A SEDUÇÃO AMAZÔNICA

Uma aventura! Uma das viagens mais fantásticas que já fiz!

 

Todas as viagens têm um preâmbulo, mas dificilmente poderia ter imaginado um início mais condizente do que ser homenageado com um delicioso Bobó de Camarão e com a presença gentil  e serena de uma legítima representante da verdadeira aristocracia amazônica, justo na véspera de um inusitado périplo hidroviário pela região.

Lenirce,  a anfitriã, uma legítima nativa de Coari, no interior do Amazonas, poderia ser descrita como a preservação do requinte e da delicadeza –  que refulgem com maior intensidade na simplicidade e no despojamento  – de tempos mais charmosos, e que ainda subsistem em rincões isolados,  numa metrópole caótica,  sufocada pela permanente e desordenada explosão demográfica trazida no bojo da Zona Franca, junto com o forte apelo de enriquecimento – ou, pelo menos de sobrevivência, face ao abandono e à falta de recursos financeiros das pequenas comunidades ribeirinhas amazônicas -,  pelo despreparo educacional das massas, pelo apelo consumista a qualquer custo e pela urgência banal e tantas vezes medíocre de novas tecnologias e novos costumes.

 Seria também a baliza a nortear a busca pela sedução amazônica iniciada no dia seguinte a bordo do F/B S. Bartolomeu IV, uma embarcação típica da região que, descendo o rio Amazonas, me levaria até Santarém  e a Alter do Chão, a comentada praia fluvial da cidade; já na saída, enquanto aguardávamos o lento embarque de passageiros e de carga, e após ter pendurado a imprescindível rede de dormir junto a dezenas de similares no convés superior da embarcação de 04 andares, houve tempo suficiente para se familiarizar com a efervescente variedade de passageiros que seriam companheiros de viagem nas longas horas de trajeto: famílias com crianças de colo ainda na fase de amamentação, adolescentes usando camisetas com nomes de “griffes” renomadas e calças “jeans” justas com “strass” chamativos, homens com as toalhas e camisetas do Flamengo (uma verdadeira paixão local, que faz com que o time carioca tenha na cidade a maior torcida fora de sua cidade natal), jovens senhoras casadas indo ao encontro de seus familiares e a multidão de nativos que se utilizam regularmente desse meio de transporte e lotaram os 03 compartimentos da grande embarcação com um mar de redes multicoloridas; sintetizando esse universo pessoal e exótico, cruzei com um idoso comerciante japonês com uma garrafa de cachaça “Corote” nas  mãos e uma camiseta com os dizeres: “O Brasil não se explica, se sente”!

Isso me fez compreender que, como estamos na Amazônia secular, o tempo e o ritmo são ditados por convenções próprias o que significa que a saída prevista para as 10:00 hs. só viria a ocorrer de fato às 12:30, como poderia ter sido às 15:00 hs., ou às 18:30 hs., ou quando a embarcação tivesse terminado de ocupar o piso térreo com toda a carga prevista; lucro e festa para a dezena de ambulantes que circulavam vendendo imitações de óculos Ray-Ban, picolés artesanais de 01 real, carteiras de couro sintético, carregadores e fones de ouvido para celular, brinquedinhos de plástico, marmitas de pratos feitos, salgadinhos industrializados e toda a sorte de badulaques que garante a subsistência do comércio na zona central da cidade.

Tempo também para apreciar dois dos maiores orgulhos atuais do manauara: a moderna Ponte Rio Negro, que, no início foi ironicamente descrita pelo cidadão local como a ponte que liga o nada a lugar algum, mas que hoje teve sua importância reavaliada, por ter proporcionado reais possibilidades de desenvolvimento às comunidades interioranas adjacentes, e os seculares pavilhões do Mercado Municipal, uma réplica do Les Halles parisiense, que, junto com o prédio da Alfândega e sobretudo com o belíssimo Teatro Amazonas, atestam as glórias da capital amazonense nos áureos tempos do Ciclo da Borracha, no início do século passado. Contrastes de uma metrópole de mais de dois milhões de habitantes, recheada de abissais contradições, e que teima em expandir-se no coração do maior celeiro natural do Planeta e tem no Eco Turismo, com dezenas de ofertas de Hotéis de Selva, uma de suas maiores vocações de prosperidade.

