Pare por alguns minutos e ouça os dois primeiros trabalhos dos dinamarqueses do Iceage, New Brigade (2011) e You’re Nothing (2013). Você consegue acreditar que o mesmo grupo responsável por composições tão raivosas como Coalition e New Brigade seria capaz de uma mudança tão grande na própria sonoridade sem necessariamente perder o peso e a potência das próprias criações?

Elias Bender Rønnenfelt e seus parceiros de banda, os músicos Johan Surrballe Wieth (guitarra), Jakob Tvilling Pless (baixo), Dan Kjær Nielsen (bateria) e Casper Morilla (guitarra) passaram os últimos anos testando os próprios limites dentro de estúdio. Um processo criativo que teve início em Plowing Into the Field of Love (2014), mas que alcança melhor resultado nas canções de Seek Shelter (2021, Mexican Summer).

Sequência ao material entregue no também maduro Beyondless (2018), o trabalho de nove faixas preserva a essência dos últimos registros da banda original de Copenhague, na Dinamarca, porém, se permite provar de novas possibilidades e direções criativas totalmente inesperadas. E isso fica bastante evidente logo nos primeiros minutos do disco, na introdutória Shelter Song. Entre guitarras que evocam obras icônicas como Beggars Banquet (1968) e Let It Bleed (1969), dos Rolling Stones, e vozes em coro que parecem saídas de algum disco do Primal Scream, o quinteto continua a apontar para o passado, conceito também explícito no disco anterior, contudo, de forma sempre particular, efeito direto da poesia intimista Rønnenfelt e uso calculado de cada mínimo fragmento instrumental.

Parte dessa mudança de sonoridade e busca por novas abordagens estéticas vem justamente da escolha da banda em trabalhar com o experiente Peter Kember, o Sonic Boom, produtor que colaborou com nomes como Beach House e MGMT. E isso fica ainda mais explícito na já conhecida Vendetta. Mesmo regida pela fluidez das guitarras, típicas do material apresentado em Plowing Into the Field of Love e Beyondless, a canção carrega no uso dos sintetizadores e movimento ritmado das batidas uma série de elementos típicos das criações de Kember. De fato, parte das texturas, ruídos e ambientações eletrônicas parecem saídas do ótimo Panda Bear Meets the Grim Reaper (2015), quinto álbum de estúdio do Panda Bear que também contou com o produção do músico inglês.

Entretanto, a grande beleza de Seek Shelter está justamente na capacidade do Iceage em incorporar traços da identidade de Kember, porém, transitando por entre conceitos e sonoridades pouco usuais dentro do repertório da banda. Exemplo disso acontece em Gold City. Fortemente inspirada pela produção dos anos 1980, a canção vai de encontro à obra de veteranos como Bruce Springsteen, efeito direto do tratamento dado às guitarras e blocos instrumentais que tendem ao rock de arena. A própria Dear Saint Cecilia, minutos à frente, parece alcançar um ponto de equilíbrio entre as criações de artistas como The Replacements e Tom Petty, conceito reforçado pela letra cantarolável que se espalha em meio a captações ruidosas e batidas rápidas que aprecem alavancar a composição.

Esse mesmo olhar curioso para o passado, porém, preservando a sonoridade da banda, acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra. É o caso de High & Hurt, música que utiliza de uma abordagem dançante, mas que em nenhum momento sufoca a poesia densa de Rønnenfelt. “É uma fome faminta de falha / Um golpe na mandíbula inferior / E então você é varrido / Continue chorando, bebê“, canta. São composições regidas em essência pela visceralidade dos temas, como histórias de fracasso e relacionamentos instáveis que dialogam com as experiências mais sombrias de qualquer indivíduo. “Mas amor, o amor mata lentamente / E queima cada memória desbotada“, reflete em Love Kills Slowly, faixa que sintetiza parte das angústias que consomem o registro.

Nesse sentido, Seek Shelter funciona como uma obra que concentra o que há de mais característico nas criações do quinteto dinamarquês, mesmo partindo de uma abordagem essencialmente distinta. Diferente do material apresentado em Beyondless, onde cada composição parecia servir de passagem para a música seguinte, com o presente álbum, Rønnenfelt e seus parceiros parecem testar os próprios limites dentro de estúdio, mergulhando na produção de faixas que funcionam como exercícios isolados. Instantes em que o grupo vai da sofisticação explícita em Drink Rain ao delírio de Vendetta sem necessariamente fazer disso o estímulo para um trabalho confuso, produto do completo domínio e capacidade da banda em se reinventar a cada novo registro de inéditas.