O DISCURSO DE PUTIN

 

 

Vladimir Putin é um grande líder: hábil, ambicioso, frio e autoritário, na tradição cultivada desde os tempos da Rússia czarista, e talvez um dos maiores e mais inteligentes estrategistas políticos da atualidade.

Mas, como quase todos os políticos, um populista autoritário, que não hesita em cultivar discursos de via dupla, com mensagens sedutoras para consumo interno e recados venenosos com direção certa: seus adversários da Europa Ocidental e os Estados Unidos.

E, para tal, parece não ter o menor escrúpulo em fazer uso da velha cartilha comunista, usada por 10 em cada 10 marxistas, de “xingá-los daquilo que nós próprios somos e acusá-los daquilo que nós próprios fazemos”. Não que Putin seja comunista. Longe disso; ele sabe melhor do que ninguém os horrores sofridos pelos seus conterrâneos – e ele próprio, até certo ponto – sob os longos anos de jugo marxista na antiga URSS. E de mentecapto ele não tem absolutamente nada. Pelo contrário, é muito inteligente e extremamente capaz, como se pode ver pelo excelente histórico recente da Rússia, como conseqüência direta de Putin ter ampliado a abertura econômica do país, continuando as diretrizes iniciadas com seu antecessor, Bóris Iéltsin, sob cuja liderança foram sumariamente proibidas as atividades do Partido Comunista em toda a União Soviética, no dia 29 de agosto de 1991.

Se o Comunismo foi proibido na Rússia, o mesmo lamentavelmente não acontece com o autoritarismo e com a repressão a qualquer tipo de oposição interna, pois, da mesma forma que na China, em trajetória similar, a rejeição absoluta às regras democráticas continua sendo cultivada rigorosamente, nas melhores tradições sino-russas. Tanto assim é, que, em pleno século XXI, numa recente pesquisa feita pelo Instituto Levada, o único centro de pesquisas russo independente e respeitado, mostrou que 57% dos cidadãos russos entrevistados concordaram total ou parcialmente com a seguinte informação: ”Stalin era um líder sábio que fez a União Soviética próspera e poderosa”. Acreditar numa barbaridade dessas envolvendo um dos líderes sabidamente mais déspotas e sanguinários da História da Humanidade, por parte de uma população que, ao contrário do que ocorre num determinado país tropical do outro lado do mundo (algo que até justificaria tamanha desinformação), possui um dos mais altos níveis de escolarização do mundo – Taxa de Analfabetismo de insignificantes 0,4%, um espanto -, só demonstra o nível de robotização e autoritarismo vigente naquele canto do mundo, aonde existe pouquíssimo espaço para a dissidência ou para opiniões que se choquem com a versão oficial do Estado imperial. Se esse é o mundo ideal que você deseja para si, então siga em frente. A escolha é sua. Não será a minha, por mais que admire e respeite Vladimir Putin.

Mas, voltando ao tema, como bom patriota – que ele inegavelmente é, se tal análise for feita estritamente dentro da perspectiva pessoal dele -, Putin jamais desejaria a seu próprio povo o retorno indigesto às ideias obsoletas do marxismo. Ôôô louco! Mas que essa continua sendo uma arma letal contra seus adversários, isso é inegável. Desde que Gramsci disciplinou as táticas comunistas de controle de poder mudando o foco dos tanques de guerra para o campo infinitamente mais letal das ideias, não tem sido outros os instrumentos usados pelos marxistas e esquerdistas, ou por aqueles que conhecem a eficácia dessas táticas ignóbeis e inescrupulosas, em todos os campos de conflito.

É assim na “compassiva” e “piedosa” Europa dos esquerdistas social-democratas, globalistas e politicamente corretos; é assim entre os Democratas americanos, onde essas táticas melífluas de Poder ganharam fôlego inusitado durante os dois governos de Barack Obama; é assim na América Latina, dos “amiguinhos” bolivarianistas, Castro, Chavez/Maduro e Luiz Inácio Lula da Silva/José Dirceu, aonde a atração pelas ideias marxistas é a lenha que alimenta com bastante sucesso os planos de Poder e hegemonia continental do Foro de S. Paulo, exatamente no quintal de influência da América. A proximidade do inimigo é sempre algo desejável de ser cultivada, já dizia o Sun Tzu.

Em cada uma dessas áreas de conflito, o esquerdismo explora com inteligência fria e disciplina impiedosa as vulnerabilidades de cada região.

