A LACUNA ENTRE O QUE PARECE SER E O QUE É

 

 

Para elucidar essa diferença fundamental na concepção das emoções no pensamento budista e no ocidental, ninguém melhor do que Matthieu Ricard, conhecido como “o homem mais feliz do mundo”,  que nasceu no círculo privilegiado da intelectualidade francesa, filho do filósofo Jean-François Revel, é afilhado de G. I. Gurdjieff, o místico russo, que tinha muitos discípulos entre os intelectuais franceses nas décadas de meados do século XX, e que após completar sua tese de doutorado, em 1972, decidiu abandonar sua carreira científica e se concentrar na prática do  Budismo Tibetano.

Ele começou por descrever um padrão bem diferente do empregado no Ocidente para rotular de destrutivas as emoções, não só quando resultam em dano óbvio, mas quando provocam um dano mais sutil:  aquele que distorce a nossa percepção da realidade.

— Como, do ponto de vista do budismo se distingue entre as emoções construtivas e as destrutivas?

Essencialmente, a emoção destrutiva, que também é chamada de fator mental  “obscurecedor” ou “aflitivo”,  é algo que impede a mente de comprovar a realidade como ela é. O apego excessivo — o desejo, por exemplo — não nos deixa ver um equilíbrio entre o agradável e o desagradável, o construtivo e o destrutivo, qualidades em algo ou alguém, e nos faz ver essas coisas, por algum tempo, como cem por cento atraentes — e, por conseguinte, nos faz desejá-las. A aversão nos cega para algumas qualidades positivas do objeto, tornando-se cem por cento negativas com relação a tal objeto, dispostos a repeli-lo, destruí-lo ou fugir dele. Esses estados emocionais obstruem o juízo, a capacidade de fazer uma avaliação correta da natureza das coisas. É por isso que dizem que são obscurecedores. Obscurece o modo como as coisas são. Acaba obscurecendo uma avaliação mais aprofundada da natureza das coisas como permanente ou impermanentes, como coisas que têm propriedades, intrínsecas ou não. E, assim, em todos os níveis, é obscurecedora. Assim, as emoções obscurecedoras obstruem a liberdade, encadeando os pensamentos de um modo que nos obriga a pensar, falar e agir de maneira preconceituosa. As emoções construtivas, pelo contrário, fazem uma avaliação mais correta da natureza do que se está percebendo: fundamentam-se em raciocínio sadio.

 

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