Sob Pesado Bombardeio

de todos os pilares que sustentam a civilização

 

 

 

Bombardeio Do Bombardeiro E Da Democracia Ilustração do Vetor - Ilustração  de militar, sociedade: 139802570

 

 

A avalanche de aberrações e horrores que nos é imposta todos os dias, paulatinamente e há muito tempo, tem o claro propósito de soterrar nossa sanidade. Para nós, os que ainda possuem referenciais do que são os valores imutáveis, do que é a Verdade e também o bom senso, é um assédio à nossa moral, às nossas mentes, almas e espíritos. Fere, exaure, cansa.

É uma guerra em que estamos no front, constantemente bombardeados por absurdos. Coisas que até ontem não faziam qualquer sentido para ninguém, agora não se pode sequer contestar. É triste também ver pessoas de nossa estima serem alvejadas, como que se atingidas por um raio, e passarem a repetir palavras de ordem e gestos padrão tal qual autômatos, como se em zumbis de filme de terror se transmutassem. Ali. Ao nosso lado. Tombando, igual em um campo de batalha não muito diferente daqueles que tínhamos na Primeira Grande Guerra.

Porém, não se iludam. Precisamos ser ainda mais fortes que nossos antepassados. As atuais trincheiras terão que ser construídas e defendidas dentro de nós. Que Deus nos abençoe e proteja.

Novas edições do filósofo espanhol Ortega y Gasset chegam ao Brasil - Aliás  - EstadãoO filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), em sua obra Meditaciones del Quijote [Meditações do Quixote], de 1914, afirma:

“Eu sou eu e minha circunstância e se não salvo a ela, não salvo a mim”.[1]

Assim, é tarefa hercúlea ou quase impossível nos sentirmos a salvo e bem, dentro de uma realidade em que nossos valores e crenças são cada vez mais deturpados, vilipendiados, alvo de chacotas e sarcasmo – quando não de violência explícita e tentativa de destruição.

Sem querer parecer simplista, mas é o que se nos afigura: temos a humanidade neste momento dividida entre três grupos: os que aceitam e até ajudam a promover a total “desconstrução” (destruição) de todos os pilares que sustentam a civilização, dos primórdios ao dia de hoje; os que combatem ferrenhamente tal ruptura, tentando preservar os alicerces sem os quais o mundo se torna absolutamente caótico; e os que deambulam entre um lado e outro, não escolhendo nenhum, mas que indubitavelmente contribuem com o primeiro grupo.

Somos atacados em nossos valores mais profundos, querem nos arrancar a fórceps tudo que conhecemos como Bom, Belo e Justo, colocando em seu lugar o que há de pior em termos de degradação. E temos que achar bonito – não apenas aceitar! Exatamente como naquela fábula antiga, temos que ver “o rei” nu, e afirmarmos que ele está vestido com o mais precioso dos mantos. E devemos aplaudir.

Isso, a longo prazo, abala as estruturas psíquicas de qualquer ser humano, por mais equilibrado que seja. Ter que negar a existência de algo que nossos próprios olhos veem, é uma violência sem tamanho para com nossos intelectos, para com nossas almas.

Esta a guerra cruel que nos é imposta neste triste Século XXI. A defesa, a fortaleza, a trincheira bem guarnecida, somos nós mesmos. É dentro de cada um de nós que cada batalha desta guerra é travada. Não podemos nos deixar abater por tantos bombardeios, não devemos ceder em um milímetro em nossos valores perenes e ancestrais, não nos é possível recuar.

Temos o dever de nos mantermos de pé e ajudarmos àqueles “colegas de armas” que fraquejam ou são seriamente alvejados. Salvemos a nós mesmos e à nossa circunstância de vida!

Entretanto, propositalmente, quase todos os estímulos e mídias desta atualidade se esmeram em nos desviar e nos distrair da arma mais poderosa que temos em nossas trincheiras individuais: a espiritualidade, a fé num Deus que consola e redime, que perdoa e acolhe, que cura e fortalece. É importante olharmos menos para este entorno caótico que nos circunda – e nos faz por vezes pensar estarmos num manicômio a céu aberto – e nos voltarmos para dentro de nós, lustrando e polindo nossa “arma interior”, para que esta fique sempre de prontidão para revidar e rechaçar qualquer ataque do inimigo.

O dia em que a humanidade se lembrar de que foi feita à imagem e semelhança de Deus, e parar de buscar o contrário – um deus(ou deuses) que se pareça(m) com ela e endosse(m) seus vícios e sua desonra -, poderemos pensar que há alguma chance para este mundo.

O homem no espelho não é nada nem ninguém, se não vê em sua própria imagem refletida, a face do Pai. Mas é muito difícil renunciar às aparências que nossa vaidade constrói, e sermos o rosto da Verdade, vivermos a vida autêntica para que nascemos, em que as opiniões mundanas são de importância quase nula. Nos tempos atuais, essa dificuldade só aumenta, a cada singelo dia.

 

 

Nada te perturbe, nada te espante, tudo... Santa Tereza D'Ávila

 

 

Se nos mantivermos fortes, e auxiliarmos o semelhante para que este também se mantenha de pé, nunca teremos que nos curvar a quem “não é”, mas somente a Ele – o Deus do Universo – Aquele que É. “Tudo passa, só Deus não muda”.[2]

 

 

Porque sei que o tempo é sempre o tempo

E que o espaço é sempre apenas o espaço

E que o real somente o é dentro de um tempo

E apenas para o espaço que o contém

Alegro-me de serem as coisas o que são.[3]

 

(Ash Wednesday [Quarta-feira de Cinzas], de 1930 – T. S. Eliot)

 

Voltemo-nos e preocupemo-nos mais com a opinião dos olhos que nos perscrutam diante do espelho. Esses são os olhos da Verdade, esse é o olhar de Deus.

 

 

CATARINA   LINHARES

Publicado originalmente no Tribuna Diária 

 

[1] José Ortega y Gasset. Meditações do Quixote. Trad. Gilberto de Mello Kujawski. São Paulo: Iberoamericana, 1967. p. 52.

[2] Excerto da Oração de Santa Tereza d’Ávila.

[3] No original em inglês: “Time present and time past / Are both perhaps present in time future, / And time future contained in time past. / If all time is eternally present / All time is unredeemable. / What might have been is an abstraction / Remaining a perpetual possibility / Only in a world of speculation. / What might have been and what has been / Point to one end, which is always present”. T. S. Eliot. Burnt Norton. I, 1-10.