cérebros mais brilhantes da atualidade,  o Economista americano, Edmund  Phelps,  ganhador  do  Prêmio  Nobel  em  2006, por seus estudos sobre desemprego einflação, é um dos mais fervorosos adeptos da salutar ideia de que “é preciso inovar para ser mais feliz”.

 

Resultado de imagem para inovar para ser mais feliz

 

Para Phelps,  capitalismo é cultura. Para sustentá-lo, leis e instituições são importantes, mas o papel mais fundamental é desempenhado pelo espírito humano básico de independência e iniciativa, que ele afirma sero motor fundamental de uma “boa economia” – aquela que não apenas leva os países à prosperidade, mas abre perspectivas de realização pessoal a todos os indivíduos.

O papel decisivo do “espírito do capitalismo” é um conceito antigo, que remonta pelo menos a Max Weber, mas precisa ser atualizado hoje por meio de novas descobertas e novas formas de pensar. Tal é a tese seguida por Edmund Phelps, que escreveu um livro novo e fundamental sobre o tema, chamado “Mass Flourishing: How Grassroots Innovation Created Jobs, Challenge and Change” (Princeton University Press), lançado em 2013 nos EUA, que recebeu o título de “Florescimento em Massa: como inovação na base criou Empregos, Desafios e Mudança”.  O texto oferece uma nova e complexa análise sobre importância da cultura do empreendedorismo e identifica a principal ameaça ao desenvolvimento: a submissão ao corporativismo.

 

Resultado de imagem para corporativismo

 

Phelps percebe uma tendência preocupante em muitos países, na qual observa com muita preocupação a influência nociva do corporativismo, uma filosofia política sob a qual a atividade econômica é controlada por grandes grupos de interesses, ou pelo governo. Quando o corporativismo finca as raízes em uma sociedade, ele diz, o povo passa a não apreciar devidamente as contribuições e esforços dos indivíduos que criam e inovam. Uma economia com uma cultura corporativista pode copiar e até crescer mais do que outras, por algum tempo, ele afirma, mas no final sempre ficará para trás. Apenas uma cultura de empreendedorismo é capaz de liderar.

 

Resultado de imagem para inovar para ser mais feliz

 

Edmund Phelps foi o entrevistado nas páginas amarelas da Revista Veja desta semana. Reproduzo alguns trechos mais interessantes dessa entrevista extraordinária:

 

VEJA:  No Brasil, como em outros países, a resposta furiosa dos taxistas ao aplicativo de transporte UBER é um símbolo de como a inovação pode provocar conflitos. Qual a sua solução para situações desse tipo?

 

PHELPS:  Minha resposta é inequívoca. Estarei sempre do lado dos inovadores, daqueles que estão empenhados em detectar novas oportunidades, criar novos produtos ou processos de trabalho. É impossível superestimar o papel que a inovação e o empreendedorismo têm na prosperidade econômica. Qualquer leitura honesta da história mostrará isso. Infelizmente, em toda a parte a força benigna da inovação é bloqueada pelo medo da “mudança desordenada”, que nada mais é do que o bicho-papão criado por grupos de interesse, sindicatos, empresas confortavelmente estabelecidas em seus nichos de mercado e pelos políticos com os quais um desses atores tem ligação umbilical. Medidas que bloqueiam a inovação, mesmo nas raras ocasiões em que são tomadas com a melhor das intenções, revelam que um veneno está correndo nas veias de uma sociedade: o veneno do corporativismo. Daí resultam nãoapenas economias menos dinâmicas e produtivas, mas menores oportunidades para que as pessoas tenham uma vida cheia de realizações.

 

VEJA: O que o senhor chama de corporativismo?

 

PHELPS:  Na linguagem do cotidiano, trata-se do esforço de um grupo para defender seus interesses acima de tudo, custe o que custar. A meu ver, a grande batalha do nosso tempo não é mais entre o capitalismo e o socialismo, mas entre os valores modernos da livre-iniciativa e da inovação, que estão no centro do capitalismo, e os valores reativos do corporativismo.

 

VEJA: Que valores são esses?

