O INSULTO

Para quem não curte muito filmes americanos de Hollywood, a categoria mais visada do Oscar é sempre a de produções estrangeiras. Nela, todo ano somos brindados com algumas das obras mais elogiadas ao redor do mundo – que buscam inovar seja pela narrativa diferenciada, ou roteiro bem elaborado, sem saídas fáceis, e donos de tantas questões, que poderíamos debatê-las por dias.

 

 

O Insulto, filme representante do Líbano é a genealogia da cultura – tomando “cultura” pelo somatório de signos que orientam o comportamento de um povo. O filme é um estudo antropológico e sociológico – por vezes, até didático, o que é bom e ruim ao mesmo tempo – de como surge (ou pode surgir) um conflito, especificamente em uma região de tradições fortes e considerada especialmente tensa: o Oriente Médio. A partir de um “estudo de caso”, o longa mostra como uma faísca pode se converter em um incêndio. Ainda que contra toda a lógica.

A faísca, no caso, é uma calha. Ou a falta dela. Tony Hanna (Adel Karam) é um cristão fervoroso libanês que, sem instalar o cano em sua varanda, molha acidentalmente o palestino refugiado Yasser Abdallah Salameh (Kamel El Basha, vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Veneza), engenheiro responsável por uma obra na rua de Tony. Yasser, então, tenta convencê-lo a instalar o aparato e, com a recusa do outro, o faz por conta própria, atitude que é reprovada por Tony.

O incidente gera um xingamento, que evolui para uma (baita) humilhação, que cresce até chegar aos tribunais (é um “filme de tribunal”), que ganha a mídia, que incita o povo, que convoca o presidente, enfim, está aí o incêndio.
A inovação de O Insulto não está em sua forma (a narrativa é tradicional, ou seja, nada muito mirabolante ou artístico – o que é um alívio, pois passa bem longe de qualquer pretensão além de relatar esta história), mas em seu conteúdo. O longa escrito e dirigido por Ziad Doueiri possui um dos roteiros mais provocativos e incendiários dos últimos anos, ao abordar questões como o preconceito e a intolerância, tudo, no entanto, tratado de forma muito consciente. Para a decepção de muitos, este não é um filme panfletário (a forma como uma parcela do público e críticos trata cinema, desde que seja a favor de sua ideologia), e não escolhe lados.

O Insulto apresenta o problema e se propõe a discuti-lo, sem tampouco carregar a prepotência de tentar solucioná-lo. Este papel cabe ao público. O longa existe para sacudir, para questionar, colocando um espelho na frente do espectador.

Aqui, as respostas não vêm fáceis. Não existem vilões ou mocinhos, certos ou errados. O Insulto é apenas o retrato de um país, ou quem sabe de nosso mundo, funcionando mais do que qualquer outra coisa na forma de um conto cautelar, alertando dos perigos de convicções irremediáveis e imutáveis, cujo reflexo ao longo da história geraram apenas guerra e sofrimento. Essencial e indispensável, O Insulto possui uma das mensagens mais imprescindíveis deste início de ano, que precisa ser propagada para o maior número de pessoas possível. Acredite: você não irá querer perder este filme.

Pablo Bazarello

 

Crítica  extraída  do  site CinePop

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