Jacques-Marie Émile Lacan ( 1901 — 1981) foi um psicanalista francês.

 

 

4 livros-guias: para caminhar com Jacques LACAN

 

Jacques Lacan nasceu em 1901, em Paris. Formou-se em Medicina e se especializou em psiquiatria. Em 1934, casou-se com Marie Louis Blondin, com quem teve três filhos. Em 1941, nasceu sua filha com Sylvia Maklès-Bataille, ex-mulher do escritor Georges Bataille (1897-1962). No ano seguinte, separou-se de Blondin. Seus seminários e suas palestras influenciaram o meio cultural francês. Lacan teve relações tensas com as associações psicanalíticas de seu país. Tornou-se polêmico, entre outras coisas, pelo folclore criado em torno de seu hábito de receber pacientes em sessões que muitas vezes duravam apenas alguns minutos.

No dia 13 de abril,de 2001 o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) completaria 120 anos. Sua obra foi responsável por construir alicerces filosóficos para a psicanálise e transbordou sua influência a outros campos das ciências humanas.

Com Lacan, que se considerou um comentador de Sigmund Freud, propondo um retorno a suas ideias, a psicanálise bateu asas de sua fundamentação nas ciências biológicas e encontrou desenvolvimento na relação com a linguística. Sua afirmação de que o inconsciente se estrutura como linguagem, somada às noções de simbólico, imaginário e real, são algumas das contribuições decisivas de seu trabalho.

É depois da Segunda Guerra Mundial que seu ensino toma importância. Teve contato com a psicanálise através do surrealismo e a partir de 1951, opondo-se aos pós-freudianos que promoveram a Psicologia do Ego, propõe um retorno a Freud.

Jacques Lacan foi um dos grandes intérpretes do texto freudiano, propondo resgatar a psicanálise e dando surgimento à corrente lacaniana.

Seus primeiros estudos de casos o levaram a formular a teoria do “estádio do Eu” (processo de reconhecimento pelo qual passa a criança ao se observar no espelho).  Sua primeira intervenção na psicanálise, portanto, foi para situar o Eu como instância de desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo. É o momento do Estádio do Espelho. O Eu é situado no registro do imaginário, juntamente com fenômenos como amor e ódio. É o lugar das identificações e das relações duais. Distingue-se do Sujeito do Inconsciente, instância simbólica. Lacan reafirma, então, a divisão do sujeito, pois o Inconsciente seria autônomo com relação ao Eu. E é no registro do Inconsciente que deveríamos situar a ação da psicanálise.

Esse registro é o do Simbólico, é o campo da linguagem, do significante. Lévi-Strauss afirmava que “os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado”, no que é seguido por Lacan. Marca-se aqui a autonomia da função simbólica. Este é o Grande Outro que antecede o sujeito, que só se constitui através deste – “o inconsciente é o discurso do Outro”, “o desejo é o desejo do Outro”. 

O campo de ação da psicanálise situa-se então na fala, onde o inconsciente se manifesta, através de atos falhos, esquecimentos, chistes e de relatos de sonhos, enfim, naqueles fenômenos que Lacan nomeia como “formações do inconsciente”. A isto se refere o aforismo lacaniano “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”

O Simbólico é o registro em que se marca a ligação do Desejo com a Lei e a Falta, através do Complexo de Castração, operador do Complexo de Édipo. Para Lacan, “a lei e o desejo recalcado são uma só e a mesma coisa”. Lacan pensa a lei a partir de Lévi-Strauss, ou seja, da interdição do incesto que possibilita a circulação do maior dos bens simbólicos, as mulheres. O desejo é uma falta-a-ser metaforizada na interdição edipiana, a falta possibilitando a deriva do desejo, desejo enquanto metonímia. Lacan articula neste processo dois grandes conceitos, o Nome-do-Pai e o Falo. Para operar com este campo, cria seus Matemas.

Ele introduz em 1953 conceitos que se tornaram fundamentais na sua obra, os três registros: Real, Simbólico e Imaginário. Ele começa a trabalhar numa teoria do significante redescobrindo Ferdinand de Saussure e se apoiando sobre Roman Jakobson. É também aí que ele começa a citar regularmente a tese de Claude Lèvi-Strauss, As estruturas elementares do parentesco.

A teoria da foraclusão do Nome-do-Pai que forma o pivô da doutrina lacaniana encontra seu fundamento no drama da paternidade de Lacan que reconheceu muito tardiamente sua filha Judith, a qual portou durante muito tempo o nome do primeiro marido de sua mulher Sylvia Bataille.

A reflexão de Jacques Lacan provém da psicogênese da loucura. A loucura não é sem razão: “Não é louco quem quer”. Para elaborar essa clínica da psicose, Jacques Lacan se apoia sobre a lição dada para Sigmund Freud na qual “o que é foracluído do simbólico retorna no real”.

“O termo Verwerfung mostra-se de difícil tradução. Inicialmente, Lacan propôs recusa ou supressão como substituto possível para o termo alemão. Posteriormente, sugeriu o termo jurídico foraclusão, que remete à impossibilidade de elementos serem incluídos em um processo em função do tempo de inserção.”

