Eric Voegelin foi um dos pensadores mais originais do século 20 e um filósofo político de incomparável erudição.

Autor da impressionante História das Ideias Políticas, assim como de Anamnese e de Hitler e os Alemães, ele é um nome incontornável na filosofia política, na filosofia da história e na filosofia da consciência.

Notabilizou-se como um estudioso e crítico do gnosticismo em suas diversas formas, inclusive a das ideologias políticas e dos movimentos revolucionários.

Alemão naturalizado americano, Eric Voegelin tem exercido influência sobre uma extensa gama de intelectuais, tanto deste continente como da Europa, e em diversas disciplinas: filosofia, ciência política, teologia, etc.

 

Erich Hermann Wilhelm Vögelin, natural de Colônia (Alemanha), nasceu quase ao mesmo tempo que o século 20. Foi em 3 de janeiro de 1901 que veio à luz, e aos nove anos (em 1910) mudou-se com a família para a capital da Áustria, onde cumpriu sua formação acadêmica.

Graduou-se em direito na Universidade de Viena, mesma instituição na qual doutorou-se em ciência política, orientado por Othmar Spann e Hans Kelsen. Este último é um dos mais notórios juristas da história recente, autor da Constituição Austríaca de 1920 e principal nome do positivismo – de que o próprio Voegelin se tornaria um opositor.

Na Áustria, manteve amizade com figuras como Friedrich Hayek (futuro vencedor do Nobel de Economia) e Alfred Schütz (um dos mais importantes filósofos das ciências sociais no século passado).

Já em seus primeiros textos acadêmicos, Eric Voegelin investigou e criticou as bases intelectuais do então ascendente nazismo.

Tornou-se, é claro, um inimigo do partido de Hitler, razão pela qual emigrou com sua mulher para os Estados Unidos da América. Em 1938, ele e sua esposa fugiram das forças nazistas que invadiram Viena. Eles emigraram para os Estados Unidos e se tornaram cidadãos americanos em 1944. Ele passou a maior parte de sua carreira acadêmica na Universidade do Estado da Luisiana, naUniversidade de Munique e na Universidade de Stanford.

Foi em solo americano que Voegelin desenvolveu quase toda a carreira de professor – apenas com um breve retorno à Europa, durante o qual fundou o Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Munique. Ali, também, ocupou a cátedra que pertencera, antes, a Max Weber.

Nos EUA, o filósofo foi professor em Louisiana, Notre Dame, Harvard e Stanford (no Instituto Hoover, que hoje tem como pesquisador Thomas Sowell). Manteve uma longa correspondência com outro pensador alemão radicado na América: Leo Strauss.

O que Eric Voegelin teria a dizer sobre o chilique do Lewandoski? | Liberdade do PensamentoA obra de Voegelin pode ser dividida em duas fases: A fase anterior a sua emigração para os EUA, durante a qual ele escreveu a ‘História das Ideias Políticas’ e sobre a questão racial e o estado autoritário, e a fase após sua emigração para os EUA, onde ele aproximou as visões autoritárias como uma visão política do mundo baseada na religião e na história.

Em sua vida madura, Voegelin trabalhou para explicar a violência política endêmica do século XX, em uma abordagem peculiar da filosofia política, da história ou da consciência. Na visão de mundo de Voegelin, ele “culpou uma falsa interpretação utópica do cristianismo para gerar movimentos totalitários como o nazismo e o comunismo”. Voegelin rejeitou quaisquer rótulos ideológicos ou categorizações que leitores e seguidores tentassem impor ao seu trabalho.

