Resultado de imagem para a caça jagten

Numa daquelas pequenas comunidades rurais onde todos se conhecem e coexistem amistosamente, Lucas tenta reconstruir sua vida após um divórcio complicado, tentando negociar um maior período de contato com seu filho adolescente, enquanto exerce o cargo de professor numa escola infantil para ambos os sexos; amistoso e paciente, logo granjeia a estima da pequenada,e, particularmente da filha de 06 anos de seu melhor amigo. Ao recusar um presente e um beijo na boca , Lucas atrai a ira da garota, que, por despeito, vinga-se inventando uma situação que configuraria pedofilia; com a divulgação fantasiosa desse incidente, o filme vai adquirindo contornos cada vez mais dramáticos e contundentes.

Filme dinamarquês, é dirigido por Thomas Vintenberg, internacionalmente conhecido há 14 anos quando fez “Festa de Família”, o primeiro e melhor filme do movimento Dogma 95, que assina esta primorosa reflexão sobre a condição humana – em exibição na 36 Mostra de Cinema de S. Paulo – e que deu este ano ao ator Madds Mikkelsen , em atuação realmente impressionante ,o prêmio de melhor ator em Cannes. Com uma fotografia outonal primorosa e uma trilha sonora formal e adequada, o enredo vai levando sutilmente o espectador a um crescendo que, da inquietação passa à angústia e à revolta, usando uma belíssima alegoria de caça, na qual compara a convivência em sociedade, apesar dos seus maneirismos de aparente cordialidade e amparo, a uma contínua exposição na selva real, onde de uma hora para outra, e sem qualquer motivo aparente, você pode ser fria e cruelmente abatido, dependendo de circunstâncias casuais ou, mais frequentemente, da conveniência dos poderes constituídos : religião, família, sociedade ou governo!

 

 

De fato, o filme mostra com apavorante crueza e credibilidade, o quanto uma calúnia – mesmo que plantada por uma mente infantil e sabidamente fantasiosa – pode crescer baseada na mera e simples suspeição, nos preconceitos e temores de qualquer um, e no sempre desproporcional e disposto eco e na feroz reverberação animalesca que esse tipo de assunto desperta nas massas (vide o pão e circo dos romanos e a manipulação xenófoba de Hitler, para ficarmos apenas em exemplos mais notórios), mesmo que aparentemente racionais. Com uma direção crua e sem o menor vestígio de qualquer tipo de concessões à polidez e à pieguice, Thomas Vintenberg, também co-autor do roteiro,desnuda de forma crua e direta o verniz e a hipocrisia das convenções sociais – mesmo numa sociedade dita civilizada e idilicamente idealizada, como a de ambientes rurais no Norte civilizado da Europa, utopicamente serenos e aparentemente distantes do caos da selva urbana – para assinar uma das produções mais impactantes da cinematografia recente, com uma análise psicológica aprofundada e inquietante sobre a real essência do ser humano, que subsiste ameaçador, logo abaixo do enganador verniz das relações sociais, e deixa clara a sua tese na criativa cena final: apesar da placidez eventualmente reinante, você estará sempre na antecâmara do próximo e inesperado disparo!

 

Paulo Monteiro

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *