ARTHUR RIMBAUD: “Uma Temporada no Inferno”

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud ( 1854 — 1891) foi um poeta francês. Produziu suas obras mais famosas quando ainda era adolescente sendo descrito por Paul James, à época, como “um jovem Shakespeare”. Ainda jovem em Paris, teve um caso de paixão tempestuosa e escandalosa, à época, com o também poeta, Paul Verlaine, que, na época era casado. Verlaine abandonou mulher e filhos para seguir Rimbaud.  Os amantes levaram uma vida ociosa, regada a absinto e haxixe. Escandalizaram o círculo literário parisiense por causa do comportamento ultrajante de Rimbaud, o arquetípico, enfant terrible, que durante este período continuou a escrever notáveis versos visionários. É dessa época sua obra mais célebre, “Uma Temporada no Inferno”. A relação passional entre os dois poetas logo chegou ao término e Rimbaud, aos vinte anos deixou de escrever poesias e partiu para a África e decide trabalhar com o comércio de café na Etiópia. Entra para o exército das colônias holandesas, mas em 1876 resolve desertar, e volta para sua cidade natal. No ano seguinte começa a trabalhar no comércio de café, novamente no continente africano, e viaja por diversas cidades. Em 1885, se envolve com o tráfico de armas. Rimbaud teve várias amantes nativas nesse período, antes de morrer de câncer aos 37 anos de idade e entrar para a posteridade influenciando a literatura, a música e a arte modernas e deixando uma obra que, embora pequena, é tão significativa e original, que acabou por influenciar diversos poetas das gerações posteriores.

 

 

Trechos de seu poema mais famoso, “Uma Temporada no Inferno”, o relato em prosa poética do homem perscrutando as suas profundezas e origens. Os textos deste livro visitam sonhos e terras distantes, desejo de solidão e sede de conhecimento, o passado ancestral e a busca pelo desconhecido.

 

Uma Temporada no Inferno

 

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“Antigamente, se bem me lembro, minha vida era um festim no qual todos os corações exultavam, no qual corriam todos os vinhos.

Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos.

– E achei-a amarga.

– E injuriei-a. Armei-me contra a justiça.

Conjurei os verdugos para morder, na minha agonia, a culatra de seus fuzis. Conjurei as pragas, para afogar-me na areia, no sangue.

Fiz da desgraça a minha divindade. Refocilei na lama. Enxuguei-me ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura. E a primavera trouxe-me o horrível gargalhar do idiota.

Ora, por último, chegando a ponto de quase fazer o trejeito final, sonhei encontrar a chave do festim antigo, no qual talvez recobraria o apetite.

A caridade é essa chave. – Esta inspiração prova que tenho sonhado! “Sempre serás hiena, etc…” exclama o demônio que me coroou de tão amáveis papoulas. “Vence a morte com todos os teus apetites, com todo o teu egoísmo e todos os pecados capitais”. Ah! estou farto de tudo isso:

– Mas, querido Satã, eu te conjuro a que não me fites com pupila tão irritada! e à espera das pequenas covardias atrasadas, para vós outros que admirais no escritor a ausência das faculdades descritivas ou pedagógicas, para vós arranco algumas hediondas páginas do meu caderno de condenado.

 

 

 

 

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