A América do Sul, mais precisamente o Paraguai, o Brasil, o Peru e a Bolívia possuem uma Rota, um caminho pré-hispânico do mundo guarani, ou incaico, chamado Peabiru ou “Tape Aviru”, o qual, segundo diversos estudiosos, foi a mais importante via transcontinental que ligava o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico, cortando matas, rios, cataratas, pântanos e cordilheiras. Peabirus (na língua tupi, “pe” – caminho; “abiru” – gramado amassado) são antigos caminhos utilizados pelos indígenas sul-americanos desde muito antes do descobrimento pelos europeus, ligando o litoral ao interior do continente.

 

 

Caminho do Peabiru (parte 1) - G1 Paraná - vídeos - Catálogo de Vídeos

 

 

A designação Caminho do Peabiru – o Compostela da América do Sul – foi empregada pela primeira vez pelo jesuíta Pedro Lozano em sua obra “História da Conquista do Paraguai, Rio da Prata e Tucumán“, no início do século XVII.  Outras fontes, no entanto, dizem que o termo já era utilizado em São Vicente, logo após o descobrimento do Brasil pelos portugueses, em 1500.

Essa rota já existia antes da vinda de Cristóvão Colombo, em 1492, e da vinda de Pedro Álvares Cabral, em 1500, ao Brasil.

A pesquisadora Rosana Bond confirma que o principal destes caminhos era uma estrada milenar indígena com tronco e ramais formando uma rede com cerca de três mil quilômetros de extensão e começava ou terminava em São Vicente ou Cananéia, no litoral paulista, cruzava o estado do Paraná de Leste a Oeste, penetrava no chaco paraguaio, atravessava a Bolívia, ultrapassava a Cordilheira dos Andes e alcançava, finalmente, o Sul do Peru (mais precisamente Cusco) e a Costa do Pacífico. Este era o chamado tronco principal, mas havia vários ramais. Um deles, cruzava o Rio Paranapanema, na divisa entre São Paulo e Paraná, onde segundo a historiadora, Rosana Bond, baixava até ao Sul, quase em linha reta, passando pelas atuais cidades paranaenses de Peabiru e de Campo Mourão; outro ramal dava no litoral de Santa Catarina e outro, ainda, provavelmente no Rio Grande do Sul.

Essa trilha tinha em média oito palmos de largura (cerca de 1,40 metros) e aproximadamente 0,40 centímetros de profundidade. Para evitar o efeito erosivo da chuva, a trilha era forrada com vários tipos de grama, que também impediam que a via fosse tomada por ervas daninhas. Essa é a mesma descrição feita pelos índios guaranis. O professor Moysés Bertoni, pesquisador da cultura dos guaranis, afirma que a grama foi plantada apenas em alguns trechos, mas as sementes que grudavam nos pés e nas pernas dos viajantes acabaram estendendo o revestimento aos demais trechos.

A verdadeira história do Peabiru, segundo os estudiosos, ainda é um mistério e, devido à falta de dados científicos comprovados ainda não se sabe ao certo quem são os verdadeiros construtores do Peabiru.

Existem três hipóteses principais para a construção do Peabiru.  Uma das teorias mais aceitas é que o caminho é a melhor rota entre os Oceanos Atlântico e Pacífico, atendeu às grandes migrações de povos indígenas, teve um importante papel no intercâmbio cultural e na troca de produtos entre as nações indígenas, e, mais tarde, para a descoberta de riquezas, criação de missões religiosas, comércio e fundação de povoados e de cidades. Dizem que foi aberto pelos guaranis em busca constante de uma mitológica “Terra sem Mal”, busca essa aconselhada por seus deuses. Base da religião guarani, esse território mágico seria a morada dos ancestrais, descrito como o lugar onde as roças cresceriam sem serem plantadas e onde a morte era desconhecida.

Segundo o professor Samuel Guimarães da Costa, o Paraná seria esse “Nirvana” indígena e o Peabiru uma espécie de caminho santo que percorria o paraíso perdido. Para os índios, o Paraná se chamava Guaíra, Guaíra, que em tupi-guarani quer dizer “Terra da eterna juventude”.

 

Caminho de Peabiru - De Lá Pra Cá - 27/11/2011 - YouTube

 

 

Segundo as crônicas coloniais, os relatos do Padre Montoya e os historiadores, Sérgio Buarque de Hollanda, Jaime Cortesão e Eduardo Bueno, o Peabiru foi o principal caminho para a penetração do Sul do país. Já para o professor Moysés Bertoni, o Peabiru é algo fantástico por seu tamanho, sua função e suas características; ele afirma que, ainda hoje a civilização moderna não conseguiu construir nenhuma ferrovia ou rodovia ligando os dois oceanos de ponta a ponta.

A segunda teoria, chamada O Caminho de São Tomé, afirma que o caminho teria sido aberto por São Tomé, apóstolo de Cristo. A passagem de Tomé pela América foi bastante mencionada a partir do século XVI. Entre os depoimentos estão os dos padres Montoya, Lozano, Manoel da Nóbregae da “Newe Zeitung Ausz Persill Landt (Nova Gazeta da Terra do Brasil, 1508)”. Essa versão fala de um homem branco, barbudo, trajando camisolão, identificado como o apóstolo, que teria chegado ao Brasil “andando sobre as águas”. Chamado de Zumé, Sumé ou Pay Sumé pelos índios, esse personagem teria falado de um deus único e transmitido aos nativos uma série de conhecimentos.

