“Pensando Nele”  –  MOMO

 

A bacia do Rio Negro é uma das regiões da Amazônia com altíssima diversidade socioambiental, na qual os recursos naturais estão bem conservados pelas populações nativas que tradicionalmente aí vivem. Fruto de uma longa história natural, a bacia do Rio Negro abriga em seus limites um conjunto de paisagens que confirmam importantes mudanças climáticas a que foi submetida. Esses fatos mostram que, ao contrário de uma presumida “calmaria ecológica”, a Amazônia foi, ao longo de sua história natural, cenário de drásticas mudanças paisagísticas. Há fortes evidências de ocupação humana em períodos muito anteriores à colonização europeia, como atestam as poucas pesquisas arqueológicas existentes para a região e a grande profusão de petróglifos em praticamente toda a extensão do Rio Negro.

A ocupação colonial pautou-se inicialmente pelo estabelecimento de fronteiras pela coroa portuguesa, o que se fez através de uma política de concentração da população nativa em aldeamentos e vilas coloniais, já no século XVIII. A região foi envolvida, posteriormente, de forma periférica, no ciclo da borracha, sem atrair significativamente migrantes nordestinos para as porções mais altas da bacia.

Manaus, no entanto, representou nesta época o mais importante entreposto de migrantes nordestinos, que, desta cidade, partiam para os seringais de outros rios e Estados brasileiros. Nessas fases mais antigas da colonização, a economia da região baseou-se na atividade extrativista, realizada através do largo emprego da mão-de-obra nativa.

Blank On The Map: LftW: 25th JuneA decadência do extrativismo e de seus patrões ao longo do século XX se fez acompanhar pela instalação de centros missionários. Depois das grandes baixas ocorridas no período colonial, sua população manteve-se concentrada nos altos cursos dos rios. Em escala inferior à que ocorreu no passado, persiste até ao presente uma atividade intermitente de exploração de fibras vegetais, como a piaçava e o cipó.

O extremo noroeste da região atravessou praticamente ileso o período de implantação de estradas e obras de infraestrutura na Amazônia nos anos de 1970, devido a seu isolamento geográfico, solos arenosos e baixíssimo potencial produtivo. O mesmo não aconteceu na porção norte/nordeste com a abertura e consolidação da BR-174 (Manaus/Boa Vista), a abertura não concluída da Perimetral Norte, a construção da Hidrelétrica de Balbina e a instalação de um polo de mineração de cassiterita, com efeitos devastadores sobre os Yanomani e os Waimiri-Atroari. Além do mais, inicia-se na década de 1970 a implantação da Zona Franca de Manaus, que teve seu perfil redefinido ao longo do tempo e impulsionou o vertiginoso crescimento urbano da capital do Amazonas.

A partir dos anos 1980, considerada fronteira geopolítica estratégica, a região assistiu também à implantação progressiva de unidades de fronteira do Exército. Nesse mesmo período, duas grandes mineradoras voltaram os olhos para o noroeste da região e iniciaram empreendimentos efêmeros no alto Rio Negro (município de São Gabriel da Cachoeira), abandonados antes do final daquela década. No mesmo período, ocorreu a invasão do território Yanomani por levas de garimpeiros empresariados, com enormes impactos socioambientais.

 

 

(A Continuar)