RETALHOS A GRANEL DE PAULO MONTEIRO PARTE 11: “PARTIDO ALTO”

 

Não existe retrato que possa clarificar com maior perfeição aquilo que de fato estava sendo julgado atrás das cortinas do teatrinho empostado e pré-articulado pela bancada de togados, durante as 11 horas de exaustiva exposição técnica e jurídica de argumentos, encenada no plenário do STF neste memorável quatro de abril verde e amarelo, do que o exemplo citado pelo Ministro Luiz Fux: “uma determinada comunidade de homens de bem, após justiçar por conta e risco próprios o suspeito de um crime hediondo, chamou as autoridades locais e informou: “Agimos dessa maneira porque não confiamos mais na Justiça e na atuação das autoridades constituídas”.

Bingo! Mais claro do que isso, nem desenhando! Ou pintando! Seja como for, o exercício das Belas Artes pictóricas não deve sensibilizar algumas facções do STF, certamente bem mais afeitas a artes mais “práticas” e, com certeza, bem menos espirituais. Ou o exercício do “mea culpa”, conforme implicitamente sugerido pelo exemplo citado pelo ilustre Ministro talvez não seja propriamente um hábito tão popular nas elevadas esferas do Poder tupiniquim.

Mas, sutilezas artísticas e espirituais à parte, o fato é que o Ministro Luiz Fux foi mesmo de uma acuidade excepcional ao colocar o dedo precisamente na ferida purulenta de nossa maior carência como Nação: a ausência contumaz de uma liderança proba, firme e patriótica que, nos últimos decênios, tenha conduzido a nação pela trilha altruística da Justiça e da Ordem e Progresso, tão alardeados por nosso símbolo pátrio máximo. .

De fato, o exemplo citado pelo Ministro Luiz Fux registra precisamente o momento solene em que o Brasil se viu na contingência de ter que escolher entre continuar sendo um país guiado pela anarquia e pela Lei de Talião, oscilando ao sabor da justiça por conta própria ou a serviço de mandatários de fancaria e “tiranetes” de ocasião, e com isso se equiparando aos padrões de aferição de qualidade de vida de algumas republiquetas “quarto-mundistas” (sim, porque terceiro-mundistas nunca deixamos de ser) espalhadas pela África, Ásia, Médio Oriente e até pelas Américas  e se assumindo de vez como uma continental e farsesca República das Bananas dominada por oligarquias retrógradas e gananciosas e refém de organizações criminosas capazes de qualquer ato vil – literalmente QUALQUER ato, como ficou cada vez mais transparente pela conduta ensandecida de seus líderes -, para se garantirem no Poder, ou um país cujos alicerces precisam ser literalmente reconstruídos para que possa se ajustar gradualmente aos trilhos que levam ao bem-estar coletivo e ao patamar superior e estágios civilizacionais já atingidos por outros países, ditos de Primeiro Mundo.

Chega a ser deveras irônico, portanto, que o peso dessa escolha tenha recaído justamente sobre os ombros de pessoas majoritariamente escolhidas e ali colocadas comprovadamente para garantir e pavimentar a trilha e os planos criminosos de líderes canalhas cujo único objetivo era o de se entronarem no Poder, nem que para tal precisassem levar um país à ruína e ao caos, como bem tentaram, com o maior esforço e denodo. E seguem e seguirão tentando, se tal lhes for permitido. Quem sabe, mais uma vez tenhamos sido salvos pelo esforço sempre heroico da patota amiga da Lava Jato, pela movimentação expressiva de muitos nas redes sociais e pelo dedo e recado discreto de algumas personalidades influentes que a canalhada tanto teme (Opaaaaaaaaaa!).

Ou quem sabe, mais uma vez se confirme a máxima lusa: “ao menino e ao borracho, põe-lhes Deus a mão por baixo”. Afinal, se ainda nem somos hexa e nem mesmo os redundantes 7 x 1 de triste memória conseguiram abalar a confiança pátria, tudo leva a crer que só mesmo a desencanada suposição de que  Deus seja mesmo brasileiro, como tantos apregoam, possa explicar tanto descaso com o futuro da pátria amada. Ou quiçá ainda vivamos o rescaldo saudosista da carta de Pero Vaz de Caminha que deixou registrado para a intemporalidade “que nesta terra em se plantando tudo dá”. Traços de sebastianismo, detectados por Chico Buarque na genial música “Partido Alto”:

 

“Deus dará, Deus dará…”

Mas, Chico é Marxista e se for coerente com isso, também ateísta. Contudo, cautela com a normalidade e a coerência, pois todos nós sabemos que normalidade e coerência jamais foram o forte dos comunistas. E Chico Buarque, indubitavelmente um poeta e compositor genial, está muito distante de ser exceção à regra nesse quesito, como todos nós também sabemos! Paciência! Ninguém é perfeito. Mas cá pra nós, que ninguém nos ouça: precisava descarrilar desse jeito? Arre Égua mano, como falam com muito humor os nordestinos!

