“Laurens, Iowa”  –  Angelo Badalamenti

 

 

Cinco bolinhas de pelo, fofura e muita danação, pulando e correndo freneticamente de um lado para o outro.

Foi essa a visão paradisíaca que tivemos quando alugamos uma casa por temporada, para veraneio de uma semana, em Mariscal (SC), ao lado da badalada praia de Bombinhas e constatamos que tínhamos alugado uma casa em frente a um canil.

Caramba! Conhecendo a tripulação, eu sabia:  agora sim, tormenta pela frente, o tempo iria fechar…

Naufrágio à vista!

Ainda tentei saltar o mais rápido possível dessa canoa, mas… Não tinha mais jeito!

Depois de árduas negociações para não trazer o bando inteiro, ”concordamos” em adotar apenas dois filhotes-fêmeas que carregamos para casa. Uma loira, a líder e mais endiabrada, espécie de amostra de filhote de labrador de olhar permanentemente inquiridor e uma disposição irrefreável para pular na cara de quem quer que seja para lhe lamber o rosto sem qualquer cerimônia e a outra, negra cor de azeviche com uma mancha branca na altura do coração, ternos olhos pidões e a expressão que só devem ter os querubins celestiais, um filhotinho que logo percebemos ser uma Wendy eternamente infantil, permanentemente renitente em atingir os estágios mais adultos. Ambas inteiramente grudadas uma na outra e dedicadas a nós, como a unha o é da carne em derredor.

Logo em seguida, estourou o “imbróglio” mundial da “pandemia”. Isolamento total, nos meses iniciais, algum abrandamento após os primeiros três meses, como, aliás, ocorreu com quase todos no planeta Terra. Contingências de um mundo pós-moderno soturno e pesado, girando no sentido inteiramente oposto ao das duas criaturinhas.

Que não tardaram em dizer ao que tinham vindo. Muitas almofadas, chinelos, documentos, bolsas – e o que mais encontrassem pela frente – inteiramente destruídos, e nós percebemos que aqueles dois infatigáveis dínamos de destruição eram também a réstia de vida e alegria que a Providência tinha colocado em nosso caminho em tempos tão difíceis.

Hoje, primeiro dia de fevereiro de 2021, um ano após a temporada de Mariscal, exatamente no dia em que me preparo para delicadíssima e prolongada intervenção cardíaca, logo após o despertar ainda nos estertores matutinos, apenas contemplo o filhotinho aloirado, dormindo placidamente nos braços de Rita, enquanto a irmã se aninha despudoradamente entre as pernas dela e medito que provavelmente nem tenham noção do quanto de histórias de vida foram inconscientemente concentradas em forma de ternura e zelo em cima de suas duas cabecinhas, anestesiadas pelo descanso e pela paz reservados a seres celestiais. Mas, nem precisam. Com certeza, o amor para elas não será novidade alguma, pois vieram exatamente para trazer esse aprendizado. E logo estarão acordadas, fazendo girar mais uma vez incessantemente essa manivela que dá sentido à vida: a do verdadeiro Amor.

Ah! Antes que me esqueça. A cada uma dessas duas pílulas de ternura e afeto demos o nome apropriado de Hope & Faith. Esperança e Fé!

Tudo a ver!