Por sermos um país relativamente jovem – mas esse é o motivo e a justificativa mais “cômoda” e “limpinha”, uma espécie de “prêt-à-porter” das explicações, disponível para qualquer eventualidade, mas está muito distante de ser a causa principal, se quisermos ser honestos – o Brasil é um país de pouquíssimos heróis a serem homenageados e reverenciados. Darcy Ribeiro é indubitavelmente e independentemente de qualquer vinculação ideológica (e isso é mais uma das muitas bobagens que aqui foram semeadas durante longos anos; apenas um “artifício” engenhosamente plantado por pessoas perversas com a finalidade de ocultar a verdadeira questão que importa por trás de qualquer ideologia, o que é do Bem ou não, o que obedece à Lei do Amor e aos cânones do correto e da Harmonia, ou não; tudo o mais são filigranas próprias da diversidade humana) um legítimo e inegável HERÓI tupiniquim. Com todas as honras reservadas aos Grandes Espíritos que palmilharam sua trajetória neste nosso Plano tão belo e sofrido. E como tal precisa e deve ser relembrado, ainda mais em solo tão carente e ávido de figuras tão luminares. O Cults, mais uma vez, se rende à memória desse extraordinário brasileiro, disponibilizando alguns de seus pensamentos mais elevados, graças à imensa e digna homenagem a ele prestada pelo site TEMPLO  CULTURAL  DELFOS  que existe para reverenciar a memória desse extraordinário brasileiro.

 

 

 

“…Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas… demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas.”

– Darcy Ribeiro, em “O Brasil como problema”, 1995.

 

“Na verdade, sou um homem feito muito mais de dúvidas que de certezas, e estou sempre predisposto a ouvir argumentos e a mudar de opinião. Tenho mudado muitas vezes na vida. Felizmente.”

– Darcy Ribeiro

 

 

 

 

“Fracassei em tudo o que tentei na vida.

Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.

Tentei salvar os índios, não consegui.

Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.

Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.

Mas os fracassos são minhas vitórias.

Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

– Darcy Ribeiro

 

 

 

 

Minhas Peles

 

 

 

“’Quem sou eu?’ Às vezes me comparo com as cobras, não por serpentário ou venenoso, mas tão-só porque eu e elas mudamos de pele de vez em quando. Usei muitas peles nessa minha vida já longa, e é delas que vou falar.

A primeira de minhas peles que vale a pena ser recordada é a do filho da professora primária, Mestra Fininha, de uma cidadezinha do centro do Brasil.

Outra saudosa pele minha foi a de etnólogo indigenista. Vestido nela, vivi dez anos nas aldeias indígenas do Pantanal e da Amazônia.

Não os salvei e esta é a dor que mais me dói. Apenas consolam algumas poucas conquistas, como a criação do Parque Indígena do Xingu e do Museu do Índio, no Rio de Janeiro.

Pele que encarnei e encarno ainda, com orgulho, é a de educador, função que exerço há quatro décadas. Essa, de fato, foi minha ocupação principal desde que deixei etnologia de campo.

Eu investia contra o analfabetismo ou pela reforma da universidade com mais ímpeto de paixão que sabedoria pedagógica. Não me dei mal. Acabei ministro de educação de meu país e fundador e primeiro reitor da Universidade de Brasília.

Outra pele que ostentei e ostento ainda é a de político. Sempre fui, em toda a minha vida adulta, um cidadão ciente de mim mesmo como um ser dotado de direitos e investido de deveres. Sobretudo o dever de intervir nesse mundo para melhorá-lo.

Com a pele de político militante fui duas vezes ministro de Estado, mas me ocupei fundamentalmente foi na luta por reformas sociais, que ampliassem as bases da sociedade e da economia, a fim de criar uma prosperidade generalizável a toda a população.

Fracassando nessa luta pelas reformas, me vi exilado por muitos anos e vivi em diversos países. Minha pele de proscrito foi mais leve do que poderia supor.

Meu ofício naqueles anos foi de professor de antropologia e, principalmente, reformador de universidades. Disto vivi.

No exílio, devolvido a mim, me fiz romancista, cumprindo uma vocação precoce que me vem da juventude.

Só no meu exílio, nos seus longos vagares, tive ocasião e desejo de novamente romancear.

De volta do exílio, retomei minhas peles todas. Hoje estou no Brasil lutando pelas minhas velhas causas: salvação dos índios, educação popular, a universidade necessária, o desenvolvimento nacional a democracia, a liberdade. No plano político, fui eleito vice-governador do Rio de Janeiro e depois senador da República.

Essas são as peles que tenho para exibir. Em todas e em cada uma delas me exerci sempre igual a mim, mas também variando sempre.”

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Texto extraído: RIBEIRO, Darcy. O Brasil como Problema. Editora Siciliano, São Paulo: 1990.

 

“Trago Minas no peito. Minas me dói, demais, de ser como é. Dói tanto que morro de raiva. O diabo é que, quanto mais odeio, mais me comovo. Deve ser isso que me faz solene quando penso Minas. Mais ainda quando escrevo.”

– Darcy Ribeiro, em “Migo”, 1988.

 

 

 

Texto extraído do site  TEMPLO CULTURAL DELFOS