Saindo de Manaus, a cosmopolita, fervilhante, caótica e imensa urbe do Norte do Brasil, quem tomar o rumo do Alto Rio Negro pelas asas do moderníssimo jato da Azul, com pouco mais de uma hora de voo, ao sentir o avião perder altitude, por alguns instantes poderá imaginar que está planando sobre algum planeta extraterrestre imaginado, ao divisar o verde das árvores a perderem-se de vista no horizonte, sem o menor vestígio de qualquer edificação ou ocupação humana.

“Four Folks”  –  Jeff Parker

 

Uma visão parcial da maior reserva ambiental e ecológica do Planeta. Tão cobiçada por muitos estrangeiros, ciosos de suas imensas riquezas aparentemente inesgotáveis. E, ao mesmo tempo tão ignorada e até desprezada por tantos de nós, brasileiros,  seus legítimos ocupantes com direito ao usufruto por nascimento ou cidadania legal.

Logo em seguida, se tiver a sorte de estar no lado direito da aeronave, poderá perceber pela escotilha, como se fosse esboçado por pincel de visionário artista cósmico, o marron escuro dissonante de um conjunto de elevações, formando a imagem precisa de uma mulher eternamente adormecida sobre o leito interminável da verde floresta. Trata-se do famoso e belíssimo complexo montanhoso denominado “A Bela Adormecida”, assim chamado por sua silhueta evocar o famoso personagem de histórias infantis de autoria dos Irmãos Grimm. 

Saberá então que estaremos chegando a um dos pontos mágicos deste planeta, pois em breve pousaremos em São Gabriel da Cachoeira, maior cidade e capital do município da Bacia do Alto Rio Negro de mesmo nome, na já vastíssima região amazônica, município esse localizado abaixo da foz do rio Uapés, quase na fronteira com a Colômbia e estendendo-se por 10,6 milhões de hectares em extensão contínua quase até às proximidades da cidade de Santa Isabel do Rio Negro, já na Bacia do Médio Rio Negro.

Não se espante com a grandeza desses números! Afinal, estamos na fronteira mais ocidental da maior Bacia de águas negras fluviais do mundo. E aqui, como, aliás, ao longo de todo o curso desse rio – o Negro – que é o maior afluente da margem esquerda do Amazonas/Solimões, os números são sempre superlativos.

Esclareço que conhecer São Gabriel da Cachoeira, para um manauara nato, e após ter vivido por mais de trinta anos na capital amazonense (sucedendo-se a um longo interregno de doze anos durante a juventude e parte da infância, passados no distante continente europeu), sempre foi um desejo que jamais tinha sido concretizado, seja pela distância, pela dificuldade e duração do transporte fluvial – três dias – e pelo alto preço cobrado pelas companhias aéreas que operavam na rota MAO/SJC, na época, ou simplesmente, sejamos honestos, pela tradicional falta de apreço e até pelo olhar de viés manifestado por boa parte dos manauaras – e nessa, eu me incluo, “shame on me”- mais “bem nascidos” (digamos assim, com o perdão da falta de modéstia, como são conhecidos aqueles manauaras que nasceram um pouco mais bafejados pela fortuna) quando se referem à cultura dos “ribeirinhos”, dos habitantes do interior do estado, dos “caboclos” e dos indígenas da região.

MPF obtém condenação de ex-prefeito de São Gabriel da ...“O manauara vive de costas para o Rio Negro, não apenas na organização do espaço urbano, mas também porque ele ignora os povos que vivem nesse rio, criadores de narrativas, de poesia, de música”

(José Ribamar Bessa Freire, manauara, historiador e educador. Colunista há mais de vinte anos em três jornais de Manaus)

 

 

“Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa”! Resta-me admitir, mais uma vez.

 

E foi parcialmente com o objetivo de me redimir do passado de rejeição e descaso que aproveitei a generosidade de um amigo, mecenas de longa data, que ajudou a propiciar tal oportunidade e o intervalo de tempo aberto pela incrível sincronicidade junguiana de sucessivos eventos ocorridos neste final de ano, na capital do Amazonas, para dar prosseguimento a esse projeto de redenção e fortalecimento de minhas origens, justo no coração da cultura desse Rio mitológico, às margens do qual tive o privilégio de ter vindo a este Plano, na atual etapa reencarnatória.  

