VELEJARES (Paulo Monteiro)

(Veleiros Parte II)

 

 

 

 

Amanheci leve e nostálgico, saudoso dos muitos amigos que em tantos e tão variados cais quis a vida que eu pudesse aportar. Desfraldei a mezena dos afetos e lancei-me, peito aberto, por vasto oceano de sentimentos a velejar.

Direis que sou perdulário, célere demais no julgar. Que amigos se contam nos dedos, que nem sempre é a vida tão pródiga em encontros, e tampouco é gentil no gostar. Quem sabe sejais severos no olhar, avaros com o sentir, medrosos em excesso com o vogar. Questão de perspectiva, pois tudo é a forma de encarar.

Singrei a rever amigos. Amigos que duraram o tempo exato de uma estação e amigos que vão e vêm com as marés, exatamente da mesma forma que estão ondas no marulhar. Há sempre um ir e um voltar e a alma cigana afeita a diferentes pendores sempre encontra novo ânimo para perseverar.

E revi amigos que se surpreendem a cada reencontrar e amigos que nem mais cuidam de se espantar. Amigos ao alcance de uma fala e outros somente da escrita e do pulsar. Revi amigos que imaginam na ilusão do tempo e da distância se ocultar e os que não mais se permitiram a me identificar. Amigos de carteado, filosofia e papos-cabeça, e amigos da fuzarca, da zoeira e de muito bebericar; amigos quase ermitões, pouco dispostos a se socializar e amigos que preferem o caos urbano e “shows” de jazz, em Curitiba, Nova Iorque ou Barcelona, com vinhos finos e caviar; amigos que optam por no Carnaval de Aracati se esbaldar e outros que só bebem Ayahuasca, gostam de trilhas ecológicas, banhos de cachoeira no coração da floresta amazônica e ao som de uma flauta de Pan meditar.

Amigos com laços e afetividades musicais, esses então perdi a conta de querê-los rotular: do fã de música sacra que se fantasia de Papa para suas apresentações musicais ilustrar, ao amigo ex-roqueiro que me apresentou à banda Mountain, no som incrementado de um fusquinha a estridular; do violeiro cujo toque tinha o dom de fazer qualquer mudinha falar aos amigos enciclopédicos que curtem Connie Francis, Grieg ou Radiohead com igual extasiar; do fã de Whitney Houston ao clone de Frank Sinatra, do tiete de Roberto Carlos aos veneradores de Jobim, Cole Porter ou Piazzolla, a todos ofereci pedaços do coração como lar.

Revi amigos negros, magros e umbandistas e amigos brancos, gordinhos e ateístas. Amigos de “coaching”, terapeutas e mestres ou amigos discípulos, coxinhas … e até mortadelas, para meu imenso pesar. Amigos do quintal da esquina e amigos de outros sóis, outros mares e de outro pensar. Educados amigos e “hermanos”, aplaudindo constrangidos mais uma vitória brasileira num daqueles inesquecíveis “derbies” futebolísticos sul-americanos e compenetrados amigos europeus, soltando a franga na cadência sestrosa de uma “cabocla” a gingar.

Dizem elas que os homens são todos iguais; já eles, afirmam convictos que mulher é tudo igual, só muda o lugar. Vai saber quem tem razão! Um olhar mais acurado à paisagem milhares de “verdes” irá desvendar. Mas isso é pra quem tiver tempo e vagar para contemplar.

Homens são mercenários apenas com seus corpos. No entanto, renitentes e pudicos ao com a alma lidar. Assemelham-se a crustáceos encasulados em seus grotões a lagartear. Pesadas naus semi-estáticas em seus portos seguros, que exigem fundo e calado máximo para fundear, mas nem sempre a rasa superfície lhes permite o prumo e o equilibrar. E como são instáveis os humores do mar.

Já, as, mulheres!…  Ah! As mulheres! Como são mais sábias e mais generosas com o ousar. Leves e ágeis veleiros, sempre prontos para um renovado navegar. Sempre enfeitadas a cada novo porto, ávidas por um novo ancorar.  Gaivotas cruzando serelepes os mares e pousando apenas aonde as transporte o desejo de bicar.

Retocam a maquiagem e refazem a progressiva. Lançam âncoras e da mesma forma as içam, com a mesma rapidez com que renovam a quilha, o visual e também o aparentar. Permitem-se mais trocas e afetos, são mais maleáveis até para disfarçar. Por isso, tive amigas aos borbotões. Depressivas, eufóricas ou bipolares, arteiras ou recatadas, discretas ou espalhafatosas; dedicadas ou independentes, sofisticadas, cultas e inteligentes, lindas ou “bonitinhas” e até as nem tanto assim, para um pouco variar. Existe sempre algo em alguém, digno de se apreciar. Mesmo quando isso requer uma lupa para enxergar. Ou a delicadeza de saber reverenciar.

Usei e abusei de tal privilégio, mas, como qualquer um que se julgue um cavalheiro, deixo à criatividade, ao decoro ou à malícia de cada um o querer imaginar.

Revi, enfim, amigos de todos os gêneros, quando a nenhum gênero se impunha cartilhas, quando era mais leve e incorreto o expressar. Quem almeja percorrer o círculo do Yin & Yang deve estar apto a qualquer fluir e em vários mundos transitar. Abri porteiras, mas jamais queimei navios. Acessei espaços oceânicos de convívio, aonde adentrou quem comigo quis e ousou velejar. Espaços democráticos, fluídicos onde o tempo está à distância do pensar e até a morte é apenas um sutil transmutar.

E hoje, este coração marinheiro, corsário combalido de tantas lides pelejar, de com tantos navios pelos mares da vida cruzar, baqueia, mas não aderna nem deixa de pulsar ao escutar o bramir do mar, e, ao ver horizontes e velas a hastear, sonha ainda com quantas e quais amuradas ainda se irá debruçar!

 

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