Seguindo adiante com o andor e mantendo a pompa e circunstância exigidas pela ocasião, ressalve-se que o Ministro Fux foi nisso inteiramente corroborado com imensa felicidade, também, pelo Ministro Luís Roberto Barroso que afirmou convicto: “não querer legar a seus filhos e netos um país aonde se continue a permitir o primado indecente da impunidade” e continuou a peroração deixando no ar a seguinte indagação: “prisão em segunda instância, para quê e para quem?”. Subentende-se, naturalmente, que ficam ainda mais enfáticos tais questionamentos por serem formulados exatamente no plenário pretensamente criado para evitar ou solucionar tais descaminhos. Porém…

Uauuuu! E não é que tinha vida no Quartel de Abranches! Até ali, salvo pela óbvia votação do Ministro itinerante, Gilmar Mendes, cuja única função naquele local, além de enfurecer as plateias de todos os matizes, como costuma fazer, certamente foi a de garantir o voto favorável à solicitação de Habeas Corpus, tão pressuroso que estava por retornar aos bons fluidos da boa terrinha lusitana, a impressão que se tinha é que, contrariando as expectativas trombeteadas em todos os canais de mídia pelo comportamento lunático e boçal de alguns deles, os ilustres togados ali reunidos podiam sim, ser gente como a gente. Olha só, que espanto! E que imenso consolo também, o sermos informados que alguns deles, assim como nós, simples mortais, também se preocupavam com o futuro de seus descendentes; quem sabe até lamentavam as tristes estatísticas que colocam o Brasil na vergonhosa condição de nação em guerra civil crônica, com condições de segurança que em algumas de nossas metrópoles se igualam em risco aos de países assumidamente conflagrados do Oriente Médio; quem sabe até mesmo estavam solidários com o sofrimento de uma população permanentemente  vítima dos péssimos indicadores de Saúde, Educação e Qualidade de Vida exibidos pelos recentes governos sob responsabilidade daquele mesmíssimo cidadão que pleiteava um Habeas Corpus para seus crimes, e – espanto maior ainda – quem sabe se indignavam pelos descarados e galopantes casos comprovados de corrupção colocados em níveis assombrosamente estratosféricos, justo pelos governos liderados pelo cidadão que pleiteava um HC naquele plenário. Mas aí certamente deverá ser pedir demais, pois nem precisa usar turbante e apelar para uma bola de cristal para adivinhar que o petista confiava nas bases que “plantou” para se atrever a tamanho desplante.

Mas, cá pra nós, se deu mal, muito mal. Como, aliás, tem ocorrido desde o momento em que decidiu partir para o tudo ou nada e apelar para a “baixaria” pura e simples, tentando criar o caos e uma conflagração geral no país, a qualquer custo, com isso imaginando poder auferir algum lucro. É lastimável apenas que as estripulias anárquicas e caríssimas, o investimento em todo esse “aparato” protetor, e enfim todos esses caprichos de arrogância cometidos pelo dito cujo cidadão, no frigir dos ovos estejam a ser pagos com a condescendência de quem? E, se acertarmos bem as contas, continuam sendo bancados adivinha por quem? Quem? Acertou coleguinha… Mas, está tudo certo: pagamos por nossas escolhas. Mesmo quando se trata de alguém como o “degas” aqui, que com certeza está “purgando” o desvairo da insanidade petista por conta de qualquer outro pecado, dos muitos certamente computados em meu rol, mas desse está inteiramente inocente, já que nunca – mas nunquinha mesmo – cometeu a insânia de votar em partidos do quilate de PT e similares. E se acaso votou em partidos de esquerda, foi por absoluta falta de opção e para tentar evitar males piores, pois no Brasil, sempre só existiram partidos de esquerda.

Contudo, o mais genial é que, por tabela, a observação daqueles Ministros expôs claramente o que nossa precariedade e despreparo colocou no lugar daquilo que deveria ser o verdadeiro e primordial foco do nosso Judiciário: o Justo, a Verdade e o Correto, totalmente obscurecidos e substituídos pelos conchavos “chicaneiros”, os casuísmos da “Lei” e os intermináveis e intrincados meandros jurídicos, que fazem as delícias da bandidagem em geral e funcionam como mais uma garantia de impunidade para a politicagem espúria que deles se locupleta, com todo o garbo e muito gáudio, como o país pôde assistir de camarote ao longo desse processo que envolve o ex-presidente petista. Um verdadeiro “playground” maquiavélico, aonde se refestelam as inúmeras bancas de rábulas escovados, e a “Universidade” aonde se formam a cada ano novos candidatos a futuros “doutores”, todos eles exímios conhecedores de tais meandros, atalhos e casuísmos, mas absolutamente alheios ao verdadeiro sentido da Justiça. E, na verdade, inteiramente desinteressados desses “detalhezinhos” de somenos importância. Como se esmeraram em dar exemplo disso os 05 Ministros responsáveis pela votação favorável ao Habeas Corpus, todos eles inteiramente empenhados em explorar as eventuais imprecisões ou contradições criadas pelas brechas de uma “Lei” mastodôntica, mas em momento algum preocupados em se guiar pelos ditames do justo e do correto.

