A GRANDE BELEZA

 

Viajar é útil, exercita a imaginação….  aliás, à primeira vista todos podem fazer o mesmo: basta fechar os olhos. É do outro lado da vida.

É assim, citando um pequeno trecho de “Viagem ao fim da noite” do escritor maldito Louis-Ferdinand Céline e renovando as propostas clássicas do melhor cinema italiano – sobretudo o genial Federico Fellini de “La Dolce Vitta” – que o diretor Paolo Sorrentino introduz o premiadíssimo “A Grande Beleza”, que ganhou o o European Award Films de 2013 e o Globo de Ouro e  o  Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de Holywood  em 2014.

Nele, acompanhamos as indagações existenciais de seu “alter-ego”, o jornalista de sucesso , Jep Gambardella (o excelente Toni Servillo), autor de um romance de sucesso em sua juventude, que aos sessenta e cinco anos tenta afastar o tédio hedonista da vida que leva na capital italiana alternando longas perambulações pela monumentalidade da cidade de Roma  que satisfazem seu senso de refinado esteta, com o convívio mundano e frívolo junto à alta sociedade, em festas bizarras e frenéticas no terraço de seu apartamento com vista para as ruínas do Coliseu (uma metáfora de seu próprio interior devastado pela erosão e pela desilusão existencial), onde Gabardella se compraz em desnudar a comédia do nada encenada pelo “aparato humano”  – exatamente o título de seu romance de sucesso –  que o cerca.

Como todos os grandes filmes com os quais se ombreia, “A Grande Beleza” tem na trilha musical espetacular um de seus grandes trunfos; tanto nos momentos de introspeção quando brilham os temas líricos e reflexivos da trilha original de Lele Marchitelli, com destaque para os cantos líricos de passagens da “Sinfonia das Lamentações”de Gorecky e do “Dies Irae”de Zbigniew Preisner e, sobretudo,  para a extraordinária “The Beatitudes”de Vladimir Martynov

já nos créditos finais do filme, quanto nos momentos de “desbunde” em que os personagens “fellinianos” desfilam a conhecida veia exagerada dos habitantes da bota, com muita gesticulação e  “performance”  ao som  “kitsch” de antigos sucessos  da dance music e do electroclash italiano. Sobra  até espaço para a eletrônica do DJ brasileiro Gui Boratto.

Resultado de imagem para youth la grande bellezzaTirando  partido  da  extasiante  beleza  da Cidade Eterna e valendo-se de imagens oníricas e por vezes metafóricas  e diálogos inteligentes , num raro casamento entre a beleza da arquitetura e a riqueza das palavras,  o filme expõe as contradições desse “bon-vivant” sexagenário, ainda um incorrigível sedutor, mas que persegue incessantemente os frágeis e inconstantes vislumbres de beleza  no silêncio austero dos claustros que percorre,  na simplicidade dos diálogos com sua dedicada cozinheira ou na evocação de um romance de sua juventude para tentar buscar  inspiração para escrever  e, como afirma  Viktor E. Frankl,  tentar dar sentido  a   uma  existência  em  que  tem  mais   do  que  o suficiente  para  viver,  mas, mesmo com esse tanto, parece não ter nada por que viver.

 

 Paulo Monteiro
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  1. […] de um filme simplesmente deslumbrante. É bem verdade que há uma boa dose de A Grande Beleza neste novo trabalho, especialmente no formato. Assim como acontece em seu longa anterior, premiado […]

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