Verdes são as cores do arco íris

 

 

Quer saber? Acho um porre escatológico essa gaiola ideológica castradora na qual tentam encerrar qualquer ser pensante livre no Brasil. Como se pensadores livres merecessem ser obrigatoriamente rotulados e atrelados a um código de crenças uniformizado, para que não sejam catalogados como alienígenas.

Ah, se eu pego o “Freud” que inventou isso! Ridículo, como divertidamente acentuaria o hilário Paulo Gustavo!

Resultado de imagem para another brick in the wallDe que outra forma se interpretaria então essa necessidade paranóica de, após enquadrar as pessoas como sendo de “direita” ou de “esquerda” – uma simplificação que pode até ser compreensível por questões acadêmicas, mas, que por si só já conduz obrigatoriamente à limitação, dada a extrema subjetividade de ambos os termos -, ainda tentar padronizá-las como se literalmente todas tivessem saído diretamente da linha montagem de alguma grande indústria de automóveis para as filmagens do clipe musical de “Another Brick in The Wall”, do Pink Floyd?

Talvez essa padronização e anulação da individualidade interesse à assim denominada “esquerda” militante, no Brasil que, de fato se esmera em exibir um comportamento robótico e desmiolado. Quase generalizado. Nada a espantar, contudo. A explicação é óbvia. Afinal, eles têm uma cartilha e objetivos claramente definidos a cumprir!

No entanto, a grande maioria das pessoas, essa maioria silenciosa, por vezes alienada e permanentemente encastelada em suas zonas de conforto, passa longe de qualquer militância política e, convenhamos, dificilmente poderia ser descrita, de antemão, como sendo de “direita” ou de “esquerda”, seja lá o que isso signifique na cabeça de cada pessoa.

Então, fica a questão: a quem interessa tal simplismo e por que razão é ele adotado por tanta gente?

Resultado de imagem para todas as colorações do arco írisComo se ser de direita signifique que, em nome de uma doutrina liberal e capitalista, a criatura tenha que apoiar necessariamente quaisquer desmandos predatórios dos grandes conglomerados ou a usura desenfreada e monopolizadora das instituições financeiras! Como se, defender o crescimento e o bem-estar das nações implique que se tenha que apoiar o crescimento a qualquer custo! Como se, estar “atrelado” compulsoriamente a alguma corrente ideológica obrigasse alguém a concordar com todos os pensamentos e pontos de vista daquela corrente e, inversamente, impusesse a rejeição automática dos da corrente contrária! Como se todo e qualquer liberal fosse um predador ecológico em potencial e um sociopata, atropelando qualquer outro ser vivente em nome de seus interesses gananciosos e egoísticos. Como se não houvesse anos-luz de distância e todas as colorações do arco-íris existentes e por inventar, de permeio, entre ambição e ganância! Como se o fato de ser fervorosamente adepto do liberalismo impeça alguém de apreciar e considerar justos certos pensamentos “catalogados” como sendo da matriz contrária! Como se ser de esquerda outorgasse a alguém o privilégio de se nomear único defensor do social! Ridículo!

Resultado de imagem para ERICH FROMMTalvez algumas respostas possam ser encontradas nos pensamentos de Erich Frömm, o filósofo e psicanalista alemão, circunstancialmente um marxista ferrenho – será que algum conservador de extrema-direita irá me rotular como comunista, a partir de agora? Só me faltava essa… -, o que jamais me impediu de apreciar alguns de seus pensamentos, como também nunca deixei de apreciar a arte de Picasso, ou as poesias de Federico García Lorca, nem de louvar a imensa contribuição de Bertolt Brecht ao teatro moderno; na mesma linha de pensamento, para citar apenas comunistas brasileiros famosos, o fato de todos serem marxistas, jamais foi obstáculo a que me extasiasse com os monumentais painéis de “Guerra e Paz”, de Candido Portinari, ou com as sublimes composições musicais de Chico Buarque de Hollanda, ou me eximiu de ter devorado avidamente quase toda a obra literária do baiano, Jorge Amado, na juventude; na verdade, sequer deixo de reconhecer alguns acertos pedagógicos na obra de Paulo Freire, o Patrono da Educação Brasileira, malgrado o fato de que tal honraria em pouco o abone, dados os frustrantes resultados práticos colhidos. No entanto, tal admiração estética por alguns deles jamais me aliciou a aderir aos ideais marxistas. Pelo contrário: sou radical e visceralmente contra tal ideário. Tolerância ZERO. Mas, não necessariamente contra cidadãos marxistas – ou, pelo menos, não contra todos eles – e muito menos contra suas manifestações artísticas e culturais.

Resultado de imagem para gandhiNa verdade, talvez minha natureza taurina, ligada ao elemento Terra, sempre tenha cultivado certa solidez casmurra e uma prevenção instintiva que me permitiu distinguir e isolar adequadamente a pureza e a beleza natural de alguns conceitos teóricos, de sua aplicabilidade duvidosa ou nula, na prática. Mas, isso não implica em estar fechado às várias e multiformes manifestações de vida. Por isso, continuo expressando respeito e admiração pela Grande Alma que foi Mohandas Gandhi, mesmo não ignorando as terríveis conseqüências causadas pela aplicação cega de seus ensinamentos, na prática, no subcontinente indiano. “A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”, já dizia alguém mais famoso e Iluminado do que qualquer outro.