É o império da vitória do mais “arteiro” ou do mais “safo”, a qualquer custo, pouco importando para tal que as verdadeiras vítimas dessa estreiteza de pensamento sejam a Verdade e a Justiça, e, numa visão mais aprofundada, que seja sacrificado inteiramente o futuro saudável de uma coletividade e de uma Nação. É o triunfo do lucro fácil, do caminho mais curto e da visão “esperta”, coeso e afinado com os valores que tanto cultivamos neste país.

E nesse diapasão de monotonia decorreu a sessão, num tédio e previsibilidade só quebrados pelo voto pendular e até certo ponto surpreendente da Ministra Rosa Weber, posicionando-se contrária ao Habeas Corpus e com isso sepultando por agora as pretensões petistas. Pelo menos na fase que ali se desenrolava, já que, em se tratando do Judiciário Brasileiro, não há nunca como afirmar ou precisar o esgotamento dos trâmites jurídicos, que, como num truque de prestidigitação barato e infernal, se desdobram hiperbolicamente a cada instante, em infindas e arrastadas fases processuais.

Não há como não louvar a atitude honesta – profissional ou patriótica (quem se atreverá a escrutinar o que se passa na intimidade da mente de cada um?) – da Ministra Rosa Weber, que, mesmo tendo confessado votar contrariamente à sua posição pessoal sobre o assunto, “não teve como reputar ilegal, abusivo ou teratológico (eita, palavrão mais feioso; só podia significar algo malformado mesmo gente), acórdão que, forte nessa compreensão do STF, rejeita a ordem de HC”.

Com isso, a Ministra atraiu a ira e a confrontação explícita dos Ministros Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello, obviamente inconformados com a votação da Ministra Rosa Weber, que deve ter ferido profundamente seus interesses pessoais. Como se não bastasse termos de tolerar um Supremo todo ele absurdamente constituído por “indicações” presidenciais – muitos deles indicados até pelo mesmo ex-presidente que naquele momento pleiteava um HC – algo que no mínimo configuraria uma presunção de suspeição, em qualquer país onde vigorasse uma normalidade judiciária plena, fomos obrigados a “engolir” o desrespeito – que por muitos foi tachado de machismo puro, mas que em meu entender não passou de grosseria pura – dos ilustres togados para com a Ministra. Um comportamento ridículo e inacreditável que, posteriormente foi estendido e direcionado também para a atual Presidente do STF – ou seria Presidenta, caso tenhamos que respeitar as preferências linguísticas em vigor naquele Plenário? -, a Ministra Carmen Lúcia que encerrou as votações pondo a pá de cal nas pretensões petistas. Um comportamento deveras lamentável, mas que não surpreende tanto nem destoa um centímetro sequer daquele a que a bancada petista e seus simpatizantes e coligados nos tem acostumado.

Essa passou raspando, mas, pelo sim e pelo não – aleluia! Tivemos a celebração da Páscoa em dobro, este ano -, com isso se encerrou mais uma etapa desse processo, lamentável por atingir a figura de um ex-presidente, algo que de fato em nada suaviza a imagem e a fama obviamente pouco abonadora que o país tem cultivado no exterior, ultimamente, mas que se faz necessária, como expurgo das inúmeras mazelas que vimos cultivando ao longo das últimas décadas, ou – para nos determos numa análise mais compassiva – como conseqüência natural de sermos ainda uma nação bastante jovem e imatura.

Posto isso, resta-nos torcer fervorosamente para que, no país que venha a sobrar e que, com a Graça de Deus irá se reerguer após todo esse doloroso rito de depuração, nossos descendentes tenham a chance de presenciar um ato de reverência similar, não mais para tentar livrar um canalha identificado mundialmente e já condenado por unanimidade em segunda instância por um judiciário sério e íntegro, mas, por exemplo, para reverenciar a memória de uma humilde professora que deu sua vida para tentar salvar a de seus alunos. Essa sim um espírito de imensa grandeza, digno da pompa e circunstância que em nossa cegueira e bajulação, coerentes com a inversão de valores que nos tentam impor, dirigimos erroneamente a um facínora.

Quem sabe, após expurgarmos dolorosamente nossos erros, nesse país que sobrar e precisamos reconstruir haja espaço e entendimento para que as pessoas compreendam com um mínimo de clareza que não devem cair na redundância de votar em candidatos e em políticos desonestos e corruptos, quer eles tenham uma plataforma de esquerda, de direita, de centro ou até pretensamente “divina”. Essa é a lição básica que deveria ser extraída de todo esse processo. A lição que estabeleceria a concórdia e a harmonia entre todas as tribos, mesmo mantendo as eventuais e naturais diferenças e colorações ideológicas, sempre existentes entre seres humanos, sob pena de termos que repetir a lição e continuarmos perpetuando o ciclo de Lulas, Aécios, Temers, FHC’s, Collors e tantos outros da mesma “escola” e quilate similar (algo que soaria exaustivo enumerar).

 

Mas essa é a lição que os fanáticos e doutrinados petistas se recusam e provavelmente sempre se recusarão a aprender.

 

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A  IDEOLOGIA  DAS  TREVAS

 

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