Quando os bárbaros chegaram ao Sul da Europa e à Península Ibérica, no início do século IV, encontraram povos num estádio superior de civilização. 

 

“Ventos do Sul”  –  Vasco  Martins   (DE “Quiet Moments”  1992)

 

 

 

 

Os romanos tinham implantado na sua zona de influência estruturas políticas, administrativas, sociais e económicas que geravam modos de vida que os bárbaros desconheciam.

Caído o império romano, a Igreja Católica ‘substituiu-o’ no papel de consolidar e fazer funcionar essas estruturas, defendendo ao mesmo tempo o cumprimento de regras essenciais à vida em sociedade. Não matar, não roubar, não cobiçar a mulher do próximo nem o seu servo nem o seu boi, não usar o homem como mulher, etc., eram princípios sem os quais a vida em comunidade se tornaria um inferno.

Além disso, ao defender a família, o cristianismo dava um passo determinante para a estruturação das sociedades. Uma família supunha uma casa. E precisava de terra para cultivar e de animais para ajudar no trabalho do campo. E de animais de criação. E o conjunto de bens que a família acumulava – casa com o seu recheio, terra, animais, alfaias agrícolas – constituía um património que passava de pais para filhos, assim surgindo o conceito de herança. E a herança supunha a monogamia, sem a qual se tornava difícil identificar os herdeiros. Com uma família estável – um pai, uma mãe e filhos – os beneficiários da herança  não ofereciam dúvidas.

Sobre as famílias assim organizadas construíram-se os municípios e sobre os municípios construiu-se o Estado. Que, com a sua burocracia, garantia o funcionamento daquilo que era colectivo, pertença de todos. Assim se construíram sociedades organizadas.

História Geral – Povos Bárbaros e o Império FrancoOs bárbaros, quando chegaram ao Sul da Europa, estavam noutro patamar civilizacional. Vinham em hordas por aí abaixo, homens mulheres e crianças, e desconheciam as leis que regulavam a vida dos povos do Sul.

Matavam, roubavam, violavam as mulheres, não cultivavam a monogamia, viviam em  promiscuidade sexual: tinham relações uns com os outros, não sabiam de quem eram os filhos. Como povos nómadas, não tinham o sentido da propriedade nem da posse da terra. Não conheciam artes de cultivo. Não sabiam o que era a herança. Não se organizando em famílias, toda a construção social daí para cima era caótica.
Obedeciam a chefes omnipotentes que impunham uma ordem rudimentar.

Durante vários séculos, atravessando a Idade Média, a Idade Moderna e entrando na Idade Contemporânea, a organização social que vinha dos romanos, consolidada pela Igreja Católica,  manteve-se relativamente estável no Sul da Europa.

Com a chegada da revolução industrial, porém, este mundo vai entrar em crise. Quase tudo muda. A posse da terra torna-se secundária em relação à produção industrial. As cidades crescem enormemente. As mulheres entram no mercado de trabalho. A vida em família altera-se.

O homem perde protagonismo, as mulheres ganham independência, os filhos deixam parcialmente de ser criados em casa e vão para creches ou para colégios internos, a estabilidade familiar é abalada, os divórcios aumentam.

O positivismo avança, com o consequente recuo da influência da Igreja Católica.

Todos os mandamentos entram em crise. As mulheres começam a ter uma vida social que as faz arranjarem-se mais.

Tornam-se mais sedutoras. Deixa de ser proibido cortejar a mulher do próximo. A liberdade sexual cresce muitíssimo.

Tudo aquilo que era considerado ‘conquistas da civilização’ subitamente é posto em causa. A crise da família, ou seja, da célula-base em cima da qual se fazia a construção social, abala tudo o resto. O conceito de património familiar, a educação dos filhos, as questões sucessórias, tudo isto fica em causa.

O próprio respeito pela vida humana, a ideia de que a vida é o valor supremo – não matarás – entra em crise. A despenalização do aborto é a primeira machadada neste princípio. A liberdade da mulher para fazer o que quer do seu corpo (ou do que transporta dentro de si) sobrepõe-se à inviolabilidade da vida. E seguir-se-á a eutanásia.

A Vida de Saltos Altos - Home | FacebookChega-se ao extremo de se achar que a distinção entre homens e mulheres é artificial. Os meninos aprendem que o ‘género’ é uma construção social, que um menino pode afinal ser uma menina e vice-versa, que o facto de ter um órgão assim ou assado não quer dizer nada. A diferença entre homem e mulher, cuja união permite a reprodução da espécie e cuja associação estável possibilita uma sociedade organizada, perdeu-se.

Estas mudanças reflectem-se hoje em todas as manifestações humanas. A arte tornou-se rude. Boa parte da literatura perdeu o nexo, a música tornou-se ruído, a pintura é caótica, a escultura é abstrusa. Mesmo quem gosta de arte moderna, como eu, não pode deixar de reconhecer que entre uma pintura de Rubens e um quadro abstracto com  meia dúzia de pinceladas ao acaso, ou entre uma sinfonia de Beethoven e uma música techno, vai um abismo. Umas são manifestações de uma civilização no seu apogeu, outras são produtos de um mundo decadente.

E na forma de vestir manifesta-se a mesma regressão. Até há uma duas gerações as pessoas procuravam arranjar-se, parecer bem; agora passa-se o contrário: a moda são os cabelos despenteados ou as cristas imitando tribos primitivas, a roupa sem formas, as calças rotas.

Esta sociedade doente, que esqueceu as regras e os princípios que lhe deram superioridade, aproxima-se da barbárie.

Pode matar-se em certas circunstâncias, a monogamia é uma coisa do passado, a família desfez-se, a promiscuidade sexual instalou-se (já se fala em ‘policasamentos’, ou seja, casamentos em grupo), o património familiar perdeu sentido, as heranças complicaram-se.

Adoptamos costumes e práticas de povos que estavam num estádio de civilização muito inferior ao nosso quando entraram na Península.

Todas as civilizações têm uma ascensão, um apogeu e uma queda. E a queda, normalmente, é para patamares inferiores aos do início. E é nessa fase que nos encontramos.

Claro que temos a tecnologia, os computadores, os telemóveis, os satélites, as naves espaciais, etc. Mas também Roma tinha uma tecnologia muito superior à dos bárbaros e caiu às mãos destes.

Porquê?

Porque desenvolvera a técnica, mas perdera a alma. Aquilo que estava na origem de tudo.

 

Migrações dos povos bárbaros – Wikipédia, a enciclopédia livre

Artigo originalmente publicado no site Sol.Sapo.pt

 

José António Saraiva
jose.a.saraiva@newsplex.pt

José António de Paula Saraiva é um arquiteto e jornalista português. Em 1985, foi designado diretor do semanário Expresso, funções que ocupou até 2006..

É ainda professor convidado no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, depois de ter assegurado a disciplina de Escrita para Televisão, no Centro de Formação da RTP, entre 1977 e 1980.

Em 2004, foi galardoado com o Prémio Luca de Tena de Jornalismo, atribuído pelo jornal espanhol ABC