O tempo de Alaíde Costa é venerado em cada canção de ‘O Que Meus Calos Dizem Sobre Mim’

“Tristonho”   –   Alaíde Costa

 

Ela diz não conseguir encontrar a palavra para expressar o que sente quando, aos 86 anos, a contracorrente de uma vida toda, por alguma razão, inverte seu fluxo e passa a conduzi-la suavemente a ponto de colocar em suas mãos algo plenamente seu, talvez o mais seu de tudo o que teve até hoje.

Mesmo ao lado de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, revendo José Miguel Wisnik e mesmo desnorteando João Gilberto e Milton Nascimento, Alaíde Costa sempre esteve só. Só como menina tímida de levar de Elza Soares moleca varadas nas pernas em Água Santa, só como negra nos encontros dos apartamentos brancos da bossa nova, só como ameaça a Elis Regina nos programas de auditório, só como gosto deslocado dos processos industriais das gravadoras a partir dos anos 1980 e só como mulher no Clube da Esquina.

Sua vida então, ela sente, não seria em vão se revelasse um dia que a solidão nunca a derrotou.

 

 

Há mais do que compaixão no disco O Que Meus Calos Dizem Sobre Mim, produzido por Emicida e Marcus Preto, com direção musical de Pupillo. Como eles explicam em um texto assinado por Preto, a ideia inicial era “fazer um álbum que sublinhasse a grandeza de Alaíde não apenas como intérprete ligada à bossa nova, movimento que surgiu para o Brasil no mesmo tempo que a própria artista, no final da década de 1950. Mas, sobretudo, como a voz que transitou, quase sempre à margem do grande público, pelos mais nobres ambientes da música popular.”

As canções foram feitas a pedido, especialmente para a voz de Alaíde, com exceção da não menos biográfica Aos Meus Pés, de João Bosco e seu filho, Francisco Bosco. Aliás, curiosamente, é a que Alaíde cita como a sua verdadeira história por um par de versos que faz sua voz falhar enquanto ela os declama ao repórter: “O meu caminho eu mesma fiz / não foi ninguém que me apontou / eu me virei sozinha / comi o pão todinho / que o Diabo amassou.” Os outros colaboradores são Céu e Diogo Poças com Turmalina Negra; Fátima Guedes com Nenhuma Ilusão; Alaíde melodista em parceria com Nando Reis em Tristonho; Guilherme Arantes na belíssima Berceuse; Ivan Lins e Emicida com Pessoa-Ilha; Erasmo e Tim Bernardes com Praga; e Joyce com Emicida em Aurorear. Há mais material enviado por Francis Hime, Marcos Valle, Gilson Peranzzetta, Guinga e outros, que deve ser usado para mais um ou dois álbuns.

Há uma ideia de Alaíde Costa respeitada por quem compõe, pensando em sua interpretação. Ela está nas letras, nos arranjos, nos andamentos. Ouvir tudo em seus detalhes é saber quem é Alaíde para essas pessoas.

São canções espaçosas e de caminhar lento, sem os sambas que um dia cantou ou outras sugestões que a tirem do seu tempo interno. “Eu sempre fui assim, sempre gostei da calmaria”, diz. “Acho que é por isso que cheguei aos 86 anos.” Alaíde precisa desses vãos para pronunciar cada palavra com fé no que diz ligando notas lentamente sobre uma mesma palavra, um estilo fortalecido com o passar dos anos

Seu mundo hoje é mais das madeiras, que o arranjador Antonio Neves usa tão bem em Turmalina Negra (e que abertura fascinante), Tristonho Aurorear, do que dos metais e das cordas de seus primeiros discos. E sua fala, para além do vitimismo da traição, é impositiva e serena. “E eu só estou aprendendo”, diz. “Aprendo com cada canção.”

Emicida, Marcus Preto e Pupillo não jogam para plateia alguma que não seja a própria Alaíde ao dispensarem a ela um tratamento artesanal e respeitoso. As canções que chegaram também trazem uma “Alaíde imaginária” que se amalgama com a real e a transforma ao juntar o sofrer e a solitude indissociáveis à sua persona artística, construída por um repertório gravado desde o final dos anos 50, a sentimentos reavaliados trazidos por outras vozes que se tornam agora a voz de Alaíde: a reação serena e superior ao abandono, a valorização do passado como um ativo inviolável e a afirmação de si mesma com uma certeza pacífica e poderosa.

“O que meus calos dizem sobre mim” é um daqueles trabalhos excepcionais que ainda nos fazem acreditar que, apesar dos muitos poréns musicais existentes hoje em dia, ainda somos herdeiros e sobreviventes de um dos mais fabulosos acervos musicais do Planeta. É também seu maior ato contra as tempestades de um mundo em derretimento: a delicadeza.

 

Texto do jornalista Júlio Maria para o site TERRA

 

Escute   AQUI    o  disco  “O que meus calos dizem sobre mim”    com  Alaide  Costa