“By The Fire” – Thurston Moore

 

 

 

É muito provável que, passado todo o contexto do COVID-19, as pessoas olhem para este turbulento período e identifiquem nele um tipo muito específico de registros musicais: os discos de pandemia. Certamente, já conseguimos ver hoje uma grande tendência em artistas que optam por absorver estes tempos incertos e os tomam como base principal de suas inspirações. O que não poderia ser diferente, afinal, como Nina Simone disse, “é um dever do artista refletir o tempo no qual ele vive”. Assim, diversas e variadas expressões aparecem em 2020, desde discos dançantes como o EP Quarantine Casanova, de Chromeo, ou mais reflexivos, como a colaboração dos irmãos Eno em Mixing Colours. Entretanto, como se daria a compreensão de um período caótico pelo viés de um artista que, sempre teve um contato muito próximo com o ruído e a desorganização? É o que Thurston Moore vem nos responder em seu sétimo disco solo.

Embora Sonic Youth tenha encerrado suas atividades há quase 10 anos, seus ecos influenciam artistas até hoje, principalmente no domínio dos barulhos e dissonâncias como técnica de composição pontual e extremamente comunicativa. Ex-guitarrista e vocalista da banda, Thurston Moore reverbera essa habilidade durante seus trabalhos solos e, com By The Fire, as coisas não poderiam ser mais diferentes. O ruído não está apenas nas guitarras, com afinações bizarras, mas a seu redor – um incêndio sonoro (como o título sugere). Mas, apesar de sua sonoridade conservar estas características, o tom do trabalho não é de todo pessimista e caótico. O termo “by the fire” pode ser encarado também como a fogueira dos acampamentos onde as pessoas se reúnem em volta para cantar canções e relaxar. O fogo de Thurston Moore é ambíguo e polissêmico, tal como a pandemia.

Dentro deste incêndio-de-fato-ou-fogueira-de-acampamento é que Thurston constrói a ironia. O mesmo elemento que traz desespero e descontrole é o mesmo que une as pessoas por um mesmo propósito. No release da gravadora, o músico insiste que este é um trabalho sobre trazer consciência e mudanças radicais para o mundo. Ele chega até mesmo a afirmar que se trata de um disco de canções de amor em tempos nos quais a criatividade é nossa dignidade, uma demonstração contra as forças da opressão. É curioso como Thurston Moore coloca canções tão ríspidas e pesadas sob o título de “canção de amor”, fugindo de qualquer sombra de estereótipo possível. Uma forma inusitada para um ex-integrante do Sonic Youth, mas que dialoga diretamente com as constantes ironias do período em que vivemos.

Os campos sonoros com que Thurston trabalha são tão diversos quanto as impressões que esta mensagem de “amor em tempos de caos” passa. O single “Hashish” abre o registro já definindo tons dissonantes e intensos, pintando os entornos do que encontraremos adiante. Nos primeiros segundos de execução, “Breath” se aproxima mais de um formato balada, mas, em poucos segundos, cede espaço para uma ágil e ríspida palhetada agressiva na guitarra, não nos deixando esquecer da urgência dos fatos. “Calligraphy” reserva uma música inteira apenas para a guitarra e voz de Thurston e revela a magnitude do estilo de tocar guitarra de Thurston. “They Believe in Love” se aproxima da psicodelia Noise de Sonic Youth, com acordes constantes em meio a barulhos variados. Por fim, o músico encerra com a maior canção do disco, “Venus”, uma verdadeira epopeia e, aqui, representante metonímico de toda a pandemia, com seus altos e baixos diametralmente opostos e de amplitudes esganiçadas.

By The Fire é um trabalho que certamente preenche a ausência de uma entidade como Sonic Youth. Entretanto, amplia o sentido da sonoridade Noise, a colocando em um contexto tão difuso quanto seus timbres e acordes dissonantes. Com mais de uma hora de duração, é um álbum intenso, mas que nos conforta com uma mensagem de resistência e de amor. Uma espécie de disco hippie de Thurston Moore, no qual a fogueira que olhamos enquanto dançamos é o mundo pegando fogo.

 

Texto de Lucas Cassoli  para o site MONKEYBUZZ

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