Chega a ser estarrecedor, mas ao mesmo tempo bastante sintomático e revelador, portanto, que Putin tente responsabilizar os países ocidentais – sobretudo França e Inglaterra e os Estados Unidos – pela disseminação de ideias esquerdistas, essas mesmas que ele condena e que de fato são as principais responsáveis por “dar a volta aos valores consolidados da cultura ocidental”, segundo suas próprias palavras. Quanto a isso, nada a observar.

Só que alguém precisa fazer o favor piedoso e humanitário de informar ao Sr. Putin, que é tão mal informado, mas é um diligente defensor dos valores ocidentais de Liberdade e Democracia (hahahahahahhahaha, olha aí  Donald Trump, tens um novo aliado, ou vai ver que ele sempre foi, como divulgou incessantemente a mídia esquerdista e tu é que foste inábil e não sabias? Acorda Trump!) que todos esses horrores que ele acertadamente descreve foram disseminados pelo esquerdismo. Que segue sendo alimentado por cérebros maquiavélicos que têm tudo a ganhar com a destruição da hegemonia atual na civilização ocidental, nem que para tal precisem “destruir os seus valores e a própria cristandade” (e reabrir a “casa”, agora sob nova direção, obviamente), como ele afirma, em atos que tenta imputar a seus adversários. Tenha santa paciência!

Segundo Putin, as ideias esquerdistas que com farta dose de oportunismo (ou de “desinformação”, se preferirem. Hahahahahaha) ele não hesita em atribuir à “América e à Europa” (hahahahahahahha essa é impagável!) são as responsáveis por 1) “tentar reduzir a população humana às custas da homosexualização da população” (Ideologia de Gênero), 2) “abrir as portas ao terrorismo do Estado Islâmico, deixando que o terrorismo leve impunemente vidas inocentes” 3) “promover o ódio entre homens e mulheres através do feminismo radical”, 4) “seduzir as mentes dos jovens, enchendo a cabeça deles de lixo” e 5) “lavar o cérebro das pessoas com nefastos sistemas midiáticos poderosos que mentem descaradamente”.

Veja bem: palavras dele e limitei-me a reproduzir na íntegra, e em itálico, as palavras de Vladimir Putin em seu discurso e, convenhamos, não há nada a ser corrigido em suas palavras. Ele está corretíssimo. Tão correto, que, muito pelo contrário, a civilização ocidental agradece penhoradamente o apoio por ele dado à defesa de seus valores e a condenação expressa às máximas defendidas por socialistas, marxistas, comunistas e demais esquerdistas. Pelos vistos, Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha terão mais um aliado de peso, então, no combate às ditaduras esquerdistas dos bolivarianistas, castristas, chavistas, “et caeterva”, que empunham tais bandeiras. José Dirceu, Lula, Maduro, Castro e galera de “companheiros bolivarianistas”, então que se cuidem e enfiem a viola no saco. Nem pensem em contar com o apoio de Putin, imagina! Idem os democratas americanos e os social-democratas europeus. Saibam todos, desde já, que não contarão com a simpatia de Putin. Ah! Coitados. Vão viver de quê esses pobres? Hahahahahahahhaha!

Pois é: patranhas, como ele afirma! Com certeza. Patranhas daquelas bem descaradas e nojentas, mas que levam na lábia muita gente boa, ora se não levam. Dá até pra ficar assustado, mano. De forma que, de repente o discurso de Putin de bom-mocinho, defensor dos nossos lares, famílias e dos valores ocidentais estava parecendo tão sintônico com os nossos, reles cidadãos comuns, e a “música” soou tão harmoniosa a nossos ouvidos, que, como bom brasileiro, chegado a uma familiaridade excessiva e a uma boa pelada, logo agora que a “canarinho” vai iniciar campanha, como uma das favoritas ao título, nos domínios imperiais dele, deu vontade de perguntar, ainda mais sabendo que o cara é fã de esportes: “E aí Caro Vladimir? E o Neymar? Um bolão hein?”.

Hummmmmmm. Acho melhor não. Vai que o Putin tome isso como provocação, logo agora que todos sabem que o futebol russo está sinalizando um vexame monstruoso ao vivo e a cores, com platéia global pra conferir. Se a gente conhece um pouquinho o ego desses poderosos, isso daí deve estar meio que tirando o sono do cara. Propaganda é tudo e ele sabe disso. Hitler, sempre uma ótima referência nesses assuntos complexos de marketing internacional, também sabia (lembram do Jesse Owens nas Olimpíadas de Munique de 1936? Pois é!).

