Antonio Delfim Netto : “A origem dos EUA”

O paulistano Antônio Delfim Netto foi a figura central daquilo que foi conhecido como o Milagre Econômico Brasileiro, enquanto exerceu o cargo de Ministro da Fazenda, de 1969 a 1974, durante o Regime Militar, e presidiu o período de crescimento mais longo e mais acelerado da História do Brasil. Economista , político, diplomata e, sobretudo, uma personalidade pública inegavelmente controversa, Delfim Netto é responsável por diversos brilhantes artigos , que, independentemente, do julgamento de seu autor, o credenciam como um dos mais brilhantes e lúcidos economistas e pensadores nacionais de sua geração. Reproduzo aqui na íntegra seu artigo “Origem dos EUA”, onde comenta as causas do desenvolvimento da grande nação norte-americana e, obviamente, estabelece alguns paralelos e contrapontos com as origens de nossa Pátria Amada:

 

Resultado de imagem para land of promise“Um brilhante intelectual acaba de publicar uma extraordinária história econômica dos EUA. Merece ser lida por quem se interessa pelo papel do Estado e dos estadistas na construção de instituições que tendem a promover o desenvolvimento econômico de um país num regime de liberdade de iniciativa dos seus cidadãos. Resultado de imagem para "A origem dos EUA"O livro é “Land of Promise” (HarperCollins). O autor é o considerado Michael Lind. Trata-se da saga da quase inacreditável construção política que, a partir da segunda metade do século 19, transformou uma coleção heterogênea de pequenas colônias inglesas na maior, mais eficiente, produtiva e democrática sociedade do mundo, com a enxuta e poderosa Constituição de 1787. Essa construção exigia uma conveniente organização econômica, que foi entregue ao gênio Alexander Hamilton, secretário do Tesouro de 1789 a 1795.

 

 

A história revela que, desde o início, duas diferentes concepções dominaram a formação da sociedade americana. Uma, a hamiltoniana, que sugere que uma nação forte precisa de uma organização com um governo central estimulador da atividade privada e construtor da infraestrutura. A outra, jeffersoniana, acredita que a prosperidade é produzida pelo trabalho de pequenos produtores independentes e competitivos. A situação ao longo dos últimos 220 anos não é muito clara, mas podemos, no nosso tempo, incluir na primeira Franklin Roosevelt e, na segunda, Ronald Reagan.

Lind não deixa dúvida sobre o fato de que esse jogo entre as duas correntes foi fundamental para construir os EUA. Elas são visíveis na disputa Obama versus Romney. O autor chama a atenção para o movimento cíclico desse desenvolvimento. Fala, na verdade, em três Repúblicas: a dos fundadores, a estabelecida após a guerra civil com Lincoln e a construída depois da depressão de 1929. A construção de Hamilton se fez apelando para um inteligente protecionismo que negava Adam Smith. O progresso da Inglaterra foi feito com o protecionismo. E só quando dominou a economia mundial ela passou a defender o livre funcionamento dos mercados. Vale a pena acompanhar a construção de Hamilton nos seus relatórios ao Congresso: sobre o crédito público (janeiro de 1790), sobre a criação de um banco nacional dos EUA (dezembro de 1790) e sobre as manufaturas (janeiro de 1791). É hora de lembrar que do tamanho de Alexander Hamilton tivemos um Silva. José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838). A mediocridade política que nos persegue impediu que aproveitássemos seus projetos para terminar com a escravatura, desenvolver a siderurgia e tornar a educação primária obrigatória já nos anos 20 do século 19.

 

O Brasil hoje seria outro!!!”

 

Antônio Delfim Netto (Publicado na Folha de São Paulo em 22/08/2012)

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