Resultado de imagem para martin luther kingPor isso, não deixo de reverenciar as figuras de Nelson Mandela, indiscutivelmente marxista, e de Martin Luther King Jr., sobre quem recaíram algumas suspeitas idênticas, muito provavelmente inteiramente infundadas, já que o grande orador de “Eu tenho um Sonho” sempre afirmou desprezar parte do pensamento de Marx e, sobretudo, aquilo em que os regimes ditos comunistas se transformaram, mas admirava, e muito, as ideias da doutrina em relação aos pobres e à justiça social. E, recorde-se que, à época, os Estados Unidos viviam, além da natural combustão causada pelo movimento liberacionista, liderado por King, o rescaldo da fúria e dos excessos macarthistas, que levaram o FBI a plantar “evidências” altamente duvidosas no caminho do Reverendo King. Mas, o que importa isso? Muito maior do que esses detalhes comezinhos será sempre o registro das grandes obras por todos eles legados à Humanidade.

Uma grande amiga – e Mestra -, que já desencarnou muitos anos atrás, tinha o hábito de me fazer uma observação que originou uma poesia que pude completar alguns anos depois, “Verdes são as cores do arco íris”: “Paulo, você já percebeu quantos tons de verde existem naquela árvore?”

Pois é. Centenas de “verdes”. E era uma única árvore, veja só. E, no entanto, todos eles são chamados indistintamente de “verdes”. Mas, será que todos são iguais? Mais uma vez, a pobreza gritante de nosso vocabulário obrigou a uma generalização que apenas serviu para ocultar a profunda complexidade da vida.

Por isso, como condenar sem conhecer? Como rejeitar sem experimentar? Provavelmente, a preguiça, a incerteza ou o receio de agir obriguem muita gente a optar pela generalização, pela rotulação e pela limitação. O que, de fato, representa sempre uma tentativa de escamotear ou, no mínimo, empobrecer a realidade. Que, apesar de tudo, irá sempre pairar, rica, complexa e multiforme, como sempre foi, para quem quiser e ousar enxergá-la!

Resultado de imagem para o medo à liberdadeVoltando a Erich Frömm, em seu livro “O Medo à Liberdade”, originalmente publicado nos Estados Unidos, em 1941, o grande pensador afirma que na busca do sucesso financeiro, ao lado da liberdade material conquistada ao longo da história do ocidente, os indivíduos se isolaram cada vez mais uns dos outros. Essa mesma liberdade econômica, carregada de solidão, tornou-se motivo de medo e angústia, levando as pessoas a desejarem uma fuga psicológica de alienação, por meio de ilusões como a de “terem” algo ou de “pertencerem” a uma corporação ou grupo, algo que as faria sentirem-se menos sós. Daí, talvez que, se extrapolarmos esses mesmos princípios psicológicos, também para o domínio sociológico, possamos entender a ânsia das pessoas de se enquadrarem em algo. E enquadrarem os demais, por tabela. Algo que, além do mais, elimina a dificílima necessidade de pensar e os condenaria à tão temida solidão.

Ou, em outra linha de pensamento, talvez seja porque pensar significa estar desperto! E o que significa estar desperto? Talvez a definição mais concisa possa ser dada pelos ensinamentos budistas que falam em “atenção plena”. Originalmente, um conceito extraído das meditações budistas, “o termo atenção plena ou consciência plena (mindfulness, em inglês) designa um estado mental que se caracteriza pela auto-regulação da atenção para a experiência presente, numa atitude aberta, de curiosidade, ampla e tolerante, dirigida a todos os fenômenos que se manifestam na mente consciente – ou seja, todo o tipo de pensamentos, fantasias, recordações, sensações e emoções percebidas no campo de atenção são percebidas e aceitas como elas são” (N.A.: Wikipédia).

Resultado de imagem para mindfullnessA título de exemplificação, para quem ainda imagina que as práticas orientais sejam apenas “esoterismos”, com pouca aplicação prática, ressalve-se que as técnicas de meditação budista, com a utilização da “atenção plena” têm sido usadas e desenvolvidas no Ocidente por vários pesquisadores e, no campo da Psicologia, originaram as Terapias Cognitivas baseadas em Mindfullness que se mostraram extremamente eficazes na prevenção da recaída da depressão, especialmente em indivíduos com transtorno depressivo maior.

O ser desperto jamais perde a natural capacidade de se surpreender e de se extasiar com o novo, e o prefere ao invés da segurança tediosa de confirmar o que é déjà vu. Só os medrosos optam pelas certezas das realidades fragmentadas e eles mesmos as gritam desesperadamente, numa tentativa inútil de abafar seus medos e incertezas, ao escutarem suas vozes.

Como ondas de energia que se iniciam e se consolidam em um ponto central interior e se propagam em círculos concêntricos cada vez mais largos e abrangentes para o universo circundante, assim é o olhar de quem está desperto.  Por isso mesmo, estar desperto é algo que contraria quaisquer certezas, elimina generalizações e simplificações e abre espaço ao novo. Quer algo mais embriagante e atemorizante do que isso?

Sim, a liberdade de pensar livremente se assemelha a uma droga lisérgica que muitos receiam. E, por isso nem ousam experimentá-la – refiro-me à liberdade de pensar, ressalve-se – nem que seja por breves instantes. Como se a vida impusesse fronteiras. Como se o Todo não fosse o limite e se ignorasse que em dias claros se possa ver para sempre e um breve instante possa ser a Eternidade.

Pois, acredite: o ser humano é muito mais do que isso. E assim também o são os infinitos tons de verdes! Desperte para isso.

 

Paulo Monteiro

 

Foto de  capa  de  Gisele Braga Alfaia

 

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