“The Waiting I”  –  Pieter Nooten

Pensamentos de Erich Fromm e a poesia de Jaan Kaplinski sobre Erich Fromm

 

Resultado de imagem para O desejo de destruir é resultado de uma vida não vivida


“Essa vida não-vivida é como um pote de água fervendo em nossas mãos que nós corremos pra soltar, e não há tempo para mais nada; estamos furiosos com todos os que sentam tranquilamente em suas mesas de jantar e falam sobre Erich Fromm e que o desejo de destruir é o resultado de uma vida não-vivida”.

 

 

 

Erich  Fromm  ( 23/03/1900 –   18/03/1980 )

 

 

Psicanalista, psicólogo social e humanista; um dos grandes expoentes da teoria  e da prática psicanalítica  no século XX. Três livros são fundamentais  para conhecer  seu  pensamento: “O Medo da Liberdade”,  “O Coração do Homem”  e  “Anatomia da Destrutividade Humana”.

Para  Fromm as doenças psíquicas eram uma conseqüência de erros no indivíduo; os doentes psíquicos não teriam sido suficientemente capazes de se adaptar.

Todas as paixões e buscas humanas são tentativas de encontrar uma resposta à sua existência ou, igualmente, poder-se-ia  dizer que são tentativas de escapar ao adoecimento da alma.A mais alta realização é oferecida, nesta direção, pelo amor: Para esse grande expoente do pensamento, o Amor é o único caminho, “através do qual é possível unificar-se com o mundo e, concomitantemente, adquirir um sentimento de integridade e individualidade.”

No amor, o ser se une a outro ser, mantendo apesar disto, concomitantemente, a integridade de seu self, portanto sua separação; O amor surge em contraposição ao narcisismo secundário: Neste, o indivíduo não é capaz de superar o narcisismo infantil, através do qual o ambiente ainda é utilizado apenas como meio de satisfazer as próprias necessidades.

Os narcisistas têm a tendência de desenvolver uma ligação com seu ambiente através do exercício de poder sobre ele. Através deste mecanismo, eles somente conseguem construir certa unidade enquanto toda e qualquer integração autêntica seja destruída. Um outro caminho para unir-se com o mundo é oferecido pela possibilidade de subjugar-se a um grupo, a um Deus, etc. Por este outro mecanismo, o indivíduo supera o sentimento de isolação e sente-se parte de um grande poder, com qual se uniu.

Resultado de imagem para erich frommO ser possui razão e imaginação e essas características tornam impossível um papel puramente passivo no mundo. Ao tomar ele mesmo um papel de criador, ele pode superar sua aleatoriedade e existência de criatura. Quem confronta sua produção com cuidado e amor, pode transcender a si e a seu ambiente. Também na destruição, o self se deixa transcender, porém a destruição sempre é a alternativa menor de criação, para pessoas que não foram capazes de transcender seu self. Apenas a produção criativa pode levar à felicidade, enquanto a destruição tem em si o sofrimento, acima de tudo para o próprio destruidor

Fromm   identificava no ser humano duas grandes forças antagônicas: a biófila, ou o amor à vida e a necrófila, ou o amor à morte; Como a necrofilia, a biofilia não é constituída por um único traço, mas representa uma orientação total, todo um modo de vida.

Ela se manifesta nos processos corporais da pessoa, em suas emoções, em seus pensamentos e em seus gestos. A orientação biófila se expressa em todo o ser humano. A forma mais elementar desta orientação se expressa na tendência que todos os organismos vivos têm de viver. Ao contrário da ideia de Freud em relação a um “instinto de morte”, eu concordo com a conclusão − a que chegaram muitos biólogos e filósofos − de que viver e preservar a sua existência é uma qualidade inerente a toda substância viva:

“Toda coisa, na medida em que existe em si, esforça-se por perseverar no seu ser”

A tendência a preservar a vida e a lutar contra a morte é a forma mais elementar da orientação biófila, e é comum a toda substância viva.  Enquanto é uma tendência de preservar a vida e de lutar contra a morte, a biofilia representa só um aspecto do impulso em direção à vida.

O outro aspecto é mais positivo: a substância viva tem a tendência de se integrar e de se unir. Ela tende a se fundir com entidades diferentes e opostas, e a crescer de uma maneira estrutural. A unificação e o crescimento integrado são características de todos os processos vitais; não só no que se refere às células, mas também no que diz respeito ao sentimento, e ao pensamento.

 

 

A expressão mais elementar desta tendência é a fusão entre células e organismos, desde a fusão não-sexual de células até a união sexual entre os animais e entre os seres humanos. Nestes últimos, a união sexual é baseada na atração entre os pólos masculino e feminino. A polaridade macho-fêmea constitui o centro da necessidade de fusão, da qual depende a vida da espécie humana. Parece que por esta mesma razão a natureza deu aos seres humanos o mais intenso prazer na fusão dos dois pólos. Biologicamente, o resultado desta fusão é, normalmente, a criação de um novo ser.

