Wilhelm Richard Wagner (1813  —  1883) foi um maestro, compositor, diretor de teatro e ensaísta alemão, primeiramente conhecido por suas óperas (ou “dramas musicais”, como ele posteriormente chamou). As composições de Wagner, particularmente essas do fim do período, são notáveis por suas texturas complexas, harmonias ricas e orquestração, e o elaborado uso de Leitmotiv: temas musicais associados com caráter individual, lugares, ideias ou outros elementos. Por não gostar da maioria das outras óperas de compositores, Wagner escreveu simultaneamente a música e libreto, para todos os seus trabalhos.

 

 

 

 

Inicialmente estabeleceu sua reputação como um compositor de trabalhos como Der fliegende Holländer e Tannhäuser, transformando assim as tradições românticas de Carl Maria von Weber e Giacomo Meyerbeer em um pensamento operístico de seu conceito de Gesamtkunstwerk. Isso permitiu atingir a síntese de todas as artes poéticas, visuais, musicais e dramáticas e foi anunciada uma série de ensaios entre 1849 e 1852. Wagner percebeu esse conceito mais plenamente na primeira parte do monumental ciclo de quatro partes da ópera Der Ring des Nibelungen. Entretanto, seus pensamentos sobre a importância da música e drama mudaram novamente e ele reintroduziu algumas formas tradicionais da ópera em seu último estágio de trabalhos, incluindo Die Meistersinger von Nürnberg.

Wagner foi o pioneiro em avanços da linguagem musical, tais como o cromatismo extremo e a rápida mudança dos centros tonais, que muito influenciou no desenvolvimento da música erudita europeia. Sua ópera Tristan und Isolde é algumas vezes descrita como um marco do início da música moderna. A influência de Wagner vai além da música, é também sentida na filosofia, literatura, artes visuais e teatro.

Inúmeras inovações para a música foram trazidas por Wagner, tanto em termos de composição quanto em termos de orquestração. Wagner expandiu e enriqueceu as possibilidades da orquestra sinfônica, chegando a inventar um novo instrumento, a trompa wagneriana. Uma ideia que aprimorou, já que não foi o primeiro a utilizá-la, consistia em identificar um personagem, um objeto ou uma ideia através de um motivo musical, Leitmotiv (ou motivo condutor). Quando se ouve o tema musical, imediatamente vem à mente o personagem, o objeto ou a ideia que o autor deseja indicar.

Como compositor de óperas, criou um novo estilo, grandioso, cuja influência sobre a música da época e posterior foi forte. Polêmico ao extremo, angariou ao longo da vida inúmeros desafetos.

Além de músico era também poeta e escreveu o libreto de todas as suas óperas, inclusive a tetralogia O Anel do Nibelungo, em que a mitologia germânica recebe uma expressão dramático-musical. Para a encenação deste e doutros espetáculos grandiosos que concebeu, construiu com a ajuda de amigos e do rei Luís II da Baviera o teatro de ópera de Bayreuth.

Wagner se preocupava com todos os detalhes, em todas as fases da criação de uma obra de arte ou drama musical: desde a elaboração literária do texto inicial, sua transformação num poema, composição musical, orquestração, até cada detalhe da encenação. Nesse sentido, pode-se dizer que a obra wagneriana é um Gesamtkunstwerk ou “obra de arte total”. Embora o ideal de integração total das artes, teatro, poesia e música, já fosse parte da empreitada operística desde o seu nascimento com Claudio Monteverdi em Florença, raras vezes um criador se envolveu em todas as fases do projeto com o mesmo nível de perseverança que Wagner.

A obra wagneriana suscitou o aparecimento de um novo tipo de cantor, o Heldentenor (literalmente: “tenor heróico”), um tenor de resistência física extraordinária e grande potência vocal, capaz de enfrentar papéis como Siegfried, Tristão e Tannhäuser, em que ele tem que cantar e representar quase ininterruptamente por duas horas e meia ou mais.

As óperas são o principal legado artístico de Wagner, podendo ser divididas em três períodos. O primeiro período começou quando o compositor tinha dezanove anos, com seus primeiros esboços de Die Hochzeit (O Casamento), que Wagner abandonou ainda no início, em 1832. As primeiras três óperas terminadas foram Die Feen (As Fadas) (1833-1834), Das Liebesverbot (Amor Proibido) (1835-1836) e Rienzi (ou também: Rienzi, o Último dos Tribunos) (1838-1840). Seu estilo de composição é convencional e ainda não exibiam as inovações que marcaram o compositor na história da música.

O segundo período é considerado como tendo mais qualidade. Ele começa com Der fliegende Holländer (O Holandês Voador; ou Le Vaisseau FantômeO Navio Fantasma) (1840-1841), seguido de Tannhäuser (1843-1845) e Lohengrin (1846-1848).