Finalmente, a tese de Caminho dos Incas afirma que teria sido aberto pelos Incas do Peru e diz que Peabiru poderia ser traduzido como “caminho ao Peru” (Piru ou Biru, como era chamado pelos antigos índios), onde a civilização inca seguia em direção a leste  em busca do paraíso de seus antepassados.

Por isso, para a pesquisadora, Rosana Bond, o assunto é realmente intrigante, pela dificuldade de se datar o Peabiru com precisão nas pesquisas; ela diz ter encontrado hipóteses de que o Peabiru pode ter sido utilizado pelos Itararés, no interior paranaense, já nos anos 400 ou 500 d.C., portanto mil anos antes da conquista europeia. “Achei também suposições de que o caminho em seu trecho paraguaio e andino já era usado no século VIII”, afirma Rosana Bond. Isso transforma o Peabiru em algo extraordinário aos olhos dos pesquisadores pois corrobora a hipótese de que o caminho foi utilizado para o contato entre os índios brasileiros e os Incas.

O que é fato é que pelo Peabiru transitaram, além dos indígenas, São Tomé e os incas, ou seja, os possíveis criadores da trilha, ainda que considerado somente o período pré-Cabralino; soldados, sacerdotes, aventureiros, os artífices da nossa América e as pessoas que construíram a história da região Sul do Brasil.

Caminho de Peabiru - Incas Paraguariensis - Ana WankeAleixo Garcia, um português que utilizou o Peabiru, foi o primeiro europeu a fazer contato com os Incas e a penetrar o interior do Brasil e do Paraguai em busca de um acesso às riquezas Incas, no ano de 1524, a partir do litoral de Santa Catarina, e, rumando para o oeste, no caminho traçado pelos índios, chegou à região de Assunção no Paraguai. Por ele seguiria também a malfadada expedição de Pero Lobo, um dos capitães de Martim Afonso de Sousa. Também pelo Peabiru Passaram Alvar Nuñez Cabeza de Vaca, em 154, o “andarilho das américas”, – que revelou à civilização ocidental europeia as Cataratas de Iguaçu – e Ulrich Schmidel, em 1553; jesuítas como Pedro Lozano e Ruiz de Montoya também o percorreram em suas missões de catequese aos guaranis. Um século mais tarde, seria também pela via do Peabiru que Raposo Tavares e outros bandeirantes paulistas seguiriam para realizar seus devastadores ataques às Missões do Guaíra, no atual Estado do Paraná.

Segundo Jaime Cortesão, foi pelo Peabiru que a civilização europeia adentrou a oeste e subiu aos Andes. E, para expressar a velocidade da penetração, basta assinalar que o gado, introduzido em 1502 em Cananéia, apareceria já em 1513 na Corte Incaica. Tal rapidez na disseminação de um elemento cultural prova o quanto eram rápidas e ativas as comunicações através do continente.

Ainda no século XVI, o Peabiru foi o caminho usado para a fundação de Assunção no Paraguai, para a criação de três ou quatro cidades espanholas no atual Estado do Paraná, para a implantação de 15 reduções jesuítas e até para a descoberta da maior mina de prata do mundo em Potosi, Bolívia.

Cortesão relata que se julgarmos tal caminho merecedor de tantas referências é porque não somente foi o mais importante da face atlântica da América Latina, mas também o maior varadouro cultural e civilizador.

Depois de 1630, quando os bandeirantes entraram no Paraná e destruíram as cidades espanholas e as missões dos jesuítas, o Peabiru foi praticamente abandonado. O caminho ainda conseguiu retomar vida no século XIX, quando serviu, mais uma vez, para a entrada de uma nova leva de homens brancos, os colonizadores pioneiros do interior do Paraná.

É notória a importância que o Caminho de Peabiru possui, seja pelo traçado que cortava o continente, seja pelas personagens que por ela transitavam, pois é através dele que a verdadeira história e a cultura de nossos antepassados são transmitidas nos dias de hoje. Apesar da colonização europeia que se utilizou do Peabiru para adentrar no continente e explorar o povo e a grandiosa riqueza natural aqui encontrada, o Peabiru é um caminho de riqueza inquestionável e que deve ser resgatado para que as raízes dos povos sul-americanos sejam mantidas vivas entre todos e não apenas no conhecimento de poucos estudiosos.

 

Caminho do Peabiru | Folclorando

 

 

OBS.:  Este artigo é uma homenagem emocionada a meu grande amigo FERNANDO  JOSÉ ALVES, um paulistano, luso-brasileiro como eu, apaixonado pela região Sul do país, seus usos e costumes, suas rotas, suas cidades e pela cultura existente em cada pequena localidade dessa região do Brasil e que chegou a escrever um livro e deixou vários relatos de suas incursões e viagens por essa região brasileira. Após seu desencarne, como grande amigo que fui, sua viúva presenteou-me com alguns registros e documentos trazidos das incursões desse meu bom amigo pelo Sul do Brasil. Assim, eu pude tomar conhecimento com o Peabiru e sua existência e o mistério que ele evoca deixou-me profundamente sensibilizado. Tentei ainda visitar antigos registros do Caminho do Peabiru em Campo Mourão (PR), mas restam poucos vestígios desse Caminho. No entanto, decidi homenageá-lo postando esse artigo.

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