O indivíduo que ama completamente a vida é atraído pelo processo da vida e do crescimento em todas as esferas. Ele prefere construir, ao invés de reter. Ele é capaz de surpreender-se, e prefere ver algo novo, ao invés da segurança de confirmar o que é velho. Ele ama a aventura de viver, mais do que ama a certeza. Seu enfoque da vida é funcional, ao invés de mecânico.

Ele vê o todo, e não apenas as partes. Percebe as estruturas, mais do que a soma aritmética. Ele quer moldar e influenciar através do amor, da razão, e do seu exemplo, e não pela força, pela separação, ou pela maneira burocrática de administrar pessoas como se fossem coisas. Ele aprecia a vida em todas as suas manifestações, ao invés de ter, apenas, ansiedade.

A ética biófíla  tem os seus próprios princípios sobre bem e mal.  Bom é tudo o que serve à vida. Mau é o que serve à morte. Bom é o sentimento de reverência pela vida, e por tudo o que aumenta a vida, o crescimento, o desenvolvimento. Mau é tudo o que enrijece a vida, que a torna estreita, ou que a corta em pedaços.  A alegria é virtuosa. A tristeza é um pecado.

A consciência biófila é  motivada por sua atração pela vida e pela felicidade. O esforço moral consiste em fortalecer o amor à vida em si mesmo. Por esta razão, o biófilo não se demora com remorsos e culpa, que são, afinal, apenas repugnância por si mesmo e tristeza. Ele se volta rapidamente para a vida, e tenta fazer o bem.

A “Ética” de Spinoza é um exemplo notável de moralidade biófíla. “O prazer”, diz ele, “em si mesmo, não é mau, mas bom; ao contrário, a dor, em si mesma, é má.” 

E, seguindo na mesma linha de pensamento:

“A última coisa em que pensa um homem livre é na morte; e a sua sabedoria é uma meditação, não sobre a morte, mas sobre

a vida”

  O amor à vida está  na base das várias versões da filosofia humanística. Em suas formas conceituais bastante diversas, estas filosofias têm afinidade com a filosofia de Spinoza.

Elas expressam o princípio de que o ser humano saudável ama a vida; de que a tristeza é um pecado e o contentamento uma virtude; de que a meta do ser humano é estar em unidade com  tudo o que vive, e separar-se de tudo o que é morto e mecânico.

 

Obras de Erich Fromm traduzidas para português

 

  • O Medo à Liberdade
  • Ter ou Ser?
  • A Arte de Amar
  • Análise do Homem
  • A Revolução da Esperança
  • Conceito Marxista do Homem
  • Dogma de Cristo
  • O Coração do Homem
  • Meu Encontro com Marx e Freud
  • Psicanálise da Sociedade Contemporânea
  • A Missão de Freud
  • O Espírito de Liberdade
  • A Linguagem Esquecida
  • Do Amor à Vida
  • A crise da Psicanálise
  • Anatomia da Destrutividade Humana
  • A Sobrevivência da Humanidade

 

FONTE:  Wikipédia

 

 

“O desejo de destruir é resultado da vida não vivida”.

O que não cresce pra cima, cresce pra baixo — unhas e pelos de barba pra dentro da carne, desejos não correspondidos calcificam nossos vasos sanguíneos, a inveja se transforma em úlceras, a tristeza em piolhos, a mesquinhez em moscas.

Somos sempre, de uma certa maneira, cavaleiros errantes; estamos sempre procurando por algo para lutar por ou contra, a quem odiar com um ódio

Essa vida não-vivida é como um pote de água fervendo em nossas mãos que nós corremos pra soltar, e não há tempo para mais nada; estamos furiosos com todos os que sentam tranquilamente em suas mesas de jantar e falam sobre Erich Fromm e que o desejo de destruir é o resultado de uma vida não-vivida”.

 

Jaan Kaplinski, Destruktivität ist das Ergebnis ungelebten Lebens (1985)

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  2. […] Erich Fromm escreveu um livro chamado ‘O Medo da Liberdade’. Você se apaixona e começa a pensar em casamento. O amor é uma liberdade; o casamento é uma escravidão. Mas é difícil encontrar uma pessoa que se apaixona e não pense imediatamente em casamento. Existe o medo porque o amor é uma liberdade. O casamento é uma coisa segura; nele não existe medo. O casamento é uma instituição – morta; o amor é um evento – vivo. Ele se move; ele pode mudar. O casamento nunca se move, nunca muda. Por causa disso o casamento tem uma certeza, uma segurança. […]

  3. […] a Erich Frömm, em seu livro “O Medo à Liberdade”, originalmente publicado nos Estados Unidos, em 1941, o grande pensador afirma que na busca do […]

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