As últimas óperas de Wagner marcam o terceiro período. Alguns críticos opinam que Tristan und Isolde (Tristão e Isolda) (1857-1859) é a maior ópera do compositor. Die Meistersinger von Nürnberg (Os Mestres Cantores de Nurembergue) (1862-1867) é sua única comédia ainda em repertório (a anterior Das Liebesverbot é esquecida) e uma das óperas mais longas ainda sendo apresentadas. Der Ring des Nibelungen (O Anel do Nibelungo) é uma tetralogia de quatro óperas baseadas na mitologia germânica. A obra, que demorou vinte e seis anos a compor, exige cerca de quinze horas para execução integral. É composta por Das Rheingold (O Ouro do Reno) (1853-1854), Die Walküre (A Valquíria) (1854-1856), Siegfried (1856-1857 e 1864-1871) e Götterdämmerung (Crepúsculo dos Deuses) (1869-1874). A ópera final de Wagner, Parsifal (1877-1882), foi escrita especialmente para a abertura do Bayreuth Festspielhaus, sendo baseada na lenda cristã do Santo Graal.

Wagner explorou bastante a mitologia germânica, em especial referências como o Edda em verso, a saga Völsunga e a Canção dos Nibelungos. Através de suas óperas e ensaios, Wagner defendeu uma nova forma de ópera, o “drama musical”, em que todos os elementos musicais e dramáticos são fundidos. Diferente de outros compositores de ópera de até então, que geralmente delegavam a tarefa da escrita do libreto, Wagner era responsável pelos seus, os quais eram referidos como “poemas”. Wagner também desenvolveu um estilo de composição em que o papel da orquestra é igual ao dos cantores.

Wagner contribuiu significativamente para a arte e a cultura. Durante sua vida, o compositor inspirou devoção entre seus seguidores, gerando também um grupo de opositores. Entre os seguidores estão Anton Bruckner e Hugo Wolf, além de César FranckHenri DuparcErnest ChaussonJules MassenetAlexander von ZemlinskyHans Pfitzner, entre outros. Gustav Mahler chegou a citar que “…existiu somente Beethoven e Wagner”. A revolução harmônica do século XX de Claude Debussy e Arnold Schoenberg (Modernismo tonal e atonal, respectivamente) já foram associadas a Tristan.

O compositor também contribuiu para os princípios e a prática da regência. Seu ensaio Über Das Dirigiren. (1869) evoluiu o trabalho de Hector Berlioz e propôs que a regência era uma forma de reinterpretação do trabalho musical, ao invés de um simples mecanismo de sincronia da orquestra. A tradição da regência que seguiu as ideias de Wagner incluiu artistas como Hans von BulowArthur NikischWilhelm Furtwängler e Herbert von Karajan. Na área de óperas, Wagner realizou significativas mudanças nas condições de apresentação. Ele foi o primeiro a idealizar a diminuição das luzes do palco durante cenas dramáticas, e foi em seu teatro de ópera de Bayreuth onde se fez o uso da orquestra rebaixada pela primeira vez.

O compositor influenciou significativamente também a literatura e a filosofia. Friedrich Nietzsche faz parte do seu círculo de contatos durante a década de 1870, e seu primeiro trabalho publicado O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música propôs a música wagneriana como o renascimento intuição e intoxicação na cultura europeia em oposição à decadência do racionalismo (usando como referência Dioniso e Apolo). No século XX, W. H. Auden considerou Wagner como talvez um dos maiores gênios, enquanto Thomas Mann e Marcel Proust receberam grande influência, e discutiam o autor em suas novelas. Entretanto, nem toda reação a Wagner foi positiva. Por um tempo, a música da Alemanha foi divida entre os admiradores de Wagner e os de Johannes Brahms; este, com o auxílio do crítico Eduard Hanslick, adotava formas tradicionais e liderava um movimento conservador, contra as inovações de Wagner.

O conceito wagneriano do Leitmotiv teve grande influência em diversas trilhas sonoras do século XX, incluindo exemplos célebres como a música de John Williams para a série de filmes Star Wars. Na música popular, o heavy metal é considerado como tendo influência em diversos compositores, incluindo Wagner.

Wagner representou para a cultura alemã do século XIX o mesmo que Verdi representou para a cultura italiana: uma espécie de ícone cultural, e aglutinador da identidade nacional quando o país ainda estava em formação.

Ele teve sua própria casa de ópera, o Bayreuth Festspielhaus. Foi nessa casa que Ring e Parsifall tiveram suas premières mundiais e onde suas obras mais importantes continuam a ser produzidas até hoje, em um festival anual dirigido por seus descendentes. Sua extensa obra sobre música, drama e política tem atraído extensos comentários, em recentes décadas, especialmente onde existe o conteúdo anti-semita.

