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AS DIVINDADES PRIMORDIAIS

O mito cosmogônico é uma tentativa de explicar a origem do mundo, das coisas e dos seres animados.

 

 

Tanto Homero (século IX a.C.) como Hesíodo (século VIII a.C.), os órficos (século VI a.C.) e os demais poetas e filósofos da Antiguidade, diante desse imenso mistério, procuraram encontrar o princípio do universo; surgiram, assim lendas míticas e teorias racionais.

chaos.jpgE o Caos, matéria informe, existente desde a eternidade, foi colocado como começo de tudo, fundamento do mundo. Inicialmente Hesíodo descreve-o como um espaço aberto, uma extensão pura; mais tarde foi concebido como o “onde” primordial no qual todos os elementos da matéria já existiriam, embora latentes e desorganizados.

O que havia “antes” do Caos, e o teria gerado, ninguém sabe. Depois de organizado, chamar-se-á Cosmos.

Estágio primordial da  realidade, anterior ao surgimento dos seres particulares, o Caos escapa à apreensão exata pela linguagem humana. Inefável, reveste-se de mistério e só pode ser aludido através de metáforas que não o aprisionam por completo, antes apenas o sugerem. Mesmo porque como designar perfeitamente o que existia antes das próprias coisas sobre as quais fala a linguagem dos homens?

Visto, entretanto, como matriz do universo, era necessário atribuir ao Caos os germes das oposições que o mundo manifesta: os contrastes e a permanente tensão entre luz e sombra, unidade e pluralidade, vida e morte, espírito e matérias. “pares de opostos” que marcarão a produção artística e filosófica dos gregos. No mito primitivo do Caos, o antagonismo que propulsionaria o universo aparece expresso já na relação entre Gaia (a mãe-Terra), base sólida de todas as coisas, e Eros (o Amor), tênue princípio de todo o impulso gerador.

Outro aspecto da dualidade fundamental aparece na oposição entre Ordem e Desordem. Os Titãs, forças tempestuosas da natureza, e a primeira geração olímpica governada por Zeus (Júpiter), travam uma guerra que dura dez anos, ao fim da qual os deuses vencedores estabelecem uma nova hierarquia de poder. Sua vitória representa a afirmação da Ordem sobre a Desordem.

Sob a influência de ideias filosóficas posteriores, ver-se-á nesse mito a intenção de mostrar as divindades olímpicas como espirituais, e a constituição dos Titãs e das demais divindades primordiais como basicamente material. Assim, Urano, (Céu), Cronos (Saturno) e Gaia seriam a “materialidade”, destronada por Zeus, a “espiritualidade”.

Resultado de imagem para gaiaTodas as formas materiais teriam emergido do misterioso Caos. Gaia, a mãe-Terra, pode ser considerada a primeira “aparência” da matéria. Sozinha, ela gera Urano, movida pela necessidade de ter um companheiro. Eros, seu contemporâneo no Caos, princípio espiritual do Amor, faz Gaia unir-se a seu primogênito. Fecundada por ele, Gaia dá à luz os Titãs, os Ciclopes (monstros de um só olho) e os Hecatônquiros (gigantes de cem braços e cinquenta cabeças). Estes são as personificações das forças da natureza material que sempre opõem dificuldades e obstáculos ao surgimento definitivo das formas ordenadas e constantes da vida. Correspondem à primeira etapa da gestação evolutiva. Representam os cataclismos que transformaram a face do mundo, preparando-o para receber as diversas espécies animais e, muito mais tarde, o ser humano.

Elementos devastadores, os primeiros filhos de Gaia fazem os vulcões entrarem em erupção, e criam terremotos, tempestades e furacões.

Urano, pai e irmão dessas forças, revolta-se contra elas e atira Ciclopes, Titãs e Hetacônquiros no Tártaro, uma das regiões do Erebo subterrâneo. Mas /Gaia, mãe-matéria, revolta-se e liberta os filhos. Ela é natureza, e, como tal, não pode impedir os fenômenos naturais de seguirem seu curso.

A lenda cosmogônica de Hesíodo mostra Crono, o Tempo, indomável filho de Urano e Gaia, revoltado contra o pai por este fecundar incessantemente a mãe. Outra razão de sua revolta é justamente a devastação que a Terra sofre com a violência dos outros filhos, os Hetacônquiros e os Ciclopes.

Para que Gaia não continue fecundando infinitamente, Cronos corta os testículos do pai. Sua arma é uma foice que a própria Terra havia afiado tendo em vista esse objetivo. A foice é o símbolo da morte. Mas quem morre não é Urano – ele é imortal – , é o seu reino que dá lugar ao de Cronos, curvando-se à implacável necessidade de evolução.

Entretanto, a foice é também símbolo da colheita, de uma nova esperança, renascendo sempre na natureza. Nesse sentido, os órgãos de Urano podem representar a força capaz de gerar a vida ininterruptamente. Privando-o deles, Cronos torna-se capaz de competir com seu poderoso pai e de constituir um novo reino. Mais tarde, seu filho, Zeus, será o centro da configuração olímpica que se forma nessa segunda etapa da evolução mítica.

Ao cair sobre a Terra, o sangue de Urano ainda uma vez a fecunda, gerando as Erínias (símbolos da culpa de Cronos), os Gigantes e as Melíades, Ninfas das árvores. Ao caírem no mar, os testículos do deus formam, com o sêmen expelido antes da castração, uma branca espuma da qual nasce Afrodite (Vênus), a deusa do Amor e da Beleza.

Resultado de imagem para cronos mitologiaCronos significa o Tempo: a fome devoradora da vida, o desejo insaciável da evolução. Juntamente com Réia (Cibele) sua esposa e irmã, estabelece um reinado que se assemelha à era pré-consciente da humanidade. Nesse período, o Tempo está ainda cego. A vida não compreende a si mesma, e parece mais um simples fervilhar de elementos confusos do que propriamente uma evolução.

Seres nascem e morrem ininterruptamente, sem ordem alguma. Cronos devora seus filhos. Zeus ordenará definitivamente o Universo. Ele é o princípio divino da espiritualidade, a nova ordem que surgirá com a geração dos Olímpicos. Destronando o próprio pai, Zeus estabelecerá na Terra a base das relações entre todos os seres.

Nem monstruosos, nem gigantescos, nem cegos como os primeiros filhos de Gaia, os Olímpicos talvez correspondam , miticamente, ao Homo Sapiens, na evolução das espécies. Ou seja: um ser consciente, falante, bípede e criador.

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