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AS NUANCES DO AMOR

A Psicanálise propõe como a primeira forma de amor, a primeira experiência vivida, o amor a si mesmo, chamado por Freud o amor narcisístico; e a segunda, o amor anaclítico, o amor ao outro, representado pela mãe, aquele que nos deseja, que nos satisfaz nas nossas necessidades e nos protege. A primeira relação de amor é narcisística.

 

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Ama-se para ser amado. Lacan chamou de paixões do ser, ao amor, ao ódio e à ignorância; e de paixões da alma, à tristeza e à mania.

A ignorância como paixão é um dos elementos que constituem o amor de transferência. A paixão vê o outro como objeto, o amor vê o outro como ser. O amor só pode ser concebido em uma relação simbólica, mediada pela palavra. O milagre do amor, diz Lacan, é quando o erómenos (o amado) vem em vez de erastés (o amante) e se torna o sujeito da falta, aquele que deseja. Amar é próprio da condição humana. Experimentamos o amor na medida em que deparamos com a nossa falta em ser. O amor opera os seus milagres, mas, também define os seus limites, e um deles é impedir que vejamos certas coisas, mantendo um certo saber bem longe da consciência, bem reprimido. O amor é o caminho de volta ao narcisismo, de modo que amar é colocar o eu ideal no outro e amá-lo por isso. A nossa condição estrutural nos leva a procurar em outro aquilo que nos falta, pensando que nos irá completar. Essa é a concepção neurótica do amor de casal, do amor como complemento do ser. Temos aqui o par amante e amado. Aquele que é desprovida, falta, e aquele a quem se supõe que tem em si o que lhe falta ao outro.

O amante procura no amado algo que lhe falta e que supõe que o tem, mas não encontra. O amado não sabe pelo que ele é amado e não tem o que o amante pressupõe. O que o amado pode fazer é retribuir amor, passando do lugar de amado para o lugar de amante e respondendo ao eu te amo, dizendo: Eu também te amo. O encontro amoroso causa, ao mesmo tempo, a ilusão de completude e a certeza da falta: o outro é a minha falta e dou a minha falta ao outro. O fracasso da relação amorosa aparece quando o homem adota uma posição passivo-Masoquista, obrigando a mulher a adotar uma posição fálico-Ativa. A mulher quer ter e o homem não quer dar porque tem medo de perder. Por essa via encontram-se os fracassos do amor. O amor é baseado na ilusão de que o encontro de duas faltas pode ter sucesso e gerar, causar nova harmonia.

O Nascimento de um filho obriga a reconhecer e aceitar a falta e identificar-se uns aos outros com a falta do outro. Amar é dar o que não se tem a alguém que não é, diz Lacan. Dar o que não se tem é dar a falta constitutiva. O amor como dom ativo está além do fascínio imaginário e narcisístico. Por ser amor, a diferença, se dirige ao ser do outro. É quando amamos o outro mais do que a nós mesmos. É por isso que dizemos que a paixão é um estado de loucura transitória. Toda vez que nos apaixonamos podemos perceber que dois fenômenos se repetem: a sobrevalorização do outro enquanto objeto amoroso, sexual e o empobrecimento do nosso próprio eu. O Estado apaixonado mostra o domínio do objeto da libido em detrimento da libido do eu. O abandono dói. Perder o objeto amado é perder uma parte de si mesmo, uma vez que toda a libido investida no objeto amado, face à perda fica livre e gera dor, solidão e angústia, até que seja feito o duelo e a libido de ao eu para que o eu possa se recuperar novamente e voltar a amar. Freud, em pulsões e seus destinos (1915), diz que se uma relação com um determinado objeto foi quebrada, muitas vezes o ódio surgirá em seu lugar, de modo que temos a impressão de uma transformação do amor em ódio. Em Introdução ao narcisismo (1914), adiciona: “um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, em um último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecê-los, e estamos destinados a adoecê-los se, em consequência da Frustração, fossemos incapazes de amar”.

O amor situa-se entre a repetição e a invenção. Para Freud, o amor é reprise.

Resultado de imagem para AS  NUANCES  DO  AMORAmar é repetir, reencontrar o objeto de substituição do objeto perdido. Para Lacan amar é inventar, elaborar o saber. O amor é um modo de dirigir-se ao objeto a, através das palavras de amor, das cartas de amor. Amar é nomear o objeto a, e poder reencontrá-lo. Lacan, em seminário vai dizer que o amor como paixão imaginaria é um amor que deseja ser amado, e que só o amor permite apreciar o desejo, isto é, ser favorável ao desejo, apreciar a renúncia da falta. Suprir a falta é enchê-la! Quem ama goza de desejo. A Psicanálise é uma cura pelo amor, baseada na premissa de que o desejo de saber é o do amor “desejante” e o desejo de não saber é o da paixão da ignorância. Curar-se do destino é uma condição necessária para que o sujeito possa inventar um novo laço amoroso. A cura pelo amor acontece quando se passa a amar em conformidade com o tipo narcisístico. A cura pelo amor coloca à disposição do sujeito a sua capacidade de amar e trabalhar. O desejo é a expressão dessa falta de satisfação absoluta. O amor dá sentido àquilo que, no campo do sentido, não faz qualquer sentido.

 

 

Resultado de imagem para jorge sesarino JORGE  SESARINO  é  natural de Apiúna, Santa Catarina. Graduação em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1984), Mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Paraná (2000) e Doctorat en Sciences Psichologiques pela Université de Liège (2005). Professor titular do Curso de Psicologia da UTP – Universidade Tuiuti do Paraná, da disciplina de Teorias e Técnicas Psicológicas e supervisor de práticas em psicologia clínica. Professor da disciplina de Psicopatologia do Curso de Psicologia e supervisor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e da Faculdade Dom Bosco, na disciplina de Nosologia e Nosografia. Professor de Teoria Psicanálítica e supervisor clínico do Curso de Pós Graduação em Psicologia clínica da UTP. Professor do Curso de Pós Graduação em Psicanálise: abordagem psicanalítica, e Saúde mental: Psicopatologia e Psicanálise.

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