Lembro-me vividamente da surpresa e do prazer que senti quando li pela primeira vez o livro Emma de Jane Austen. Foi a primeira vez que li um romance em que vemos uma personagem que se transforma com o tempo. Emma é uma jovem inteligente que acredita entender os outros melhor do que eles próprios. Então ela começa a organizar as suas vidas – ela é uma shadchan (casamenteira) inglesa – o que causa desastrosas consequências, pela simples razão de que ela não apenas não entende os outros; ela nem mesmo entende a si mesma. No final do romance, porém, ela muda e se torna uma pessoa diferente: mais velha, mais sábia e mais humilde. E é claro, como essa é uma história de Jane Austen, tem um final feliz.

Em mais de 40 anos que se passaram desde que eu li o livro, uma pergunta me fascinou. De onde a civilização ocidental tirou a ideia de que as pessoas podem mudar? Não se trata de uma ideia nova.

Grandes culturas simplesmente não pensaram nesses termos. Os Gregos, por exemplo, acreditavam que nós somos o que somos, e não podemos mudar o que somos. Eles acreditavam que o caráter é uma questão de destino, que o caráter em si é algo nato, embora seja necessária muita coragem para alcançar o nosso potencial. Tinham a crença de que Heróis nascem, não são feitos.

Platão acreditava que alguns seres humanos eram ouro, outros prata e outros bronze. Aristóteles acreditava que uns nascem para governar e outros para ser governados. Antes do nascimento de Édipo, seu destino e o de seu pai já haviam sido prescritos pelo Oráculo de Delfos, e nada que eles fizessem poderia mudar esse destino.

Yom Kipur – Dia do perdão - Click GuarulhosIsso é exatamente o oposto da frase-chave que falamos em Rosh Hashana e Yom Kipur, que “Teshuva, tefilla e tzedakah evitam os maus decretos.” Foi isso o que aconteceu com os habitantes de Ninveh na história que lemos em Minchah de Yom Kippur. Havia um decreto: “Em quarenta dias Ninveh será destruída.” Mas as pessoas de Ninveh se arrependeram e o decreto foi cancelado. Não existe um destino definitivo, não existe um diagnóstico sem uma segunda opinião.

Como Isaac Bashevis Singer disse com humor: “Temos que ser livres, não temos escolha.”

Essa é justamente a ideia central da teshuva. Não se trata apenas de uma confissão, não é apenas dizer Al chet shechatanu. Não é um simples arrependimento: Ashamnu. É, sim, uma determinação de mudar, de decidir que eu vou aprender com os meus erros, que vou tentar agir de forma diferente no futuro, e que eu estou determinado de me tornar um tipo diferente de pessoa.

Parafraseando o Rabino Soloveitchik, ser Judeu é ser criativo, e a nossa maior criação somos nós mesmos.

Moshe Rabeinu, no início de sua missão, era um homem que não conseguia falar com facilidade e fluência. “Eu não sou um homem de palavras.” “Sou lento na fala e na língua.” “Eu tenho lábios incircuncisos”, ele dizia. Mas no final ele foi o mais eloquente e visionário de todos os profetas. Moisés mudou.

Foi o Judaísmo, através do conceito de teshuva, que trouxe ao mundo a ideia de que nós podemos mudar. Não estamos predestinados a continuar a ser o que somos. Mas essa ideia, ainda hoje, continua sendo considerada radical. Muitos biólogos e neurocientistas acreditam que o nosso caráter e as nossas ações são totalmente determinados por nossos genes, nosso DNA. Escolhas, mudanças de temperamento e livre arbítrio – dizem eles – são meras ilusões.

Eles estão equivocados. Uma das grandes descobertas dos últimos anos foi a demonstração científica da plasticidade do nosso cérebro. O exemplo mais dramático disso é o caso de Jill Bolte Taylor. Em 1996, aos 37 anos, ela sofreu um forte derrame que destruiu completamente o funcionamento do hemisfério esquerdo do seu cérebro. Ela não conseguia andar, ler, escrever, nem lembrar detalhes de sua vida. Mas ela tinha uma condição especial, era neurocientista de Harvard, o que fez com que ela fosse capaz de perceber exatamente o que havia acontecido com ela.

Durante oito anos ela trabalhou todos os dias, junto de sua mãe, para exercitar seu cérebro. No fim, ela recuperou todas as suas faculdades mentais, usando o hemisfério direito do cérebro para desenvolver as habilidades que eram normalmente exercidas pelo hemisfério esquerdo. Você pode ler a sua história no Livro “My Stroke of Insight”, ou assistir a uma de suas palestras TED sobre o assunto. Taylor é apenas um exemplo do que está se tornando mais claro: com vontade e esforço nós podemos mudar não apenas o nosso comportamento, não apenas as nossas emoções, não apenas o nosso caráter, mas a própria estrutura e arquitetura do nosso cérebro.

 

Teshuvá – Shema Ysrael

 

 

Raramente vemos uma prova científica da grande visão judaica de que podemos mudar.

É esse o desafio da teshuva.

 

Existem basicamente dois tipos de problemas na vida: os problemas técnicos e os problemas de adaptação. Quando você enfrenta o primeiro, procura um especialista para encontrar a solução. Você se sente mal, vai ao médico, ele diagnostica a causa e prescreve um remédio. Esse é um problema técnico. O segundo tipo é aquele em que nós mesmos somos o problema. Vamos ao médico, ele ouve com atenção, prescreve vários remédios e depois conclui: “Eu posso receitar quantos remédios forem, mas no longo prazo não vai ajudar. Você está acima do peso, não pratica exercícios e está excessivamente estressado. Se você não mudar o seu estilo de vida, nenhum remédio do mundo irá lhe ajudar.” Esse é um problema de adaptação.

Os problemas de adaptação requerem uma teshuva, e a própria teshuva tem como premissa a proposição de que podemos mudar. Muitas vezes dizemos a nós mesmos que não conseguimos. Estamos velhos demais para isso e demasiadamente arraigados nos nossos caminhos. E dá muito trabalho. Quando agimos assim, nos privamos do maior presente que D’us nos deu: a habilidade de nos transformar. Este foi um dos maiores presentes que o Judaísmo deu para a civilização ocidental.

Elemento De Vela De Igreja De Yom Kippur, Yom Kippur, Vela, Elemento Imagem PNG e PSD Para Download GratuitoE é também o chamado de D’us para cada um de nós em Yom Kipur. Este é o momento de nos perguntarmos: onde erramos? onde falhamos? Quando respondermos a nós mesmos esses questionamentos, precisamos ter a coragem de mudar. Se acreditarmos que sim, então poderemos mudar.

A grande questão que Yom Kipur nos coloca é: Será que vamos crescer em nosso Judaismo, em nossa maturidade emocional, nosso conhecimento, nossa sensibilidade? Ou continuaremos a ser o que sempre fomos?

Nunca acredite que não podemos nos tornar pessoas diferentes, maiores, mais confiantes, mais generosos, mais compreensivos e mais tolerantes do que éramos.

Que este ano seja o início de uma nova vida para cada um de nós. Vamos ter coragem para crescer.

 

 

 

 

 

 

 

Trechos extraídos da mensagem do Rabino Jonathan Sacks zl

(Traduzido livremente por Becky K.)