 

Desde a hospedagem num simples, mas digno e acolhedor aposento alugado na mansão de família tradicional da cidade, localizada a escassos metros de distância da espetacular praia fluvial da cidade, cartão postal e eventual centro de badalação noturna da cidade, nos finais de semana, às idas cotidianas à paradisíaca Ilha do Sol, em frente à praia, sempre uma promessa irrecusável de lagartear estendido na rede após incontáveis e refrescantes banhos de rio, necessários para quem se encontrava a escassas milhas distantes da Linha do Equador, à visita a deslumbrantes cachoeiras e corredeiras com lendas nativas sedutoras e poéticas e ao clímax do jantar de encerramento num surpreendente restaurante Cinco Estrelas, de categoria internacional, explorado pelo “maitre” Conde de Aquino, especializado na “haute cuisine” cuja base são as delícias regionais que incluem o exótico Ralo Baniwa, uma suculenta piraíba (peixe amazônico), preparada com a sofisticada e fortíssima pimenta baniwa, produzida pela tribo de mesmo nome e secundada pelo molho preparado com a legítima formiga saúva como condimento, a permanência na cidade foi uma sucessão de momentos de profunda interiorização, exotismo e acolhimento, intercalados por outros de deslumbramento absoluto pelas belezas naturais presenciadas e pelo misticismo latente na “vibe” do local.

Por isso, se por um lado evitei as óbvias e tentadoras diversas trilhas naturais proporcionadas pela geografia luxuriante da cidade e arredores – impedido não apenas pela idade, mas também pela condição de saúde que não mais me aconselham tais extravagâncias -, confesso que não resisti à respeitosa consulta a um legítimo pajé indígena, o índio Joanico, de vetustos 86 anos, da etnia Piratapuia, uma tribo que vivia originalmente na região do rio Papuri, no Alto Rio Negro, divisa com a Colômbia, e se deslocou para São Gabriel da Cachoeira em 1992.

Sem dúvida, um momento mágico e místico, sob qualquer apreciação limpa, desprovida de preconceitos e sombrias elucubrações.

Dizer que todos experimentarão emoções e sensações de igual magnitude, seria tremenda ousadia de minha parte afirmar. Prefiro enfatizar que tudo dependerá do olhar – sempre depende – e da disposição de cada um para o singelo acolhimento e para estar aberto ao que a vida e o momento oferecem.

Quanto a mim, restou-me despedir da cidade, do rio e da floresta, imerso nas águas do Rio Negro, sob a chuva intensa, e insistente arco-íris quase como um penetra teimando em despontar na curva do horizonte para juramentar aquele armistício entre eu e a Natureza. Mais uma vez contrito perante tamanha beleza, invoquei a força e a pureza de meus ancestrais, que naqueles locais ermos e quase fronteiriços transitaram em distantes trajetórias, pedindo às Iaras e às divindades da floresta que perdoassem os pecadilhos de um cego e ingrato nativo de suas margens.

Ao lado, nem tão distante assim, a silhueta da “Bela Adormecida”, como se fora mitológica princesa de conto de fadas, flagrada naquele instante de indiscrição pictórica que antecede o repouso, em seu leito carinhosamente envolto por esbranquiçado lençol de nuvens, parecia sorrir e abençoar-me antes de retornar a seu sono eterno.

Como afirmou um nativo de São Gabriel, proprietário da ilha que tanto me seduzira e a quem, arrependido, eu ousei confessar meus pecadilhos de passada rejeição, o simples fato de estar ali presente em local ainda de tão difícil acesso, redimia-me de histórico tão criminoso para com a inescrutável beleza da “forêt vièrge” amazônica.

Sem dúvida uma jornada mágica e iniciática, com final romântico e poético.

Ou, quiçá, minha alma de artista queira ter captado tudo de tal forma!

Mas, o que seria da Humanidade, o que seria da Vida se não existissem os sonhadores?  

 

Paulo Monteiro