Na Alemanha nazista, as óperas de Richard Wagner se tornaram um hino do nacionalismo alemão. Um devoto de Wagner, Hitler manchou a reputação de Wagner de uma forma que não conseguiu superar.

Quando Hitler desceu ao bunker de Berlim em 1945, ele levou um item curioso com ele – uma pilha de partituras wagnerianas originais. Richard Wagner era um ídolo de longa data para Hitler, e as partituras eram um bem precioso. Ao longo de sua ditadura, Hitler manteve Wagner como um símbolo do nacionalismo alemão. As óperas de Wagner eram onipresentes na Alemanha nazista e inextricavelmente ligadas ao projeto do fascismo.

Em outros escritos, Richard Wagner declarou que a música alemã era superior a qualquer outra. Pura e espiritual, ele argumentou, a arte alemã era profunda onde a música italiana e francesa era superficial.

Na Europa de meados do século XIX, o nacionalismo se enraizou no vácuo deixado pela Igreja. Os cidadãos buscavam identidade em uma “ comunidade imaginada ” de etnia e herança compartilhadas. E isso se aplicava à música também. Os compositores tentaram definir as características de seu próprio estilo nacional. Wagner estava à frente desse nacionalismo alemão. Ele se via como o guardião da herança alemã, o sucessor natural do titã Beethoven.

E o auge da música alemã? Ópera. Wagner usou os enredos de suas óperas para evocar o orgulho alemão. Mais famosa, Der Ring des Nibelungen baseia-se fortemente na mitologia alemã , enquanto Die Meistersinger von Nürnberg homenageia o homem comum em Nuremberg. Central para seu projeto de nacionalismo foi o Festival de Bayreuth .

Na vila pouco conhecida de Bayreuth, Wagner montou um festival que seria dedicado à apresentação de suas óperas. A arquitetura Festspielhaus foi deliberadamente projetada para mergulhar o público na ópera. Os devotos até faziam “romarias” anuais ao festival, dando-lhe um caráter quase religioso.

Aventuras na História · Imperador em solo estrangeiro: Dom ...A 13 de agosto de 1876 teve início o primeiro Festival de Bayreuth. Uma verdadeira galáxia de celebridades do mundo inteiro se deslocou para Bayreuth para assistir ao evento. Entre eles, podemos citar: Guilherme I, Imperador da Alemanha; Pedro II, Imperador do Brasil; Luís II, Rei da Baviera; Friedrich Nietzsche e sua irmã Elizabeth; entre os compositores: Franz Liszt, Camille Saint-SaënsAnton Bruckner e Piotr Ilitch Tchaikovski.

Bayreuth era o centro da ópera alemã, construída para mostrar como a música alemã era superior. Mais tarde, a ideologia de Richard Wagner acertaria a corda com a agenda nazista. Seu veemente nacionalismo e antissemitismo alemães o prepararam para se tornar um herói do movimento de Hitler.

Wagner conquistou tudo isso, apesar de viver até suas últimas décadas em exílio político, amores turbulentos, pobreza e fuga de seus credores. O impacto de suas ideias pode ser sentido em muitas artes do longo de todo o século XX.  Wagner morreu subitamente de um ataque cardíaco, nos braços de Cosima, sua esposa, e cercado pelos filhos. Seu funeral foi realizado em Bayreuth.

Após a morte de Wagner, a direção do Festival de Bayreuth passou para sua viúva, Cosima. Ela renunciou em 1906, e seu filho Siegfried  assumiu a direção. Cosi

ma e Siegfried morreram ambos em 1930, e a direção do festival passou então para a viúva de Siegfried, Winifred Wagner. Winifred era nazista e muito amiga de Adolf Hitler, por isso ao final da guerra ela foi condenada à prisão com sursis e afastada da direção do teatro; assumiram então seus dois filhos, Wieland e Wolfgang. Wieland morreu em 1966, e Wolfgang continuou no cargo até 2008.

Hoje, é impossível jogar Wagner sem evocar essa história carregada. Artistas têm lutado para saber se é possível separar o homem de sua música. Em Israel, Wagner não é tocado. A última apresentação de The Meistersinger foi cancelada em 1938, quando surgiram as notícias da Kristallnacht. Hoje, em um esforço para controlar a memória pública, qualquer sugestão de Wagner encontra polêmica.

Afinal, foi o mesmo nacionalismo alemão que Wagner realizou através de Bayreuth que culminaria no genocídio. O caso de Richard Wagner e dos nazistas é um forte alerta contra as políticas de exclusão nas artes atuais.