COME PRIMA

 

 

 

Resultado de imagem para rio de janeiro zona sulNum vídeo inspirado em que a alegria contagiante dá o tônus, o ítalo-brasileiro Emmanuele Cuchi , que assina um interessantíssimo projeto musical denominado Nu Braz, cujo objetivo é resgatar pérolas musicais do nosso cancioneiro popular, repagina o velho hit italiano de Tony Dallara, da década de 1950, “Come Prima”, simulando  uma parceria “espírita” com sua mãe a cantora italiana, Anna D’Amico – falecida em 2003 -,tendo como pano de fundo imagens contemporâneas do Rio Zona Sul.

O contraste entre o alto astral de som e imagem, mostrando um Rio de Janeiro, cuja natureza privilegiada correu o mundo como o cartão postal # 1 do Brasil e a realidade que hoje vivenciamos, e muito particularmente a que caracteriza o cotidiano dessa cidade que um dia foi conhecida como Cidade Maravilhosa, é um incômodo soco no estômago de cada um de nós, brasileiros, e mais um documento vivo da insanidade que beira a demência a que nos levam as nossas próprias escolhas.

Porque, de fato, da mesma forma que a Venezuela, outrora um dos países mais ricos e autossuficientes da América do Sul e um dos principais produtores e exportadores internacionais de petróleo e hoje devastada pela carestia e pela miséria dos governos socialistas chavistas, é cabível afirmar que a inveja que as trevas socialistas possuem da beleza e da luz também não poupou o Rio de Janeiro, não por acaso um dos principais redutos de apoio a essa ideologia nefasta.

Provavelmente, quem teve a ideia de produzir e criar um vídeo como esse, deve ter tido a intenção de de divulgá-lo para tentar dar um pouco de ânimo e incentivo ao público interno, porque, dificilmente o apelo desse vídeo poderá continuar a iludir os potenciais turistas estrangeiros, hoje suficientemente informados sobre as mazelas do Rio e só mesmo aqueles adeptos da prática de roleta russa ainda insistem em enfrentar o fogo cruzado e letal que dá tons tenebrosos – e de quebra o saldo de milhares de mortos por ano nas estatísticas oficiais – à deslumbrante paisagem carioca; ou os que ainda ousam acreditar na magia da Boa Terra e do carnaval baiano, para descobrirem que, hoje, atrás do trio elétrico só vai mesmo quem quer morrer; da mesma forma, quem espera desvendar a complexidade urbana e os muitos mistérios de sampa, cruzando a Ipiranga e a São JoãoResultado de imagem para ipiranga com são joão, provavelmente terá que apelar para uma veia musical muito mais genial do que a de Caetano Veloso, pois  a única coisa que poderá acontecer de inspirador ao se deparar com aquela esquina famosa terá como musas e musos as hordas de sem-teto, de “outsiders” e de toda a espécie de fauna humana que hoje ocupam aquelas adjacências. Se atualmente três desses mais famosos destinos turísticos nacionais ainda conservam  a beleza da natureza circundante ou algum traço remanescente de seu encanto urbanístico, isso se explica ao fato de que nem mesmo o ímpeto predatório do ser humano ainda conseguiu destruí-los. Porque tentativas de todas as espécies não faltaram!

Com a disseminação do ideário esquerdista e a infiltração de seus agentes no meio estudantil, no meio artístico, na mídia e em quase todos os canais de comunicação, num processo iniciado na década de 1970, e, sobretudo com a ascensão do PT ao poder, que conduziu o país à profunda crise econômica e de valores que hoje atravessamos, “verificou-se no Brasil um fenômeno nunca ocorrido com tamanho despudor em nenhum outro país do mundo: a inversão de valores que levou o país, quase por inteiro, a prestigiar valores como o despreparo e o improviso em detrimento da sabedoria; a incentivar a esperteza de curto prazo e o descaso com a moral, desprezando a ética, o senso comum e a civilidade; a glorificar a vulgaridade despudorada em vários segmentos culturais, manchando o patrimônio cultural riquíssimo a nós legado – sobretudo pela Civilização Ocidental – que tão magnificamente foi cultivado por nossos ancestrais, em outras épocas. Um assassinato cultural criminoso que apenas contribuiu para transformar o Brasil num país farsescamente virado de cabeça para baixo, hoje nivelado por baixo, inebriado pela cultura da maioria e da mediocridade, e situado, como não poderia deixar de ser, nos últimos degraus de qualquer aferição educacional estatística que tenha um mínimo de seriedade”. (Paulo Monteiro em “A Ideologia das Trevas”)

Uma crise de valores éticos, culturais – e até comportamentais- tão profunda que desfigurou inteiramente o país e que levou uma tia octogenária e entristecida a desabafar, quando comentávamos a realidade dos dias que hoje vivemos: “Este não é o país que eu vivi e amei. Devolvam-me o meu Brasil!”

