Disco do Mês de Janeiro 2009: Antony & The Johnsons – “The Crying Light”

 

 

 

 

 

 

 

Não existe na cena musical atual quem explore e divulgue com tanta profundidade e competência a tradição de androginia musical – que em outras épocas já foi trilhada por personagens históricos da música rock/pop, como David Bowie e Marc Bolan, ícones do “glam rock”, ou Lou Reed, entre muitos outros – como o inglês de West Sussex que atende pelo nome de Antony Hegarty.

Talvez só possa encontrar algum paralelo, atualmente, nas performances de “cabaret” do talentosíssimo Rufus Wainwright…mas aí o papo é outro! Desde a adolescência radicado nos EUA, Antony não tardou a apaixonar-se pelo Synth Pop britânico, representado na época especialmente por Boy George (com quem dividiu a faixa “You are my sister”do seu disco de 2005) e por Marc Almond; em Manhattan, para onde se mudou com o intuito de terminar o curso de Teatro Experimental na Universidade de Nova York, assistiu ao documentário Mondo New York sobre performers e a cena cabaret da cidade.

Essa efervescente cena gay foi importante para a formação artística dos discos de Antony. Lá formou um coletivo de performances chamado Blacklips Performance Cult e teve como parceira a música e artista performática Johanna Constantine além de outras figuras como punks, drag queens e travestis. O coletivo ficou junto até ao ano de 1996, quando começou a se apresentar com o nome artístico de Antony & The Johnsons. Com o lançamento de seu primeiro disco homônimo em 2000, Antony começou a chamar a atenção de pessoas que outrora foram seus ídolos. Convidado por Lou Reed para regravar um de seus clássicos, “Perfect Day”, o ex-vocalista do Velvet Underground se tornou parceiro no segundo disco, I Am A Bird Now (2005). A capa traz a travesti Candy Darling numa cama de hospital, pouco antes de morrer, para quem Reed escreveu a música “Candy Says”. Com inúmeros elogios da crítica e descrito como uma mistura intoxicante de Nina Simone, Boy George e “Little” Jimmy Scott, o disco revelou o talento de Antony para o mundo pop.

Um talento que se confirma e se expande agora com o lançamento de “The Crying Light”; auxiliado pelos arranjos sinfônicos do genial compositor “avant-garde”/clássico Nico Muhly, o disco explora a voz poderosa de Antony e suas “performances” andróginas e bizarras, mas sempre elegantes, em composições quase operísticas, densas e muitas vezes trágicas e nos paroxismos da sensibilidade exacerbada; do hit “Another World” , passando pela quase pop “Kiss my name” e pela emocionadissima viagem da alma de “One Dove” até ao clímax sinfônico de “Everglade”, é um desfile ininterrupto de baladas e imagens líricas de partir o coração que transformam a militância de uma minoria – a dos transexuais, gays e lésbicas – em arte viva a serviço do respeito pelo diferencial. Um artista único em momento singular para as horas de sensibilidade mais aflorada….

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