O processo pelo qual o sujeito se constitui em uma estrutura psicótica e não neurótica, Freud descreveu sob o termo de Verwerfung. Lacan, leitor atento de Freud, nota como esse processo não é um mecanismo projetivo. Lacan esquematiza o processo de exclusão da linguagem metafórica sob o termo de foraclusão, quer dizer não somente um mecanismo projetivo em direção ao exterior do Eu mais uma interiorização chamada recalcamento, mas ainda a não introdução de um terceiro na relação da criança com o Outro materno. Daí suas pesquisas sobre o estádio de espelho e sua reflexão sobre a estrutura da linguagem.

“O inconsciente é estruturado como uma linguagem”

Terapia Lacaniana :: pisicosophiaEste não é um postulado, mas uma hipótese nova à prova de uma clínica herdada das escolas de psiquiatria francesa e alemã e da prática psicanalítica, hipótese já subjacente senão explícita no estudo que faz Sigmund Freud dos lapsos e jogos de palavras, por exemplo. É uma fase central na elaboração teórica de Lacan que dá uma boa ideia geral do seu pensamento. Ela lembra, utilizando o conceito de inconsciente, que Lacan se inscreve na corrente psicanalítica. Ela indica, com o termo de estrutura, a abordagem particular de Lacan, que é aproximado ao estruturalismo. Enfim, ela especifica sua abordagem, que consiste principalmente na importância dada à natureza da linguagem na explicação do funcionamento psíquico.

Freud havia designado o inconsciente como conceito explicativo do funcionamento psíquico. Ele o tinha estudado a partir de suas manifestações, seja normais ou patológicas. O abandono de métodos de hipnose e de sugestão marcaram uma virada no pensamento freudiano, virada que começou a permitir à psicanálise sair da simples técnica da sugestão e da psicoterapia. A partir desse momento, Freud não interpreta mais a doença psíquica em função da fala do paciente.

Lacan sublinha que, no trabalho de Freud, o inconsciente se deixa ser apreendido de duas maneiras: quando o locutor ou o sonhador comete um deslocamento (diz uma palavra ao invés de outra) ou quando produz uma condensação (como a palavra “famillionär”, analisada por Freud). Ele afirma que o deslocamento e a condensação, no caso, a metonímia e a metáfora, são as duas únicas maneiras de produzir significação se nós nos referimos à teoria de Jakobson, e que assim o inconsciente teria um funcionamento comparável à da linguagem.

Lacan renovou a concepção de Freud operando uma leitura estruturalista de sua obra, utilizando para isso ferramentas da linguística.

Lacan, realizando uma leitura rigorosa de Freud, mostra que Freud já tinha uma perspectiva estrutural a partir da segunda tópica. Lacan afirmou diversas vezes dever o conceito de estrutura à Claude Lévi-Strauss, que foi um leitor atento de Freud. A tese de Lévi-Strauss, As Estruturas Elementares do Parentesco, é a obra escrita por um contemporâneo mais citada nos seminários de Lacan.

A seguinte definição ilustra o sentido que Lévi-Strauss dá ao termo “estrutura”:

“Também elas [as instituições humanas] são estruturas em que o todo, isto é, o princípio regulador, pode ser dado antes das partes, isto é, este complexo conjunto constituído pela terminologia da instituição, por suas consequências e implicações, pelos costumes graças aos quais se exprime e as crenças a que dá lugar. Este princípio regulador pode possuir um valor racional sem ser concebido racionalmente. Pode exprimir-se em fórmulas arbitrárias sem ser privado de significação”.

Dessa definição destaca-se que o “todo” da estrutura é o princípio regulador, independentes das partes. A estrutura de Lévi-Strauss é uma estrutura lógica, um conjunto de relações e de termos intercambiáveis. Lacan observa a eficácia desse princípio regulador, a estrutura do sujeito, no desencadeamento do delírio ou, no caso de esquizofrenia, a ineficiência. Ele o reconhece, de forma mais geral, em toda manifestação do inconsciente, como algum emaranhamento, em cada um dos momentos precisos da história do sujeito, de três registros: o Real, o Simbólico e o Imaginário (o que ele chamou de RSI).

Lacan se rodeia a partir de 1972 de vários matemáticos jovens. Com a ajuda de Jean-Michel Vappereau, ex-estudante de matemática, representa esse intrincamento das três funções através de um nó borromeano. A estrutura do nó se dá de forma que não importa qual dos três anéis se rompa, o nó se desfaz. Esse “tripé R.S.I” marca o ponto culminante de sua pesquisa anterior, numa perspectiva topológica, juntamente com um novo paradigma. É um dos conceitos chave de sua obra.

Sofrendo de um câncer no cólon que tardou à operar, já muito debilitado desde um acidente de carro em 1978, Lacan reduziu sem cessar as suas atividades a partir de fevereiro de 1980. Morreu de câncer em Paris, em 1981..

 

Como Lacan renovou a psicanálise e a aproximou das ciências humanas – Jornal da USP

 

 

 

Fonte:    Wikipedia  Jacques Lacan