“Não vou deixar”  –  Caetano Veloso

 

Gostemos ou não da pessoa, discordemos ou não de suas ideias e das plataformas que defende, sejam elas no domínio da Filosofia, da Psicologia, da Sociologia e/ou, sobretudo, da Política, temos que concordar que Caetano Veloso, segundo a opinião das mais conceituadas e insuspeitas fontes de avaliação musical e artística, no Brasil e no mundo, foi e continua sendo um dos mais geniais pilares de nossa indiscutível excelência musical.

E, se com justa razão e respaldados pelos mais justos motivos, queremos – e devemos – nos defender daqueles que em nome de uma pretensa fidelidade (ou cegueira) ideológica, ou de outros interesses escusos, ousam afrontar e desvirtuar nossos mais elevados fundamentos humanísticos, filosóficos e até espirituais, é chegado o momento de, como cristãos e democratas que nos intitulamos, – por seguirmos os pensamentos do Mestre Jesus e do filósofo inglês, John Locke, resumido na frase “Não concordo com nada do que dizes, mas defenderei sempre seu direito de assim pensar” -, de fazermos jus aos elevados conceitos que abraçamos e dar ao outro, (sobretudo àqueles que nos usurpam o direito à alteridade), o respeito, a isenção e a justiça de julgamento que ele merece em outro palco de avaliação: o artístico pura e simplesmente. É o momento da reciprocidade naquilo que no vulgo, seria resumido no que a sabedoria popular exprime como sendo “o tapa com luva de pelica”.

Pois, mesmo distante dos tempos de efervescência musical do movimento tropicalista, do “desbunde” otimista da era dos “dancing days” e , sobretudo, de sua tradição de herdeiro da bossa de nosso Tom Maior, o Jobim, Caetano Veloso continua genial e, provavelmente, ainda faz jus ao título de maior compositor vivo da MPB.

O rastro imagético deixado na espelhada imagem de capa desse disco provocativamente denominado Meu Coco, uma fotografia da cabeça de Caetano Veloso registrada por Fernando Young, pode bem ser usado por bocas maldosas como óbvia “meme” rasteira e provocativa.

Pura bobagem! E, quem sabe, seja a provocação que o artista persegue! Afinal, provocação é o que de mais visível existe no histórico da carreira trilhada pelo homem e pelo artista, Caetano Veloso.

 

Enfim! Maledicências à parte, de fato, a fotografia, diz muito sobre a trilha seguida pelo compositor baiano no primeiro trabalho de inéditas em nove anos.

“Partindo de um fluxo constante de pensamentos, memórias, sentimentos e indagações, o músico nascido em Santo Amaro, na Bahia, costura passado e presente em uma trama poética/historiográfica que diz muito sobre si mesmo, mas que a todo momento aporta em debates sociopolíticos que ultrapassam os limites do próprio cercado”. (Cleber Fachi).

Em”Anjos Tronchos” a primeira composição do disco a ser revelada ao público, ele mistura no mesmo balaio personagens diversos como, Carlos Drummond de Andrade, Billie Eilish, Donald Trump e Jair Bolsonaro, para mergulhar no ambiente tóxico das redes sociais, algoritmos e manipulações políticas naquela forma sempre provocativa e crítica, típica de Caetano: “Agora a minha história é um denso algoritmo / Que vende venda a vendedores reais / Neurônios meus ganharam novo outro ritmo / E mais, e mais, e mais, e mais, e mais“, canta ele.

Ele nos oferece também faixas deliciosamente acessíveis que exibem o selo característico de Caetano, como “Cobre”, “Autoacalanto” e “Não vou deixar”. Nesta última, as batidas eletrônicas e sintetizadores floreiam e criam um ambiente futurístico enquanto versos provocativos conduzem a temática da música: “Não vou deixar, não vou, não vou deixar você / Esculachar com a nossa história / É muito amor, é muita luta, é muito gozo / É muita dor e muita glória“, dispara ele.

“Dentro desse espaço aberto às possibilidades e intenso cruzamento de informações que vai das luxuosas orquestrações de Jaques Morelenbaum, em Ciclâmen do Líbano, à atmosfera interiorana de Enzo Gabriel, música que se completa pelo acordeom de Mestrinho, Caetano aproveita para resgatar uma série de composições originalmente gravadas por outros artistas. É o caso da derradeira Noite de Cristal, canção apresentada por Maria Bethânia no álbum Maria (1988), mas que cresce substancialmente nas mãos do artista” (Cleber Fachi).

E é o caso, também do maior destaque do disco, a maravilhosa composição Pardo, composta especialmente para Céu e lançada em APKÁ! o disco dela de 2019, mas que aqui cresce e revela o primor de composição da música e reafirma mais uma vez o artista maior que Caê sempre foi.

Brilhante! Um dos grandes destaques fonográficos do ano, no Brasil e no mundo, já no encerrar das cortinas. Mais até do que a esperada e costumeira aparição de final do ano do rei, RC, é reconfortante saber que ainda podemos ter acesso ao melhor de Caetano, com este “Meu Coco”

Fica a dica do disco de Caetano como o Papai Noel do Cults de 2021.

 

Fonte:  Música Instantânea Meu Coco