Ao longo de sua vida, Voegelin publicou dezenas de livros, ensaios e resenhas. Um dos primeiros trabalhos foi “As Religiões Políticas”, de 1938. A obra versava sobre as ideologias totalitárias como “religiões políticas”, devido às suas semelhanças estruturais com a religião. Ele escreveu a série “Ordem e História” em vários volumes (em inglês), que começou a ser publicada em 1956 e permaneceu incompleta até o momento de sua morte, 29 anos depois do início da série. Suas palestras em Charles Walgreen de 1951, publicadas como “The New Science of Politics”, às vezes são vistas como um prolegômeno da série Ordem e História e continuam sendo seu trabalho mais conhecido. Ele deixou muitos manuscritos inéditos, incluindo uma história de ideias políticas, que desde então foi publicada em oito volumes. “Order and History” foi originalmente concebido como um exame de cinco volumes da história da ordem a partir da experiência pessoal de Voegelin sobre a desordem do seu tempo. Os três primeiros volumes, “Israel e Apocalipse”, “O Mundo da Polis”, e “Platão e Aristóteles”, apareceram em rápida sucessão em 1956 e 1957 e concentraram-se nas evocações de ordem do antigo Oriente Próximo e da Grécia.

O pensamento de Eric Voegelin trouxe contribuições inestimáveis a três grandes disciplinas: a filosofia da consciência, a filosofia da história e a filosofia política. A primeira contribuição, aliás, foi o próprio fato de demonstrar que esses campos do saber estão intimamente conectados.

Em 1936, Voegelin publicou a obra O Estado Autoritário, que expandiu a sua análise da estrutura de pensamento em que se apoiavam os nazistas. Como não é difícil inferir, esse texto e o anterior tornaram Voegelin um adversário intelectual do movimento liderado por Hitler.

Habilidoso em mapear a genealogia de conceitos políticos, o filósofo, já instalado nos Estados Unidos, dedicou-se a uma tarefa monumental. Escreveu uma obra de milhares de páginas narrando o desenvolvimento das ideias políticas do Ocidente. O trabalho consistia em comentários minuciosos aos principais pensadores desde a Grécia antiga até o século 19.

História das Ideias Políticas abarca períodos e correntes como o helenismo, a Patrística, o tomismo, a escolástica tardia, o Renascimento, a Reforma Protestante e as diversas subtradições da filosofia moderna.

Comentários de Eric Voegelin tanto a pensadores antigos (por exemplo, Cícero) como a pensadores modernos (por exemplo, Hume) são até hoje considerados leitura obrigatória pelos estudiosos desses autores.

As antigas seitas gnósticas caracterizavam-se por afirmar que o mundo é intrinsecamente mau e que, habitando nele, o ser humano só pode superar sua lamentável condição pelo conhecimento adquirido através de uma iluminação do intelecto.

Os gnósticos consideravam ruim o que o cristianismo dizia ser criação de Deus, e atribuíam à capacidade racional a solução de problemas que o cristianismo (apesar de os reconhecer) afirmava serem superados apenas em um plano divino, exterior à história.

Acompanhando com atenção o desenrolar das ideias políticas, Eric Voegelin não apenas acumulou uma erudição descomunal. Ele foi também capaz de identificar padrões de pensamento nessa trajetória.

Após O Estado Autoritário, Eric Voegelin publicou (em 1938) As Religiões Políticas. Para o autor estava claro que fenômenos de massa como o nacional-socialismo – por ele já investigado desde Raça e Estado – extraíam parte da sua força de certa devoção religiosa que os seguidores lhe dedicavam.

O problema é que esse era o caso não apenas do nazismo, mas também do comunismo e de toda ideologia que supõe ser capaz de explicar tanto a origem do mal na sociedade como a solução (política) para ele.

Como Voegelin viria a notar, “religião política” é uma categoria que se aplica a tantas doutrinas que ela perde a capacidade de indicar um fenômeno preciso. Mas em A Nova Ciência da Política foi possível descrever esses desvios ideológicos com maior exatidão.

O que Eric Voegelin constata é que as ideologias que pretendem subverter a ordem social estão para a política moderna como o gnosticismo estava para o cristianismo primitivo.

“Ao equivocar-se deliberadamente sobre Hegel, se nos é dado falar desta maneira, Marx transforma todos os conceitos que Hegel concebeu como predicados da ideia em anunciados sobre fatos”.

