Hoje pouco conhecido no seu país natal, o Brasil, o guitarrista carioca, Djalma de Andrade, falecido em 1987, no entanto, é conhecido em todo o mundo da música pelo codinome, Bola Sete,  e representa um caso clássico de artista brasileiro que é mais conhecido no exterior do que no seu país. No vídeo Carlos Santana Influences, produzido em 1995, o guitarrista mexicano destaca o violonista carioca entre suas maiores influências musicais, ao lado de Gabor Szabo e Wes Montgomery. Para Santana, Bola Sete é tão significativo como Jimi Hendrix e Andres Segovia, no aspecto de produzir música com conhecimento, alma e paixão.

“Soul Samba”  –  Bola Sete

 

Na famosa Encyclopedia of Jazz in the Sixties, Bola Sete é contemplado com um verbete de 46 linhas, maior do que os de alguns expressivos guitarristas norte-americanos como Joe Pass, Jim Hall, Wes Montgomery e Barney Kessel. Nesta mesma obra de referência, alguns artistas brasileiros famosos mereceram verbetes mais modestos: Tom Jobim, 26 linhas; João Gilberto, 21 linhas; e Luiz Bonfá,15 linhas.

O crítico Leonard Feather, autor desta enciclopédia, afirmou:  “Bola Sete foi um dos mais inovadores e ecléticos guitarristas na historia do Jazz.” (Revista Manchete, 1987).

 

Carlos Santana e Bola Sete, meados da década de 1980

 

Mas o trabalho de violonista é eventualmente menos visto do que o de guitarrista. Tanto nas apresentações em casas noturnas quanto em gravações realizadas no período em que viveu no Brasil, Bola Sete usou a guitarra elétrica. Deste modo, alguém que deseje ouvi-lo tocando violão acústico deverá acessar discos gravados nos Estados Unidos, a partir de 1962. Pela dificuldade em se conseguir tais gravações, pode-se imaginar que o violão de Bola Sete seja desconhecido até mesmo para os aficionados deste instrumento.

Nascido na favela do Santo Cristo, mudou-se com a família quando tinha 2 anos de idade para Rocha Miranda, subúrbio do Rio de Janeiro. Filho de pais extremamente pobres, teve muitas dificuldades de sobrevivência na infância. Precoce, aos 3 começou a tocar cavaquinho, só de ver e ouvir os outros tocando. De acordo com o jornalista Mister Eco (Diário Carioca, 22 de novembro de 1957), “toda a família de Bola Sete era dada aos instrumentos de corda, havendo mesmo um conjunto musical de boa harmonia, para a distração dos moradores do bairro onde nasceu”.

Começou a estudar em escola de Botafogo e chegou a iniciar o curso ginasial. Mas, aos 17 anos, fugiu de casa porque os pais não gostavam que ele tocasse violão. Passou então a frequentar a Praça Tiradentes, juntamente com pessoas ligadas a área musical, tocando em todos os dancings e inferninhos da localidade. Depois disso, integrando um grupo de músicos que acompanhou o cantor e compositor Henricão (Henrique Felipe da Costa), ficou cerca de oito meses na cidade de Marilia (São Paulo), apresentando-se em cabarés.

Outra história engraçada diz respeito à origem desse apelido inusitado. Na época em que tocava nos dancings da praça Tiradentes, Djalma de Andrade ainda era assim chamado. Mas, pelo fato de ter uma espécie de verruga no queixo, o empresário João Tupinambá (mais conhecido por Tupi), que era diretor de vários parques de diversões espalhados pelos subúrbios do Rio de Janeiro, o chamava de Bolinha, em decorrência dessa bolota que trazia no queixo.

Djalma de Andrade não gostava da bolinha e muito menos do apelido, tanto que se submeteu a uma pequena cirurgia para extrair a indesejada.  Mas de nada adiantou, pois Tupi insistia em chamá-lo assim. Para piorar ainda mais a situação, o amigo, que era viciado em jogo de bilhar, costumava levar o guitarrista para jogar com ele – e não demorou a apelidá-lo de Bola Sete, em alusão à sua cor negra. (Diário Carioca, 22/12/1957)

Após uma carreira inicial muito difícil e de relativo sucesso no Brasil, que teve seu ápice com a carreira dele por longos anos na Rádio Nacional, Bola Sete, que não parava quieto e gostava de se aventurar por outras paragens, no começo dos anos 1960, resolveu investir numa carreira musical nos Estados Unidos, como tantos outros músicos brasileiros talentosos da época. Deu certo. Virou atração quase que diária na cadeia de hotéis Sheraton, até 1962, apresentando-se em Nova Iorque, Washington, Chicago, Dallas, Los Angeles e São Francisco, onde passou a morar.

E lá ele criou fama e renome internacional, tendo feito parte da banda do renomadíssimo band leader, Dizzy Gillespie e com uma apresentação lendária no famosíssimo   Monterey Jazz Festival , em 1962. Foi então convidado a participar do conturbado Concerto de Bossa Nova, no Carnegie Hall de Nova York, em novembro desse mesmo ano.

 

Dizzy Gillespie e Bola Sete no Festival de Monterey

 

 

Para celebrar sua carreira internacional a Resonance Records lançou um box set de 03 discos com as apresentações do trio do artista no The Penthouse (de 1966 a 1968). Com o apoio do baixista Sebastião Neto e do baterista Paulinho Magalhães, os discos têm o registro do que de mais significativo nos legou esse extraordinário guitarrista. Da enfumaçada versão de “Consolação” de Baden Powell, ao hit imortal dele, “Soul Samba” ao registro ímpar de “Malagueña” de Ernesto Lecuona a standards do cancioneiro americano, como “The shadow of your smile” de Johnny Mandel e “Satin Doll” do grande Duke Ellington, a versões absolutamente inesquecíveis de clássicos brasileiros como “Manhã de Carnaval,” de  Luiz Bonfa, “O Barquinho”, de  Roberto Menescal, “Samba de Verão” de Marcos Valle e “Samba de Orfeu” e “Corcovado” de Tom Jobim, o disco é um registro imortal de que a Música Popular Brasileira ocupou e ocupa ainda um lugar de maior destaque no cenário musical mundial, seja qual for o critério que se queira avaliar. Imperdível! Para qualquer fá da boa música.

Na seleção dos melhores guitarristas dos Estados Unidos em 1966, feita pela revista Playboy figuravam Laurindo Almeida e João Gilberto entre os seis primeiros, e Luiz Bonfá e Bola Sete entre os vinte maiores.

Bola Sete morreu em Greenbrae, Califórnia, devido a complicações oriundas da luta que travava com um câncer de pulmão.

 

 

Djalma de Andrade (Bola Sete) - Dicionário Acervo Violão Brasileiro - Foto

 

 

Fonte: Violão Brasileiro   BOLA  SETE