 

O trajeto de barco é oportunidade também para desfrutar, logo na saída,  de um dos mais extraordinários espetáculos da Natureza: o Encontro das Águas escuras do Rio Negro com as barrentas do Solimões,  – que, a partir desse ponto passa a denominar-se Amazonas – em que os dois gigantes parecem correr em paralelo por centenas de metros sem que as águas se misturem. A bordo, a prolongada duração do trajeto convida ao convívio sempre fácil com um povo afável e sorridente ou ao banho em um dos muitos bem aparelhados banheiros : afinal, estávamos na Amazônia, onde o excesso de umidade causa uma sensação quase sufocante de desconforto térmico e o hábito de pelo menos dois banhos diários é quase um ritual e uma necessidade climática.
A primeira escala, já na alta madrugada, era em Parintins, a hoje mundialmente conhecida cidade, sede do exuberante Festival Folclórico que se realiza anualmente no último final de semana de Junho trazendo multidões de aficionados, em voos fretados e centenas de barcos que congestionam e dão um colorido frenético à navegação no Amazonas nessa época.  A hospitaleira Ilha de Tupinambarana engalana-se e literalmente racha ao meio – a Catedral de Nossa Senhora do Carmo no Centro divide a cidade em azul e vermelho –  para acompanhar o despique entre os dois bumbas: o coração vermelho do Boi Garantido e a estrela azul do Boi Caprichoso que, em três dias de Festival, se alternam para mostrar numa ópera indígena ricamente encenada a mítica lenda, que de tão emocionante parece ter sido herdada das tradições milenares do boi Apis que celebravam o poder vital da Natureza e sua força geradora no antigo Egito, e, acrescida das lendas e das personagens da mitologia nativa, veio renascer no coração da selva amazônica. O despique entre as duas agremiações rivais assume uma faceta tão apaixonada, mas ao mesmo tempo extremamente respeitosa e educada que inclui o silencio absoluto quando da apresentação do rival, que cada um deles só se refere ao outro como o “contrário” e  é talvez o ingrediente mais apimentado e uma brincadeira lúdica imprescindível que deve ser  “comprada”  pelo leigo presente, já que um dos pontos mais instigantes do Festival no moderníssimo bumbódromo  é justamente a participação das galeras,adequadamente munida de adereços folclóricos próprios para interagir em momentos estudados,  num espetáculo de interatividade espontânea que faz inveja aos “shows” tecnológicos da  Disney. Quem apenas conhece o Festival pela transmissão de TV, não tem como avaliar a emoção e a animação de participar ao vivo de um evento desse porte.

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Entrementes, o S. Bartolomeu prosseguia viagem, descendo o majestoso rio pelo canal central (enquanto as embarcações que sobem, fazem-no pelas margens) como é de tradição na navegação fluvial, e a densa paisagem monocromática da Amazônia, agora no estado do Pará, só era quebrada por esparsas comunidades ribeirinhas e pela rápida escala em Juruti e Obidos, com direito à venda das marmitas de PF: galinha caipira, carne assada de panela, pirarucu ou galinhada. Finalmente, após quase 36 horas de percurso, chegávamos finalmente a Santarém, terra de minha bisavó, Joana  Bemvinda, uma judia santarena, culta e de olhos verdes- musgo, como as águas do Tapajós,  a cujos serenos encantos não teve como resistir  o também judeu recém-chegado da Espanha, Jacques Pantoja,  algo aliás bastante comum em toda a região amazônica, onde até aos dias de hoje se acumulam histórias similares de varões perdidamente seduzidos pela sensualidade, pela pele acetinada e pela meiguice sestrosa da  “cabocla” do Norte do país .

Após ter cruzado o aguardado encontro das águas do Amazonas com as do Tapajós , em mais um espetáculo gratuito da Natureza, eis-me finalmente na Pérola do Tapajós, a principal cidade do Oeste do Pará, hoje uma cidade com cerca de 350 mil habitantes, centro da fantástica cultura proto-histórica tapajônica, herdada da brava tribo dos Tapajó, que, muito antes da colonização portuguesa, já ocupava a foz e as margens desse rio que passou a ser conhecido pelo nome de seus primitivos habitantes. Além do extraordinário legado arqueológico de louças de cerâmica, cuja modelagem rebuscada, quase sempre representando a fauna amazônica, lembra o estilo barroco e tem como objetos mais característicos os delicados vasos (aqui chamados de cariátides), os cachimbos e os muiraquitãs – espécie de ornamento, muitas vezes com formas batraquianas, que  hoje em dia é usado pelos santarenos cultos como amuleto místico – a impressiva Cultura Tapajônica deixou em seus descendentes um forte apreço pela Liberdade e um arraigado sentimento de independência que perdura até aos dias atuais.