Para Voegelin, ao equivocar-se deliberadamente sobre Hegel, Marx pretendia sustentar uma ideologia que lhe permitisse apoiar a violência contra seres humanos afetando indignação moral e, por isso, Voegelin considera Karl Marx um mistificador deliberado. Afirma que o charlatanismo de Marx reside também na terminante recusa de dialogar com o argumento etiológico de Aristóteles. Argumenta que, por ter recebido uma excelente formação filosófica, Marx sabia que o problema da etiologia na existência humana era central para uma filosofia do homem e que, se quisesse destruir a humanidade do homem fazendo dele um “homem socialista”, Marx precisava repelir a todo custo o argumento etiológico.

Segundo Voegelin, Marx e Engels enunciam um disparate ao iniciarem o Manifesto Comunista com a afirmação categórica de que toda a história social até o presente foi a história da luta de classes. Eles sabiam, desde o colégio, que outras lutas existiram na história como as Guerras Médicas, as conquistas de Alexandre, o Grande, a Guerra do Peloponeso, as Guerras Púnicas e a expansão do Império Romano, as quais, decididamente nada tiveram de luta de classes.

Voegelin diz que Marx levanta questões que são impossíveis de serem resolvidas pelo “homem socialista”. Também alega que Marx conduz a uma realidade alternativa, a qual não tem necessariamente nenhum vínculo com a realidade objetiva do sujeito. Segundo Voegelin, quando a realidade entra em conflito com Marx, ele descarta a realidade.

EschatonIgualmente, as ideologias modernas apropriam-se da esperança que o cristianismo reserva à doutrina das últimas coisas (a escatologia) e transportam-na para o interior da história humana. Secularizam algo que é, na verdade, transcendente; ou, como Eric Voegelin denominou esse fenômeno, imanentizam o eschaton cristão.

Filosofia política, filosofia da história e filosofia da consciência completam sua unidade quando Voegelin demonstra que as utopias políticas, originadas de um mau entendimento da história, revelam, no fundo, uma distorção da existência humana.

Toda experiência humana é ordenada e potencialmente ilimitada. É ao vivê-la que se acessa o seu sentido. E isto é assim porque cada experiência é, já ela própria, transcendente.

O ser humano habita, como dissera Platão, o Entremeio (ou, em grego, a metaxy). Quer dizer: vivemos em uma tensão permanente entre o divino e o terreno, o eterno e o temporal. É nesse âmbito que se constitui o nosso horizonte de consciência, e toda construção teórica que se afasta dele trai a realidade.

Eric Voegelin foi um opositor ferrenho de todas as formas de dogmatismo. Segundo ele, a postura crítica é indispensável – não porque precisemos desacreditar de tudo, mas porque devemos levar em conta a tendência das teorias a esvaziar o sentido do que é comunicado pela realidade.

Em Voegelin, a postura crítica não está baseada em uma disposição cética. Ao contrário, a verdade tem por essência a confiança no que a realidade apresenta; o verdadeiro conhecimento deriva da fé. Em vista disso, não podemos trair a relação de transparência que, como “homens espirituais”, originalmente assumimos com o mundo.

Exemplos de traição desse compromisso são as ideologias políticas, que criam uma “segunda realidade”, alienada da experiência humana real. Contra esse risco, Eric Voegelin defende o “princípio antropológico”, segundo o qual a sociedade é uma extensão da alma individual.

Para evitar a escotose (ou “fuga da realidade”), é preciso insistir na zetema (ou “existência na verdade”) – seja no nível da consciência, seja no nível da política. Pois, como a história tem demonstrado, todas as tentativas de separar os dois níveis terminam em equívocos intelectuais e em desastres concretos.

É decisiva a influência que Eric Voegelin recebe dos ideais expostos pelos luminares da filosofia antiga, Platão e Aristóteles.

Ele faleceu nos EUA, onde residiu até ao final da vida, aos 84 anos, em 19 de janeiro de 1985, deixando uma legado de pensamento que o leva a ser considerado um dos maiores filósofos do século passado e um dos grandes pensadores da Humanidade.

Mais sobre o pensamento de Eric Voegelin pode ser conferido assistindo às palestras do professor português Mendo Castro Henriques, proferidas no espaço cultural da É Realizações:

 

 

 

 

 

Fontes :

Eric Voegelin: biografia, livros e frases (O guia completo)

 

Fonte Alternativa: Wikipedia   ERIC  VOEGELIN