Domenico Lancellotti é um cantor, compositor, violonista, percussionista e baterista, nascido no Rio de Janeiro, com ascendência italiana e filho do compositor e cantor, Ivor Lancellotti; cresceu influenciado pelo ritmo do samba, tendo já  colaborado com vários artistas como o Quarteto em CyDaniel JobimCaetano VelosoFernanda Abreu e Adriana Calcanhotto.

 

Nos anos noventa formou uma banda de rock experimental chamada ‘Mulheres Q Dizem Sim’. Nesse período conheceu Moreno Veloso e Alexandre Kassin, que se converteram imediatamente nos seus melhores amigos e com quem começou a trabalhar. A projeção no universo pop brasileiro veio nos anos 2000 como integrante do trio x +2 – formado com Kassin e Moreno Veloso – e como músico requisitado para discos e shows de artistas. Já lançou dois álbuns solo de estúdio: Cine Privê (2011) e Serra dos Órgãos (2017), que foi eleito o 24º melhor disco brasileiro de 2017 pela revista Rolling Stone Brasil.

Raio (2021, Arraial), seu terceiro trabalho lançado recentemente, como tudo aquilo que Domenico Lancellotti tem produzido ao longo da última década, é um trabalho feito para ser absorvido aos poucos, sem pressa.

Com produção dividida entre Petrópolis, no Rio de Janeiro, e Lisboa, em Portugal onde reside desde 2019, ”Raio” “É um registro sobre transformação permanente“, resume Lancellotti no texto de apresentação do álbum.

O ponto de partida para a composição do repertório autoral do álbum Raio foi o convite feito a Domenico em 2018 por Lúcia Koch para a criação da trilha sonora de instalação de arte apresentada em Kansas City, cidade do estado norte-americano do Missouri (EUA).

São canções essencialmente curtas, porém, marcadas pela criativa sobreposição dos elementos, entalhes percussivos e melodias que ora apontam para a psicodelia jazzística de João Donato, ora fazem lembrar do som refrescantes de Marcos Valle.

Com a participação em duas faixas da espetacular Nina Miranda, uma cantora inglesa, nascida no Brasil, que foi vocalista da banda inesquecível banda “indie”, Smoke City, que se apresentou em diversos locais e festivais de renome na Europa, em geral, percebe-se a  busca por uma sonoridade contemplativa e contemporânea, mas que não interfere na produção de faixas mais acessíveis, como é o caso de Vinho Velho, música que evoca o pop agridoce de Gonzaguinha e Guilherme Arantes. Com ecos do suingue de João Donato, o single Vai a serpente tem o toque da guitarra de Domenico, por exemplo. Bem Gil toca violão e (também) guitarra na faixa.

Um disco para ser degustado com muita atenção e o coração nas mãos, com a certeza de que estará em contato, ainda, com o melhor da MPB. A comprovação da maturidade artística absoluta de um músico, esse disco é a prova cabal de que, apesar de tantas agressões que nos fazem acreditar que isso possa ter sido apenas um sonho, a boa MPB segue viva e pulsante na memória de alguns.