Resultado de imagem para grace kellyMesmo levando em conta a nostalgia típica das gerações mais antigas, é impossível fugir à crueza desse desabafo e ninguém melhor do que essa tia querida para reivindicar isso. Culta e de educação refinada, ela é conhecida em nosso meio familiar como “a nossa Grace Kelly”. Algo que condiz com a sua estampa elegante e casa com a realidade mais leve e sedutora do meio e dos tempos áureos que ela vivenciou.

Se na vida pública e nos meios políticos é utópico dizermos que imperavam inteiramente a Ética e a Honestidade, com certeza as deturpações de tais conceitos naquela época eram mais “decorosas” e estavam a milhares de anos luz de distância dos limites e das proporções que hoje atingiram.

Já na esfera social e cultural, a calamidade do que se perdeu, ou jaz anestesiada nos recônditos saudosos da memória, foi atroz e brutal. Se nossa realidade era pintada pelos traços tropicais e pitorescos de um Cícero Dias ou de um Portinari, hoje nos resta assistir estarrecidos às manifestações “culturais” grotescas promovidas pela esquerda, que desaforadamente nos tentam impingir como sendo expressões artísticas. Se patenteávamos nossa alegria de viver um tanto inconseqüente – algo que nos fez merecer sermos conhecidos lá fora como o País do Carnaval – pelos desfiles do Quitandinha, ou no “glamour” do Copacabana PalaceResultado de imagem para copacabana palace e dos animados clubes de outrora, embalados pelas letras chistosas das marchinhas de Lamartine Babo, Zé Keti e Mário Lago, hoje somos constrangidos a apenas presenciar pela TV o por vezes tedioso aparato tecnológico e a vulgaridade luxuosa dos desfiles da maioria das escolas de samba – algumas delas debochadamente financiadas pelos barões da cocaína – pois nem todos ousam expor sua vida e segurança nos excessos dos carnavais de rua. Se nossa música de exportação tinha a classe e o refinamento da Bossa Nova e levava a assinatura de gigantes musicais como Tom Jobim, Edu Lobo, Vinicius de Moraes e Chico Buarque, apenas para mencionarmos o segmento popular, hoje ela é mais conhecida e se faz representar por gente do porte de Simone & Simaria, Victor & Leo, Bruno & Marrone e outros nomes “reluzentes” do sertanejo universitário que dominam quase com exclusividade os meios de comunicação e a mídia fonográfica. Pode até parecer saudosismo, e é, mas como não lastimar a lacuna deixada em aberto por um passado musical glorioso como aquele que nos transporta aos Festivais da Record ou aos primórdios da Tropicália, que tantos nomes talentosos revelaram e que com tantas jóias contribuíram para o nosso já riquíssimo acervo musical, se hoje a rede televisiva líder de audiência prefere divulgar apenas simulacros musicais que tentam reproduzir a “cultura” dos morros e das periferias das nossas grandes cidades, em programas populistas e direcionados, 24 horas por dia? Já os nossos verdadeiros e superiores talentos, aqueles que remam contra a maré da mediocridade geral, esses são condenados a se radicar no exterior para tentar sobreviver dignamente através de sua arte.

Resultado de imagem para tom jobimNada a opor a que tais manifestações de caráter mais popular e apelativo tenham seu devido espaço na mídia, como ocorria outrora, aliás. No entanto, daí a transformar a cultura das massas em objeto exclusivo e obsessivo de culto e adoração, esquecendo que o farol de liderança da cultura progressista e do conhecimento humanista sempre foi empunhado por uma elite visionária e genial, é inverter propositalmente o curso natural da evolução. Da mesma forma, não há como negar que o legado das culturas africanas e indígenas constitui-se num importantíssimo diferencial daquilo que conhecemos como a identidade do brasileiro, mas daí a renegar nossos laços e a tradicional ligação com o eurocentrismo e a rejeitar a importância do extraordinário legado a nós gratuitamente deixado pela civilização ocidental européia é algo tão descabido e assustador que apenas nos cabe formular a seguinte questão: a quem de fato isso interessa?

Foi conduzido a tais reflexões e a essa viagem ao mesmo tempo triste e nostálgica a um passado não tão distante, mas tão cruelmente escorraçado de nossa estória, que fui conduzido por esse vídeo. E que me levam a corroborar e ecoar as palavras indignadas de minha tia:

“Devolvam-me o meu país!”

 

p.s.: Este texto foi escrito, em primeira mão, para coroar uma apresentação musical pré-natalina, em 07/12/2017, num Clube de Discófilos Fanáticos (CDF) sediado na capital do Amazonas, agremiação à qual pertenço há mais de vinte anos, e que é presidida por meu estimadíssimo amigo, Dr. Arnaldo Russo.

 

 

1 responder
  1. Jose Maria Ferreira dos dos Santos
    Jose Maria Ferreira dos dos Santos says:

    Texto escrito com as mais profundas verdades, nos leva a fazer uma reflexão, o porque nos levou a chegarmos a tais situaçoes.

    Responder

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