MARIELLE FRANCO, AMIGOS PERDIDOS E A CULPA DOS INTELECTUAIS

 

Por circunstâncias que não vêm ao caso, optei por morar com a minha avó materna quando eu tinha cinco anos de idade. Dali em diante, passei a dividir meu tempo entre a casa dos meus pais, num bairro de classe média baixa, e a casa da minha avó, num bairro muito pobre, que levava o nome de uma fábrica de papel e celulose e que, tendo sido fundado como uma vila para abrigar os funcionários dessa fábrica, acabou favelizado, sucateado e convertido em um lugar consideravelmente perigoso.

Foi ali que passei a maior parte da minha infância, valendo-me da permissividade que um neto sempre consegue extrair de sua avó para me divertir nas ruas, explorar o bairro, conhecer as enormes plantações de eucalipto e nadar na represa que servia ao abastecimento do bairro e de toda a cidade. Evidentemente, conforme fui crescendo, também tirava proveito dessa situação para fazer amizade com todo o bairro; com bons e maus elementos; com gente que me influenciava positivamente e com gente que podia exercer sobre mim a pior das influências.

Essas pessoas, fossem o que fossem, eram as pessoas que me cercavam, que povoavam o meu cotidiano e que, de algum modo, até hoje existem no meu imaginário. Nesse ambiente, vi muitos dos meus amigos serem atraídos para os ganhos fáceis do tráfico de drogas, muitos outros se destruírem e se endividarem mediante o uso de entorpecentes, outros se deleitarem com atos de delinqüência e alguns outros serem assassinados em meio a brigas banais.

Dos meus 12 aos meus 18 anos, e infelizmente depois disso, chorei a morte de muitos amigos queridos. Alguns eram realmente próximos — colegas de classe, amigos inseparáveis e até mesmo primos. Outros, quando se foram, eram apenas memórias distantes. Mas sempre doía. Ainda hoje dói.

Apesar disso, jamais encontrei naqueles funerais, naqueles memorandos doloridos de que vivemos em um mundo caído, algo sequer parecido com um militante de esquerda ou com um parlamentar do PSOL, do PCdoB ou do PT. Muitos desses amigos até podiam ser enquadrados em alguma minoria, mas nosso bairro estava na periferia da periferia da periferia. Não rendia notícias. Não dava margem à politização. Aquelas mortes não podiam ser instrumentalizadas por revolucionários ou por engenheiros sociais. Eram apenas estatísticas. Estatísticas que, pra mim, tinham nome, tinham história, tinham aspirações, mas que haviam se perdido em algum ponto do caminho e se tornado mera estatística.

Nós chorávamos. Nós nos desesperávamos com os gritos das mães. Nós ouvíamos as preces dos católicos e dos evangélicos, sempre presentes. Nós buscávamos nos convencer de que isso não aconteceria de novo, mas sempre acontecia. Ainda acontece.

Tendo crescido nesse ambiente, foi com espanto que descobri que as coisas não eram assim no mundo todo. Não eram assim nem mesmo na África do Sul, país em que eu tive a oportunidade de morar ainda durante a minha adolescência e que desafiava, sobretudo naquela época, todas as explicações fáceis e os lugares comuns que os sociólogos da corte petista ofereciam para a explosão da criminalidade e do banditismo no Brasil.

O Brasil era pobre? A África do Sul mais ainda. O Brasil era desigual? A África do Sul ainda mais. O Brasil adotava uma política de repressão às drogas? A África do Sul mais ainda. Um a um, todos os chavões sociológicos caíam mediante o mero confronto de duas realidades que eu conhecia bem de perto. Com o tempo e com muito estudo, fui entendendo que a máquina que moeu os meus amigos e os meus primos, que o sistema que vitimava milhares e milhares de brasileiros, não foi inaugurado no Século XVIII com a Revolução Industrial, mas em 1968 com as revoltas estudantis que elevaram os marxistas ocidentais a outro patamar e prepararam o caminho para que suas estratégias e táticas fossem implementadas no Brasil.

O assassinato dessas pessoas próximas a mim, como, de resto, o assassinato de 70 mil brasileiros todos os anos, é o efeito lógico e inevitável de uma ação coerente pensada e implementada pela intelectualidade gramsciana brasileira para obter exatamente este resultado, abrindo caminho para converter o Brasil primeiro numa Colômbia, fragmentada pela ação de narcoterroristas, e depois numa Cuba ou numa China.

Dentre os amigos que fiz naquele bairro, só escaparam aqueles que foram estimulados, pela pregação do Evangelho ou pela força de suas famílias, a tomar suas vidas nas mãos, a responsabilizar-se por seus atos, a aceitar a culpa individual por seus erros e a rejeitar a crença, artificialmente inculcada em todos nós através da mídia e do aparato escolar, de que as circunstâncias deprimentes do nosso país justificam ações violentas por parte de quem se sente marginalizado.

O morticínio brasileiro — 70 mil por ano — não seria o mesmo sem o crime organizado e o crime organizado não existiria sem a doutrinação dada, por medalhões de esquerda, aos assaltantes de banco que fundaram o Comando Vermelho e aos oito detentos que formaram o PCC para reagir contra o “sistema”. Na origem da tragédia brasileira estão a foice e o martelo; O Capital e O Manifesto; Carlos Prestes e Olga Benário; Gramsci e Os Cadernos do Cárcere; Lucáks e a Escola de Frankfurt; Lamarca e Marighella, mas também Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Leonel Brizola, Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff… a lista é interminável.

A vereadora Marielle Franco é mais uma vítima dessa trama diabólica criada pela esquerda brasileira. Eu choro a morte dela como chorei a de meus amigos e de meus familiares. Sem indignação seletiva. Não por ela ser vereadora, mulher, negra, lésbica ou qualquer coisa do tipo, mas porque ela é mais uma pessoa, mais um ser humano sacrificado no altar da fútil arrogância revolucionária da esquerda nacional — e é justamente por lamentar a morte de Marielle e saber o que a família dela está sentindo que continuarei combatendo, com todas as minhas forças, a ideologia homicida e genocida à qual ela, infelizmente, devotou a vida.

 

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P.S.: Os dados do infográfico são de 2012 e estão desatualizados. Os índices melhoraram em todos os países, com destaque para os EUA, e pioraram no Brasil, que já se aproxima dos 30 homicídios por 100 mil habitantes. Seja como for, definitivamente não vivemos uma situação de normalidade.

 

 

Artigo de:
 
Filipe G. Martins   Professor de Política Internacional e analista político, é especialista em forecasting, análise de riscos e segurança internacional. Escreve no blog Senso Incomum.

 

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