Há ocasiões em que uma frase aparentemente rotineira nos leva a digressões e reflexões por trilhas inesperadas e surpreendentes, muitas vezes inteiramente divorciadas do sentido em que tal frase foi elaborada.

É o que ocorreu após uma trivial troca de impressões, via Facebook, sobre o envio cibernético, em pleno carnaval, de um vídeo do alentejano António Zambujo, cantando, e de certa forma recriando criativamente, a maravilhosa “Apelo” de Baden Powell/Vinicius de Morais; minha prima “alfacinha”, no agradecimento pelo envio, provavelmente embalada pelo clima eufórico da época e saudosa das ressonâncias festivas que o Brasil sempre lhe evoca, comentou que tinha apreciado muito a música enviada, mas nem tanto a interpretação delicada de seu sóbrio e melancólico conterrâneo; preferiria – com certeza por tratar-se de música brasileira – uma versão mais ao sabor dos esfuziantes trios elétricos carnavalescos que reinam soberanos em terras tupiniquins por essa época do ano.

Pudera! Quão abrangente e imorredouro não é esse fascínio exercido pelos “calientes” trópicos nos nativos do sisudo inverno europeu? A singela troca de impressões musicais, e o amor dessa lisboeta legítima por um mundo tão distinto, levaram-me a cruzar incontáveis vezes o imenso oceano a separar duas pátrias tão radicalmente diversas, nesse “feeling” misto de encantamento, fratura e estranhamento que me caracterizou a trajetória e a de tantos parentes e ancestrais; e, nessa mágica viagem “karmática”, revivi nostálgico não só a já longínqua e prolongada permanência na terrinha, mas também as trajetórias dos muitos ancestrais familiares cujas existências foram marcadas pela vivência e pelo choque cultural entre os dois continentes: a sestrosa mãe manauara, sempre seduzida pelo formalismo e pela elegância clássica do “jardim à beira-mar plantado”; o pai nascido nos idos dos anos 20 em solo brasileiro e registrado apenas 03 meses após o súbito e patriótico embarque marítimo para a Lusitânia, que jamais pôde comprovar o efetivo local de nascimento, por ser o primeiro filho varão de pai minhoto, que curiosamente viveu grande parte de sua vida – e enriqueceu! – no Brasil; a avó paterna, paraense nata, mas “portuguesíssima” de educação e coração, a terminar seus dias em terras cariocas; a tia lisboeta, nascida em Manaus, mas que jamais retornou à terra natal; os tios vianenses de longos anos vividos na imensidão amazônica, extasiados pelos sabores de um prosaico vatapá baiano; o avô materno, “barézinho” culto e educado na Universidade de Coimbra; um bisavô judeu e europeu, seduzido em plena Santarém amazônica pelo frescor e exotismo de uma “cabocla” por nome Bemvinda… e findei-a, talvez até prematuramente, pois a memória embargada recusava-se a seguir viagem pela lembrança de entes queridos, quase todos já em outros planos de existência.

Terminei essa viagem relembrando o primo lisboeta, também apaixonado pelo Brasil, e que, curiosamente – curiosamente, sim, pois alguém ainda ousa acreditar que coincidências existam após toda essa promiscuidade intercontinental? – veio a desposar a conterrânea, cujo amor musical pelo Brasil gerou essa viagem de idas e vindas transatlânticas. Dois universos tão dissociados unidos por intrincados e invisíveis laços e que tantos destinos selaram, marcados pelas afinidades pessoais com um ou com outro desses mundos; e eu a pairar estático entre ambos, como a personagem do filme “O Piano”, mudo e sem ação, com o tornozelo amarrado a um piano onírico que submerge no oceano escuro e desconhecido!

Que ação tomar? Que escolha poderia ser feita, com o coração e a mente fraturados pelas lembranças plácidas e marcantes de um e a efervescência do outro no porvir? Talvez nunca tenha havido a necessidade de uma escolha… talvez a Providência em sua serena e imutável sabedoria me tenha contemplado com o prêmio de viver duas vidas numa só existência e eu possa assim acrescentar, naquele meu livro pessoal que não teve início e nunca terá fim, um legado único e intransferível com o melhor de dois mundos, a ser guardado para a Eternidade!

 

 

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