“Não nasci para essa época!  Você nasceu? Monstros estão invadindo o Planeta. Mas, acho que você não quer saber.

Eu poderia estar escrevendo livros românticos que as pessoas iriam querer ler. Talvez eu o fizesse em outra época. Mas se eu usar animais de fazenda para contar a história do monstro, talvez você dê atenção e então entenderá.

O futuro está em jogo; portanto, leia com atenção nas entrelinhas”

 

Mr. Jones  em  “A Sombra de Stalin”

 

 

 

 

É com estas palavras que o narrador, o personagem denominado “Mr. Jones” (título original do filme) apresenta o filme da Netflix, dirigido pela premiada diretora polonesa, Agniezka Holland, três vezes indicada ao Óscar, que, escudada por sua experiência nesse foco de interesses, nos conta mais uma história bem real e tenebrosa.

Mr. Jones é Gareth Jones, que se forma em russo com brilhantismo na Universidade de Cambridge e, que após entrevistar pessoalmente o ditador, Hitler, Intrigado para descobrir o segredo que existia por trás da aparente prosperidade soviética decide entrevistar também, como jornalista “free lancer”, o déspota da União Soviética, Josef Stalin.

Monstro por monstro, talvez nem o improvisado jornalista tivesse imaginado que o horror chegaria a tanto. A mesma reflexão experimentada pela diretora polonesa – e provavelmente por boa parte das cabeças pensantes sãs que ainda existem no planeta – curiosa para descobrir por que razão os crimes dos nazistas foram prontamente declarados por todos como “crimes contra a Humanidade” enquanto os dos comunistas – e muito particularmente os dos comunistas soviéticos que é o que é mostrado por essa produção da Netflix – , provavelmente piores do que os de seus primos na ideologia pestilenta, são prontamente esquecidos e logo acobertados pelo silêncio cúmplice de parte da Humanidade.? Uma pergunta que provavelmente esconde respostas sinistras e dolorosas para muita gente…

MJK32641 Agnieszka Holland (Pokot, Berlinale 2017) crop.jpgPara Agniezka Holland, já especializada em realizar filmes sobre o Holocausto nazista, deixar de contar essa história apenas aumentaria o risco de ver o horror se reproduzir novamente. E ela se vale de uma reconstrução de época primorosa mostrando-nos um cenário sem cor e onde predomina o silêncio para tentar dar-nos esse recado. Ainda lhe sobra espaço para citar o cineasta, Dziga Vertov, uma das estrelas da vanguarda soviética da época.

Mas, pelos vistos tudo indica que será necessário usar muitas mais “cabeças de gado” a caminho do matadouro do que aquelas que são insinuadas no filme e filmar centenas de histórias tão macabras quanto essa para alertar toda a população para o horror que continua presente. Pois o ser humano dificilmente aprende as lições da História! E os monstros continuam a proliferar no planeta e a traçar suas trajetórias malignas e perversas.

E, o que é pior, apesar de tantos alertas e evidências tão óbvias e contundentes, mesmo num mundo interconectado pela internet e por recursos midiáticos e tecnológicos de vanguarda, que hipoteticamente nos possibilitariam detectar com instantânea precisão o trilhar das Sombras e das bestas por ela urdidas, aparentemente tudo ainda é em vão!

Resta-nos perguntar: o que essa serpente tenta mostrar a cada um de nós, na trilha da ascensão? Talvez provocar em cada um de nós a busca de seus próprios demônios interiores e testar nosso equilíbrio integral?  Quem sabe… Decerto, algo haverá a ser apreendido, algo a fortalecer-nos.

Alguma resposta haverá. Não existem questões sem respostas. Apenas talvez ainda não as saibamos. E por isso elas persistem como ameaças e perguntas. Talvez porque precisemos descobrir ainda tais respostas!

 

Paulo Monteiro

Fonte:  Folha UOL  A Sombra de Stalin