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Reflexões sobre Blade Runner e o Individualismo – Resenha de Miguel Andrade

 

A ficção científica, ou melhor, a boa ficção científica, é um pano de fundo em que o autor tece comentários sobre a nossa realidade. A mais mirabolante das premissas e o mas fantástico dos mundos só tem função em uma história quando usados para falar sobre questões fundamentais da natureza humana e das nossas interações com outros indivíduos.

O final dos anos 1970 e os 1980 foram solo fértil para esse gênero. ‘Alien: O Oitavo Passageiro’, por exemplo, estabelecia os fundamentos do terror espacial, brincava com o nosso medo do desconhecido e colocava em pauta os instintos básicos de sobrevivência e maternidade; ‘O Exterminador do Futuro’ fazia advertências (mesmo que de maneira um tanto quanto histérica) sobre os perigos da automação e da inteligência artificial. ‘E.T’‘De Volta Para o Futuro’, ‘O Enigma de Outro Mundo’, ‘Robocop’, os exemplos são diversos, mas poucos foram tão bem sucedidos em levantar diversos questionamentos e passear por tantos temas como ‘Blade Runner’, de 1982.

Resultado de imagem para blade runnerInspirado no romance ‘Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas?’, de Philip K. Dick, o longa se passa no longínquo futuro de 2019, e acompanha uma das missões de Rick Deckard, um agente do Departamento de Polícia de Los Angeles, encarregado de identificar, localizar e “aposentar” seres humanos artificiais conhecidos como replicantes. O filme foi proeminente no gênero ao adotar a estética Noir (subgênero policial francês dos anos 40 e 50) em um cenário de ficção futurista. Aproveitando a atmosfera lenta e contemplativa, características do estilo, o diretor Ridley Scott elabora comentários sobre miscigenação cultural, solidão, existencialismo, a inevitabilidade da morte e, mais notoriamente, o questionamento de o que nos faz humanos.

O longa ficou conhecido por levantar mais perguntas do que fornecer respostas, mas em minha experiência assistindo ao filme pela nona ou décima vez (talvez já tenha virado uma obsessão), pude perceber alguns sub-textos filosóficos nessa história. Claro, tudo na ficção está sujeito à interpretação pessoal, mas vou explicar aqui a minha teoria sobre como o arco dramático do filme demonstra um conflito entre duas diferentes correntes de pensamento: O coletivismo e o individualismo.

Deckard

O conflito do filme tem início quando alguns replicantes de última geração fogem de seus postos de trabalho e vêm para a Terra em busca do homem que os criou. Os replicantes esperam que ele seja capaz de lhes dar mais tempo de vida, já que os mesmos são projetados para durar apenas quatro anos. O Oficial Deckard é encarregado então de localizar o grupo, que se misturou à população, e eliminá-los, pondo um fim no rastro de mortes deixado por eles em sua busca.

Na mitologia do filme, para confirmar que um suspeito é, de fato, replicante, é necessário realizar o chamado teste de empatia Voight Kampff, no qual um aparelho faz a leitura de micro reações involuntárias da pupila, enquanto o sujeito é submetido a uma série de perguntas especificamente formuladas para causar uma reação emocional. As respostas dadas pelo suspeito pouco importam para os parâmetros do teste, o que interessa são as reações captadas pelo aparelho. Analisando as medições, o Blade Runner determina se o comportamento do interrogado condiz ou não com padrões humanos e, em caso negativo, “aposenta” o replicante imediatamente. São as reações a essas perguntas, portanto, que, no filme, determinam se o indivíduo é um ser humano, possuidor do direito de viver, ou apenas um replicante, uma simulação inferior, embora realista, de uma pessoa de verdade.

Quais seriam, então, essas perguntas tão decisivas que apenas um ser humano verdadeiro seria capaz de reagir corretamente? Bem, elas são variadas e parecem quase aleatórias, mas todas acabam se relacionando com os temas da empatia (para com humanos e animais), do espírito de comunidade e do comportamento “civilizado”. Uma delas coloca o interrogado em um cenário imaginário onde um jabuti sofre de barriga para cima no meio de um deserto; uma outra refere-se a uma carteira de couro (considerada ilegal no filme, onde os recursos naturais são extremamente escassos); em uma terceira pergunta, é pedido que o interrogado liste lembranças positivas ligadas à sua mãe. Com certeza esses são valores que a maioria valoriza muito em qualquer pessoa: a capacidade de empatizar com e prezar pelo espírito de comunidade. É isso, portanto, que nos tornaria humanos?

Resultado de imagem para blade runnerEssa perspectiva inicial, é posta em dúvida ao longo do filme. Aos poucos, a película nos convence de que, a despeito da premissa original, Roy, Pris, Leon, e os demais replicantes, são dotados de características fundamentalmente humanas. O espectador é induzido a criar simpatia por eles. Certamente, é fácil se identificar com o conflito central dos dos replicantes, afinal, poucas temáticas inspiraram a criação de tantas lendas e mitos nas mais diferentes culturas como o medo da morte. Adicionalmente, há algumas simbologias religiosas aferidas aos replicantes, como a pomba branca que Roy deixa voar assim que morre, e parece não ter nenhum outro propósito na história senão representar sua alma subindo aos céus, assim, embutindo no personagem essa característica, segundo o cristianismo, exclusivamente humana.

A conclusão que fica é que, os parâmetros usados do teste Voight Kampff não são suficientes para distinguir indivíduos de não indivíduos. Há outros fatores a serem considerados. O filósofo e economista Hans-Hermann Hoppe teoriza em seus livros que a diferença primordial entre os seres humanos e os demais seres vivos, é a capacidade argumentativa. Diferentes dos animais, pessoas têm buscado ao longo da história, códigos éticos sobre os quais a sociedade idealmente deve se organizar, e tal busca só pode ser feita por meio da argumentação. Por esse critério, replicantes são tão merecedores da vida quanto qualquer outro indivíduo. Vemos no filme, em mais de uma ocasião, eles tentando convencer algum outro personagem de que seria injusto matá-los. “Penso, logo existo, Sebastian”, argumenta Pris em um momento.

Restaria a dúvida se os replicantes se encaixam no conceito do “P-Zombie” de David Chalmers, que diz: Uma criatura capaz de simular emoções humanas, sem verdadeiramente senti-las. Isso, porém, vai de encontro às informações dadas no início do filme. Os replicantes estão quebrando a programação original as desenvolverem instintos de autopreservação e desejo por liberdade. Essas emoções são verdadeiras.

Outro detalhe interessante é que alguns replicantes já desenvolveram inclusive um senso artístico. Lion, arrisca sua vida para buscar sua coleção de fotografias que havia deixado em seu apartamento; Pris tem a preocupação de se maquiar; sem mencionar o icônico e poético discurso que Roy faz antes de morrer:

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“Todos esses momentos se perderão no tempo… como lágrimas na chuva.”

Roy Batty no filme Blade Runner .

Refletindo sobre o exposto, me parece que uma das muitas mensagens do filme, é que, embora louváveis, não são os valores de solidariedade e empatia que definem nosso caráter humano, e sim valores ainda mais primordiais: vida, liberdade e busca da felicidade. Valores pessoais mas que definem a base de toda sociedade: o indivíduo.

 

 

 

Escrito por: Miguel Andrade
Graduado em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília (UnB)
e-mail: damataandrademiguel@gmail.com

Revisado por: Vinicius Calvet e Fernanda Gonçalves

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