O outro grande atrativo da região encontra-se na orla tapajônica, em várias e belíssimas praias fluviais (a maioria de acesso difícil, por estradas de terra que exigem veículos adequados para tráfego), que formam o chamado Caribe Amazônico: Carapanari, Pajuçara, Pindobal, Ponta de Pedras e, obviamente, Alter do Chão. Um verdadeiro império das águas sob a regência da Iara, a ninfa fluvial e um dos mais fascinantes mitos  amazônicos que nos fala de uma sereia belíssima e morena ( em certas variações dessa lenda trata-se de um boto-fêmea) que encanta os homens e os leva para o fundo do rio ! A belíssima praia de Alter do Chão, a única servida por uma estrada asfaltada, a 40 quilômetros de Santarém,  e com farta oferta de hotéis e confortáveis pousadas, supera  “in loco” qualquer adjetivo elogioso dos muitos que já lhe foram dirigidos e faz jus ao título de praia mais bonita do Brasil, que lhe foi concedido pelo tradicionalíssimo vespertino britânico, “The Guardian” . Circundada pela exuberância de verde da selva e emergindo magicamente no meio do Tapajoz,  como uma praia de areias branquissimas e águas doces e mornas,  sempre beijada pela suave brisa do rio,  dá a impressão de uma Ilha de Amor (como é conhecida) no meio de um lago paradisíaco, deslumbrante e inesquecível.
No entanto, como houvera optado por me hospedar numa Pousada situada numa Comunidade de praia entre Santarém e Alter do Chão, para fugir aos excessos ruidosos do Carnaval que tomava conta dos locais mais visados, por essa época de folia, pude amanhecer despertado pelo cocoricar dos galos, olhando a placidez imutável do Tapajoz , só quebrada pelo chilrear incessante de sabiás, bem-te-vis, sanhaçus, canários, pipiras,anus, etc…. Sr. Roberto, o gentil paranaense dono da pousada que ali tinha chegado e constituído família, seduzido pela beleza da região e, para não fugir à regra, pelos encantos de uma paraense, solicitamente esclareceu que,  eventualmente, poderiam ser vistos também tucanos, araras, pica-paus,  iguanas, macacos suins e pacas, além das indesejáveis e assustadoramente encorpadas aranhas caranguejeiras, de várias espécies de cobras e da onipresença da temível e minúscula formiga vermelha de fogo, assim conhecida devido aos efeitos dolorosos de sua picada. Só não confirmou a existência do mapinguari,  o temível monstro da lenda amazônica, matador por natureza, que atemoriza o sono das crianças e incendeia o imaginário dos estudiosos do folclore da região. Mas aí já estaríamos adentrando o terreno do fantástico tropical de um Garcia Marquez, por exemplo .

Temores à parte, só me restava desfrutar da deliciosa culinária amazônica, cuja base é o peixe: Tucunaré, Pirarucu (o imenso bacalhau da Amazônia), Tambaqui, Aracu, Charutinhos, Pacu, Jaraqui, Dourado e Mapará, sempre acompanhados da indispensável farinha de mandioca de várias espécies e da pimenta murupi triturada no tucupi, sem esquecer da luxuriosa oferta de frutas da região, o açaí puro, pastoso e de aroma incomparável, que é degustado com tapioca, o murici (muito usado na confecção de doces) o doce sapoti, o pajurá, o caju, a pupunha e o tucumã, só para mencionar as menos conhecidas no Sul/Sudeste do país.
Desconcertante mesmo foi ver a consciência ecológica dos nativos do local; numa praia com várias barracas de alimentos e a frequente presença de visitantes, não só inexistia qualquer vestígio de sujeira, restos de comida ou até das indefectíveis latas de cerveja que nos acostumamos a ver em vários outros locais turísticos de nosso país, como pude perceber nas traseiras das barracas dois imensos camburões de plástico, um acondicionando todas as garrafas Pets e o restante material reciclável , e o outro com todos os detritos orgânicos. Em toda a extensão da praia viam-se tabuletas com os seguintes dizeres: “Só jogue no rio o que o peixe pode comer”!

Talvez a presença do pequeno e invisível Curupira de cabelos de fogo, outro dos seres mitológicos do folclore local, que protege todos aqueles que sabem se relacionar com a Natureza esteja motivando uma tão surpreendente preocupação ecológica de primeiríssimo mundo, mas, ainda mais depois de ter conhecido Lenirce, na gentil recepção em Manaus, que iniciou esta autêntica viagem sentimental e  iniciática, prefiro acreditar que a verdadeira aristocracia é a do Espírito, mesmo quando encastelada num rincão remoto da imensa Floresta Amazônica, pois, como li num recente ”post”  em rede social, a nossa busca consiste em tentar recuperar a delicadeza perdida em volta de nós.

 

Paulo Monteiro

 

 

 

 

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