E aí, mano, como é que vai ficar, sabendo que o cara é bam bam bam em artes marciais e tem toda aquela trupe disciplinada e com cara de poucos amigos gritando hurrah… hurrah, Deus & Pátria ou Morte, sob o comando dele? Já pensou? Kaputz!…

Ainda mais que ficam todos aqueles indícios suspeitíssimos e, sobretudo, aquelas questões bastante incômodas no ar: quem tem todo o interesse em disseminar as ideias esquerdistas, assumidamente letais no seio de seus adversários? Qual a fonte que coordena a disseminação de tais ideias? Quem tem o interesse confesso e ancestral de combater a hegemonia europeia da Inglaterra e da França (hoje acrescidas pela liderança dos Estados Unidos e da Alemanha), numa concorrência que se estendeu até ao campo cultural, quando sobretudo a Literatura e a Música produzidas na pátria das “matrioskas” iluminaram os céus da civilização ocidental com as obras de Tolstói, Dostoiévski, Gogol, Tchekov, Stravinski, Rimski-Korsakov, Scriabin e tantos outros? Enfim, quem tem o sonho de ressuscitar a Grande Mãe Russa, num Império que se estenda do Pacífico ao Atlântico? Quem tem a inteligência e a dissimulação necessárias para tarefa de tal envergadura, senão uma mente treinada e cimentada pela disciplina férrea e impiedosa de alguém que foi por longos anos ex-agente do KGB no departamento exterior e chefe dos serviços secretos soviético e russo, KGB e FSB, respectivamente, e conhece profundamente a aplicação e a eficácia destrutiva dessas táticas?

Com toda a certeza, o Putin vai negar até ao caixão tais suspeitas enfadonhas, fazer cara de paisagem siberiana para as indagações e exigir provas cabais, assinatura passada em cartório, comprovação de renda, dizer que é intriga da sociedade imperialista decadente, o escambau. Afinal, se pra confirmar a posse de um reles triplex, naquele episódio que todos nós conhecemos, neguinho que freqüentou o primário dessa escola, aqui pelos trópicos subdesenvolvidos, fez um deus nos acuda digno do Macaco Tião, e assim mesmo conseguiu abalar os alicerces de um país, imagina o terror que num vai tocar um mestre pós-graduado com MBA nessas táticas, se confrontado com suspeitas desse teor. O paiol atômico vai “bombar”. Vai sim.

Pois é, por isso, por conta de tais indagações, é melhor ir bem pianinho com essas intimidades e cuidar de manter o tratamento de Putin. Ou de Sr. Putin, ou de Sua Excelência, de preferência. E com todo o respeito.

Sabemos todos perfeitamente que não existem heróis nem santos em nenhum campo, nesse xadrez sujo da geopolítica internacional, sobretudo quando existem conflitos e interesses contrários: apenas vilões! Sabemos também que todos os políticos mentem e são demagogos, por dever de ofício, mas cá pra nós, que o Sr. Putin não nos ouça e com toda a admiração que como estadista ele merece, que agora ele extrapolou e chamou a todos nós de massa ignara de imbecis, ao pretender culpar os governos ocidentais de todas essas barbaridades, quando ele melhor do que ninguém sabe quem divulga e “defende” tais “patranhas”, isso é inegável.

Não, Putin não é comunista e se há algo que o discurso dele deixa claro e o torna bem-vindo e oportuno é exatamente isso, quando ele expressa claramente sua visceral rejeição pessoal às bandeiras esquerdistas, para quem ainda duvidava disso. Grato, Sr. Putin, o mundo que deseja e trabalha pela Evolução e aponta o Marxismo como o principal obstáculo ao Progresso das Nações, agradece seu esclarecimento e apoio. Mas, pelos vistos, tudo indica que isso não o impede de continuar fazendo uso das velhas táticas comunistas, como esse seu discurso parece sinalizar: “xingá-los daquilo que nós próprios somos e acusá-los daquilo que nós próprios fazemos”.

Se assim for, Gramsci, com certeza irá lhe cobrar os devidos “royalties”, em boa moeda capitalista! Que nem ele, o esperto gênio do Mal era tolo, ora! Comunista sim, mas tolo jamais.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *