SOPHIA NA JANELA

“Meu amor..meu amor, nunca se ausente de mim, para que eu viva em paz, para que eu não sofra mais tanta mágoa assim no mundo sem você”

(Sem Você  –  Chico Buarque & Tom Jobim)

 

 

 

 

Sophia chegou até nós nove anos atrás, por adoção, graças aos bons ofícios de uma dessas tantas boas almas que a resgataram de um lixão onde houvera sido abandonada para morrer ou ser entregue à própria sorte. E, quando a Providência assim deseja, a sorte acontece.

Naturalmente assustada e arisca, talvez pelos terrores sofridos, logo desenvolveu um “vitiligo” emocional. Decidimos chamá-la Sophia Loren, pois queríamos que passasse a se sentir como a mais cintilante das estrelas. E dessa forma ela viveu e iluminou todos os momentos que esteve entre nós. Dócil e educada, Sophia logo virou companhia inseparável de Rita. Sophia era a porta para o paraíso na vida de Rita e Rita era tudo na vida de Sophia. E apenas a presença de uma era indispensável e suficiente à outra.

Tornaram-se parceiras e confidentes – sim, elas se comunicavam entre si e, creia-me, nem toda a comunicação é falada. Parceiras de viagens, de passeios, de qualquer tipo de lazer: desde “pegar jacaré” nas pequenas ondas da praia, a dividir a prancha com a mãe no “stand up paddle”, Sophia sorria e exalava sempre um prazer intenso; do barzinho, ao shopping, às tardes na pracinha de Sophia, aonde quer que uma delas estivesse, certamente encontraria a outra. Lisa, de pelo curto, pintadinha, muito friorenta e elegante, sempre vestida com uma roupinha diferente, costurada pela mãe e apropriada para cada estação, Sophia despertava a inveja do “papai” que se queixava de não ter tanta roupa quanto ela. Nossa vida ficou inteiramente condicionada aos horários de cuidados com ela e à possibilidade de permitirem ou não sua presença. Sem exceções nem concessões ao comodismo ou ao egoísmo.

 

 

Sophia não era e nunca foi de fato apenas um pet. Era parte integrante de nossa pequena família. Se nunca falou é por que decidira de moto próprio não fazê-lo. Nem precisava, seus olhos já diziam tudo e demonstrava a todo o instante o que desejava e precisava, sendo necessário apenas um pouco de sensibilidade e estar atento ao que ela comunicava. Conhecia como ninguém a rotina da casa, bastando uma simples palavra, até uma leve mudança de entonação para ficar imediatamente alerta e de prontidão. Aguardava pacientemente a hora – sempre religiosa – de ser levada para satisfazer suas necessidades fisiológicas e jamais em casa. Jamais. Era até tão meticulosa e polida, que só as satisfazia na grama, ou, quando muito, na terra. Nunca na pedra.

Estrelas de cintilação tão intensa são como cometas incandescentes, mas, de brilho fugaz. E Sophia veio com um sopro no coração que se complicou no último ano com o surgimento de um edema pulmonar insistente, que agravou o quadro cardíaco. Foi um ano de intenso sofrimento e desvelo com idas contínuas ao veterinário e ao cardiologista – sim, ela tinha um cardiologista – entremeadas por períodos de intenso júbilo no convívio conosco. Sophia era a inocência pura. Mal se via levemente restabelecida dos males que a acometiam em terrores quase sempre noturnos, ressuscitava para a vida e para a alegria, inteiramente alheia ao monstro voraz que a consumia e esvaía suas forças interiormente.

Essa mesma alegria que a levava a desafiar-nos permanentemente para jogar bola com ela ou a debruçar-se à janela para contemplar cada pequeno detalhe da vida que pulsava lá fora e que ela absorvia com seus doces olhos de furta-coração.

Teve uma parada cardíaca e foi desenganada, mas seu amor era tão intenso que ainda nos presenteou com 34 dias sublimes, para poder completar um amoroso ritual de despedida.  Uma despedida que, como bem definiu Rita, foi uma mescla de viagem ao âmago da dor da perda e ao baú das mais doces lembranças, e um até breve lancinante, mesmo para nós, “cachorreiros” de carteirinha, já calejados na lide, acolhimento e despedida de dezenas de pets similares e adoráveis, ao longo de mais de quarenta anos de convívio. Uma despedida que representou um bônus, a nós que carregamos até ao fim com o máximo de dignidade possível, esse Bilhete Premiado que recebemos. Pois, Sophia era de fato muito especial.

Sophia é hoje uma estrelinha, para sempre plasmada em nossos corações de onde poder algum poderá arrancá-la. Sophia é nosso canto do cisne na janela, contemplando o oceano de beatitude no horizonte que à nossa frente se abre. Nosso PHD no caminho do amor, nessa trilha agridoce que ela veio para nos ensinar, trazendo a certeza do momento de um reencontro no infinito.

 

 

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