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A CULTURA DA MODERNIDADE – Texto de André Porciúncula

“No seu livro “A Civilização do Espetáculo”, Mário Vargas Llosa mostra como vários estudos notáveis foram prevendo, desde os anos 40, a substituição da alta cultura pelas diversões públicas e pela propaganda política. Em nenhum país esse processo se realizou de maneira tão completa e avassaladora como no Brasil.”

(Olavo de Carvalho)

 

 

Poucas coisas na modernidade são tão mal compreendidas quanto a real profundidade e extensão da dimensão da cultura. Infelizmente, o termo se perdeu, e se apequenou, em idiossincrasias tolas e clichês afetados de grupos aparvoados, ávidos por aparentarem algum tipo de imagem “narcisística” mística, que lhes rendesse o status de “intelectuais”. No Brasil, qualquer bobalhão com pretensão intelectual logo se fantasia de ser “cult”, que é (se é que podemos exprimir significado disso) como um conjunto de comportamentos e trejeitos afetados, cujo sujeito precisa aderir mimeticamente para ser considerado um “homem de cultura” (outra expressão sem qualquer sentido). Ou seja, basta aquele velho kit da MPB, reuniões burlescas em livrarias descoladas (sem qualquer intuito literário), um punhado de slogans enfadonhos e um “modelito” desleixado, para não parecer careta, que está formado o típico representante da cultura moderna.

Não à toa, quando falamos da importância de preservamos a cultura o típico homem oco de nossa época logo pensa em Caetano, Maria Gadu ou Chico Buarque. Isto se deve ao lastimável fato de que a cultura fora reduzida a um mero clichê, um estereótipo caricato de algum desses gentlemen vazios. Perdeu-se completamente a noção metafísica da cultura como culto. Não entendemos mais, como esboçava Eliot, que comportamento é crença e que, consequentemente, cultura é culto. Toda dimensão espiritual foi esvaziada da cultura, por séculos de secularismo ideológico degradante. E a razão disto, em grande parte, se deve ao fato de que o viver se dá sempre desde ou sobre certos pressupostos, que são como o solo em que nos apoiamos, não notamos sua presença até que sua ausência se faça perceptível, que é quando necessariamente tombamos.

Toda ideia pensada se estrutura sobre certas suposições ou convenções tão básicas, tão óbvias para quem pensou a ideia, que nem sequer repara nelas, não as expõem em sua ideia, as supõem tão profundamente que se tornam, por vezes, enigmas. Quando alguém fala sobre a Declaração Universal dos Direitos do Homem, por exemplo, poucos param para explicar o que é homem, como emergiu a ideia de uma humanidade universal, quais pressupostos elegeram o ser humano como algo digno de ter direitos e por que cargas d’água nós valorizamos o direito como algo a ser respeitado. Isto porque toda a dimensão formativa de todos os pressupostos que usamos para as mais simples questões, em política, artes, ciência, economia etc…, estão em um nível tão primordial que quase pertence ao campo inconsciente da psique humana. Os alicerces valorativos que estruturam toda ideia em uma sociedade estão tão imersos em seu culto originador que poucos conseguem realmente percebê-los. Quando dizemos que culto é cultura queremos lembrar que nenhuma sociedade humana se organizou ou emergiu a não ser através de um culto. A civilização é por essência litúrgica e ritualística, todos seus atos estão de forma indelével ligados ao culto que gestou a comunidade. Todo conteúdo de significação está inextricavelmente atrelado a este culto e, por conta disso, vinculado ao evento teofânico em que a cultura emerge.

Tal estado de coisas, vale ressaltar, se dá independente de qualquer crença consciente no culto originador. Assim como o ambiente contribui para a natureza humana, pois sem as pressões ambientais seriamos disformes, a cultura pressiona a personalidade humana. Não há como escapar de toda a sua influência sem aniquilar por completo toda sua existência. O indivíduo é parte de sua cultura assim como é parte de seu mundo, não há como fugir das condições existências culturais assim como não é possível fugir de si mesmo. Quando um alguém conclama a preservamos o cristianismo não está apenas realizando uma pregação espiritual, também há ali uma defesa existencial; é a lembrança de que a cultura não é apenas o comportamento histérico de algum esquisitão do “beautiful people’, mas o próprio pressuposto espiritual de que toda ideia, em sociedade, é, felizmente, nosso culto.

 

André Porciúncula

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