A SERPENTE NO JARDIM DO ÉDEN (Parte 1)

A pior de todas as serpentes possíveis é a eterna inclinação humana para o mal.

 

 

Resultado de imagem para a serpente no jardim do édenMesmo se tivéssemos derrotado todas as serpentes que nos cercam, reptilianas e humanas, ainda assim não estaríamos seguros. Nem estamos agora. Afinal, já vimos o inimigo, e somos ele. A serpente habita a nossa alma. Esse é motivo, no meu entender, para a estranha obstinação do cristianismo, tornada mais explícita por John Milton, pela ideia de que a serpente no Jardim do Éden também era Satanás, o próprio Espírito do Mal. A importância dessa identificação simbólica – seu brilhantismo surpreendente – é imensurável. Foi através desse exercício de imaginação de milênios que a noção de conceitos morais em si, com todas as suas conseqüências, se desenvolveu. Um imenso esforço foi investido na ideia do Bem e do Mal e na metáfora onírica que a cerca. A pior de todas as serpentes possíveis é a eterna inclinação humana para o mal. A pior de todas as serpentes possíveis é psicológica, espiritual, pessoal e interna. Muro algum, não importa a sua altura, vai mantê-la afastada. Mesmo se o castelo fosse espesso o suficiente, em princípio, para manter tudo de ruim do lado de fora, ela apareceria imediatamente do lado de dentro, novamente. Como o grande escritor russo Aleksandr Solzhenitsyn enfatizava, a linha divisória entre bem e mal passa pelo coração de cada ser humano.

Simplesmente não há maneiras de murar uma porção isolada da grande realidade ao nosso redor e tornar tudo permanentemente previsível e seguro do lado de dentro. Alguma parte de tudo o que o que for excluído, mesmo da forma mais cuidadosa, sempre vai se esgueirar de volta para dentro. Uma serpente, metaforicamente falando, vai inevitavelmente aparecer. Mesmo os pais mais cuidadosos não conseguem proteger seus filhos, mesmo prendendo-os no porão, seguramente longe de drogas, álcool e pornografia na internet. Nesse caso extremo, o pai ou mãe excessivamente cauteloso ou cuidadoso será apenas um substituto dos outros problemas terríveis da vida do filho. Esse é o grande pesadelo freudiano do Édipo. É muito melhor tornar aptos para a vida os Seres que estão sob seus cuidados do que protegê-los.

E, mesmo se fosse possível banir permanentemente tudo de ameaçador – tudo de perigoso (e, portanto, tudo o que é desafiador e interessante) significaria que outro perigo emergiria: o infantilismo permanente e a inutilidade absoluta dos seres humanos. Como poderia a natureza do homem atingir seu potencial total sem desafios ou perigos? Quão chatos e desprezíveis seríamos se não houvesse mais nenhuma razão para prestar atenção? Talvez Deus achasse que Sua nova criação conseguiria dominar a serpente e considerou a presença dela como o menor dos males.

Pergunta para os pais: vocês querem fazer com que seus filhos estejam seguros ou que sejam fortes?

Resultado de imagem para a serpente no jardim do édenDe qualquer forma, há uma serpente no Jardim e ela é uma besta “sutil”, de acordo com a História antiga (difícil de ser vista, nebulosa, astuta, ludibriosa e perigosa). Assim, não é uma surpresa quando ela tenta enganar Eva. Por que Eva e não Adão? Poderia ser apenas acaso. Eram 50% de chances para Eva, estatisticamente falando, e são chances bem altas. Mas, aprendi que essas histórias antigas não têm nada aleatório. Qualquer coisa acidental – que não sirva à trama – foi deixada de lado há muito tempo. Como o dramaturgo russo Anton Chekhov advertiu: “Se há uma arma pendurada na parede no ato um , ela tem que ser disparada no seguinte. Caso contrário, não tinha nada que estar ali”. Talvez a Eva primordial tivesse mais razões para se preocupar com as serpentes do que Adão. Talvez houvesse uma chance maior, por exemplo, de que as serpentes atacassem as crianças que habitavam as árvores. Talvez por esse motivo as filhas de Eva sejam mais protetivas, autoconscientes, temerosas e nervosas até hoje. Seja como for, a serpente diz a Eva que se ela comesse do fruto proibido ela não morreria. Em vez disso, seus olhos seriam abertos. Ela seria como Deus, sabendo diferenciar o Bem do Mal. Claro, a serpente não avisa que ela seria como Deus apenas nesse sentido. Bem, ela é uma serpente, afinal de contas! Sendo humana e querendo saber mais, Eva decide comer a fruta. Puff! Ela acorda: está consciente, talvez autoconsciente pela primeira vez.

Agora, nenhuma mulher consciente e lúcida vai tolerar um homem não desperto. Então, Eva imediatamente compartilha a fruta com Adão. Isso torna Adão autoconsciente. Pouco mudou. As mulheres têm tornado os homens autoconscientes desde o princípio dos tempos. Elas fazem isso, primariamente, ao rejeitá-los – mas também o fazem ao envergonhá-los, caso não assumam a responsabilidade. Não é surpresa, uma vez que a mulher carrega o fardo primário da reprodução. É muito difícil tentar entender como seria de outra forma. Mas, a capacidade da mulher de envergonhar os homens e torná-los autoconscientes é ainda uma força primária da natureza.

 

Extraído do Livro “12 Regras para a Vida” de Jordan B. Peterson (Alta Books Editora)

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