 

PHELPS:  No lugar da competição, o corporativismo prefere a coordenação e o controle da atividade econômica. Isso cria vínculos fortes entre o Estado e o setor empresarial, de forma que boa parte da atividade econômica depende de negociações com o governo (SIC…) e não da lógica do mercado. É o Estado que decide qual setor deve ou não crescer em determinado momento, lançando mão de subsídios, incentivos fiscais e empréstimos, em geral para aqueles que conseguem se organizar melhor em defesa de seus interesses, ou simplesmente gritar mais alto. Outro valor fundamental do corporativismo é a proteção social. Proteção para empresas, que conquistam reserva de mercado e não precisam se preocupar em melhorar seus produtos obsoletos, o que é devastador para a inovação. E proteção para os mais diversos grupos sociais, que abocanham uma fatia da riqueza produzida pelo país, graças a políticas redistributivas. No corporativismo, a tributação é sempre elevada, para permitir que o Estado ofereça um quinhão a todos. É um sistema que sempre trabalha para manter a ordem estabelecida, o que em termos econômicos significa matar pela raiz os incentivos à inovação e à busca da competitividade. A atual crise grega mostra esse sistema em pleno funcionamento.

 

VEJA: O corporativista e o socialista parecem ter muito em comum. O que os diferencia?

 

PHELPS:  Do ponto de vista prático, o socialismo está acabado. A propriedade estatal dos meios de produção, que é um dos pilares do sistema, não é mais uma alternativa levada a sério. O corporativismo sempre quis algo um pouco diferente. Ele nunca rejeitou a propriedade privada, desde que houvesse uma medida considerável de controle da atividade econômica pelo Estado ou pela sociedade. O corporativismo está vivo onde quer que o governo beneficie uma empresa com incentivos especiais ou proteja um grupo de interesse. Quanto aos defensores de um sistema ou de outro, você provavelmente vai identificar o corporativista pelo seu viés nacionalista, pela sua preocupação em defender a  “comunidade” de todas as forçasexternas que supostamente a ameaçam, ao passo que o socialista será mais preocupado com a desigualdade. Mas, você tem razão: embora tenham filosofias diferentes, nem sempre é fácil distinguir um personagem do outro, porque ambos compartilham do mesmo ponto de partida, que é a aversão àquilo que o capitalismo tem de melhor, ou seja, sua instabilidade e seu caráter  “disruptivo”, para usar a palavra da moda.

 

VEJA: Como o cuidado com os mais pobres e a preocupação com a desigualdade devem entrar na equação capitalista?

 

PHELPS:  É fundamental garantir o acesso universal à Educação, porque isso ajuda a nivelar as oportunidades. Um nível moderado de proteção social também tende a ser inofensivo, se financiado por um sistema neutro de tributação. O problema é que raramente paramos por aí. Nas grandes nações europeias, e em muitas outras, entre as quais o Brasil provavelmente também se encaixe, o que vemos é o avanço do corporativismo. O Estado começa a prover a todos, mas quem mais se beneficia não são os pobres, e sim as elites empresariais ou sindicais com melhor acesso ao governo. Pior que isso, a economia perde a eficiência e os salários crescem menos do que poderiam. As oportunidades para o surgimento de negócios se reduzem, e com isso as chances de novas gerações terem uma vida mais rica de experiências, participarem mais ativamente do fluxo da economia. Os corporativistas estão sempre preocupados em balancear os interesses dos diversos atores sociais, em garantir alguma renda para todos. No capitalismo, contudo, a preocupação fundamental deve ser com a iniciativa individual, com aquilo que um indivíduo pode fazer com a sua vida.

 

VEJA:  Algum conselho de um prêmio Nobel para os pais de hoje em dia?

 

PHELPS:   Criem seus filhos para apreciar a aventura, a experimentação, uma dose saudável de risco. Não sei se é assim no Brasil, mas é comum a percepção de que os pais americanos se tornaram superprotetores. Não protejam demais seus filhos

 

 

Entrevista  feita  à  Revista  VEJA    edição 2448 – ano 48 – # 42  em  21 de Outubro de 2015

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *