A COPA DAS MATRIOSKAS (Crônica de Paulo Monteiro)

 

 

Não deixa de ser curiosa a coincidência que aproxima a Rússia, solo onde se disputou essa última Copa do Mundo e a Croácia, um dos países finalistas desse certame, – e, com certeza, uma das suas maiores e mais gratas surpresas – pelas várias peculiaridades que igualam parte da história e das tradições de ambos os países.

Curiosamente, ambos os países ostentam em seu passado recente um histórico com várias similaridades. A primeira e mais notória delas é que ambos se originaram da dissolução de Estados que apenas existiam no papel, mas que eram formados por um agregado de povos com culturas, tradições e até religiões tão desiguais entre si que o simples fato de terem permanecido unificados pelo jugo totalitarista estatal por tão longo período é que constituiu uma verdadeira aberração, como é o caso tanto da Rússia, o estado hegemônico saído das mãos férreas de Lenin e do sanguinário déspota, Josef Stalin, quanto da Iugoslávia do ditador autoritário – embora não necessariamente sanguinário, como seus congêneres soviéticos – , croata de origem e também comunista, Marechal Josip Broz Tito, que manteve a antiga Iugoslávia coesa, sufocando durante um período de quase quarenta anos os anseios de independência e liberdade dos diferentes povos de seu país.

Outro interessante ponto em comum, esse já num campo bem mais ameno, o das tradições culturais é que, na Sérvia, o país irmão e vizinho da Croácia (dois dos países formados a partir da dissolução da antiga Iugoslávia – os outros são a Eslovênia, a Bósnia-Herzegovina, a Macedônia e o Montenegro) a versão feminina das matrioskas russas é designada como babushka, que significa “avozinha”, enquanto a versão masculina é designada como dyedushka, “avozinho”.

E se há algo que no futuro irá caracterizar esta Copa disputada no berço de Vladimir Putin é que esta foi a Copa das matrioskas,  aquelas simpáticas e coloridas bonequinhas, uma série de bonecas, feitas geralmente de madeira, colocadas umas dentro das outras, da maior (exterior) até à menor: a única que não é oca e que permanece intacta.

Resultado de imagem para copa da rússiaIdenticamente, esta é uma Copa que irá ser lembrada justamente por descartar gradual e impiedosamente, em cada etapa, as pretensões de seleções tradicionais – as matrioskas maiores -, antes tidas como favoritas e candidatas ao título, como Alemanha (ironicamente a maior das matrioskas e a primeira a ser descartada), Espanha, Argentina, Portugal, Brasil, Inglaterra e, quem sabe, ainda não descarte, por último, a França, naturalmente favorita no confronto final de amanhã, deixando intacta a menor delas: a pequena Croácia de pouco mais de quatro milhões de habitantes.

Se a Alemanha soçobrou bisonhamente, ainda na Primeira Fase, ante o México – um tradicional “freguês” futebolístico dos germânicos, diga-se de passagem – e uma Coreia do Sul, que se apresentou para esse jogo sabendo que já estava eliminada, a Espanha, que à exceção do jogo com Portugal, houvera passado sem brilho pela Primeira Fase, capitulou apática ante os russos, mostrando o conhecido e ultrapassado “tiki-taka” de sempre, mas sem em momento algum justificar por que motivo a sua seleção é conhecida como “a Fúria”. Melhor chamá-la agora de a “Fúria Domada”. Quanto à Argentina, que, ameaçada de voltar para casa ainda na Primeira Fase, ressurgiu das cicatrizes e a duras penas, no último confronto da Primeira Fase contra a Nigéria, e disputou taco a taco com a França um dos duelos mais empolgantes desta Copa, ainda nas Oitavas de Final, restou o consolo de regressar a Buenos Aires com a certeza de ter honrado bravamente a gloriosa camisa “albiceleste”, superando uma defesa desorganizada com a tradicional garra e passionalidade “portenha”.

Resultado de imagem para croáciaJá, Portugal, do rival de Messi, – o craque, CR7 -, que, após o épico duelo ibérico com a Espanha, houvera mostrado um futebol lateral e pouco imaginativo, voltou para casa mais cedo exatamente após o jogo em que mostrou mais garra, ante um Uruguai, vencedor e mais inspirado. Quanto ao Brasil, cujo futebol jamais engrenou, esse carimbou a passagem de volta pra casa em dia particularmente aziago e de escolhas pouco acertadas ante um adversário, a Bélgica, que teve táticas mais acertadas. Pior para o craque, Neymar Jr., que certamente esperava fazer dessa Copa a plataforma para sepultar as polêmicas que envolvem as atuações dele no país de origem e para se lançar definitivamente no Olimpo exclusivista dos melhores futebolistas em atividade atualmente, mas que para ser honesto em momento algum correspondeu às expectativas nele depositadas. Esperemos que possa renovar tais pretensões em 2022, no Qatar. Finalmente, a Inglaterra, derrotada pelos croatas, num jogo emocionante, e depois atropelada em grande estilo pelos belgas, na disputa pelo terceiro lugar, resta-lhe culpar o jogo pouco imaginativo de sempre, baseado quase exclusivamente nos levantamentos de bolas para a grande área adversária – o tradicional “chuveirinho” – para explicar o fracasso ante um adversário com uma capacidade ofensiva muito mais efetiva.

Resultado de imagem para melhores imagens da copa da rússiaEnfim, uma Copa que será lembrada, também, pela ausência deveras sentida da Itália e da Holanda – duas tradicionais potências futebolísticas – e por sinalizar um possível ocaso dos dois maiores futebolistas dos últimos anos, o argentino Lionel Messi e o português Cristiano Ronaldo, ambos muito distantes de corresponder ao que deles se esperava e ambos com a real perspectiva de estarem disputando suas últimas Copas sem lograr trazer o almejado troféu para seus países de origem. E, finalmente, uma Copa que será marcada por apresentar ao planeta o futebol de uma nova geração de ídolos, alguns já conhecidos e consolidados nos meios mais íntimos desse esporte, como o uruguaio Edinson Cavani e o croata Luka Modric  e outros bastante promissores, e não tão conhecidos globalmente, como o francês, Mbappé, o goleador inglês Harry Kane, os belgas Romelu Lukaku, Eden Hazard e Kevin De Bruyne e o também croata, Subasic, o atual goleiro do Mônaco. Cracassos!

Outra característica expressiva dessa Copa é a ausência de times sul-americanos entre os semifinalistas, após a eliminação de Brasil e Uruguai, nas oitavas. Confirmando, aliás, uma tendência preocupante de inteira hegemonia dos europeus nas últimas Copas, algo que vem se repetindo desde 2002, quando o Brasil se sagrou pentacampeão, na Copa do Japão/Coreia do Sul. O que, a médio e longo prazo pode ser lastimável, por aos poucos desfigurar e transformar o certame numa mera repetição do Campeonato Europeu, com dois convidados de luxo sempre temíveis – Brasil e Argentina – e alguns figurantes simpáticos e exóticos, mas relativamente inexpressivos em termos de competição futebolística, e tirando com isso um pouco do brilho e do apelo global dessa competição.

Quanto à Rússia das matrioskas, batida apenas nos pênalties pela seleção croata, nas quartas de final, pode-se dizer que restará o consolo de ter superado as expectativas de todos, e, aleluia, inclusive as de Vladimir Putin, para imensa felicidade de seu inquieto treinador, Stanislav Cherchesov, que, em alguns momentos nos lembrou o Felipão de outras Copas, com tanta movimentação à beira do gramado. Também, pudera! Imagina se houvesse no Brasil as gélidas extensões siberianas e o autoritarismo russo? Pelo menos, isso nós não temos. Pois, com a visão dos Gulags no horizonte, não era para menos tanta exasperação do irado – ou aflito – treinador russo durante as disputas envolvendo a equipe eslava.

Resultado de imagem para melhores imagens da copa da rússiaPor falar no Putin, colocar na Final de uma Copa disputada na Rússia, a França e a Croácia, certamente vai deixar no autoritário líder russo um travo bem amargo, seja qual for o vencedor. Se a vencedora for a França  , um dos faróis da cultura ocidental e o autêntico berço da “Égalité, Liberté et Fraternité” o slogan da Revolução Francesa, embrião inspirador dos ideais de Liberdade e Democracia simbolizados pela Estátua da Liberdade que o governo francês doou aos Estados Unidos e de valores em cuja defesa o Vladimir Putin, ultimamente, teve a “cara de pau” de querer se arvorar em paladino é uma ironia que estará mais do que patente. Ora, ora, ora! Justo a Rússia de Putin? Ôôôô louco, sô! A Rússia de fato saiu do comunismo, desde que o antecessor e mentor do Putin, o Bóris Iéltsin, proibiu as atividades comunistas no país – e o Putin que de tolo nada tem seguiu-lhe o exemplo -, e vive hoje as agruras do capitalismo selvagem, com condimentos russos, mas o comunismo velho de guerra, autoritário, controlador e totalitarista nunca saiu da Rússia.

Resultado de imagem para checheniaJá, se for a Croácia quem leve esse troféu, não custa recordar que, se existiram pontos em comum no histórico entre a Rússia e o país adriático, tais afinidades se diluíram por completo, na medida em que a Croácia, após a dissolução da Iugoslávia, seguiu sua trilha de país independente e sem pretensões expansionistas. Já a Rússia de Vladimir Putin retomou a trilha opressora e expansionista, abafando a ferro e fogo os anseios separatistas de países – ou regiões, como ele pretende – com histórias, línguas, tradições e religiões absolutamente diversas, como a Ucrânia, a Chechênia e a Criméia, mas, aonde até hoje persistem sangrentos conflitos apenas para satisfazer as ambições imperialistas de Putin.

Pois é! Não custa acusar os americanos de imperialistas e culpar a CIA, seguindo a velha e surrada cartilha gramsciana do KGB, pra enganar terceiro-mundistas desinformados, enquanto, paralelamente, se autoriza as tropas russas – junto com as cubanas – a promover uma ajuda humanitária à Nicarágua (deve ser para dar comida à população faminta do país, levado à miséria pelo governo comunista de Daniel Ortega. Deve ser isso, sim!) e se fornece apoio logístico pros vários movimentos “bolivarianistas” comunistas do Foro de São Paulo fazerem umas “arruaças” brabas no quintal dos adversários yankees e imperialistas. Nesse mundo dos espertos manipuladores a última palavra é de quem grita mais alto e só escuta quem tem seus interesses e conveniências para lhes dar crédito. Quanto à verdade, essa fica pros cuidados dos eventuais “trouxas” que ainda se preocupam com tais ninharias.

Resultado de imagem para o filho de vida no gramado russoPor isso, ver o Putin entregar o troféu nas mãos de um croata, alguém como o Domagoj Vida – aquele zagueirão com pinta de figurante da série “War of Thrones” – que faz campanha intensiva pela independência da Ucrânia seria também  uma ironia daquelas que não teria preço. Quem sabe o Domagoj Vida peça ao filho dele, aquela criança loira e adorável que invadiu o campo logo após a classificação croata para a final, pra deixar nas mãos do líder russo uma dyedushka – a matrioska croata – com a cara dele, Putin, de recordação.

Resultado de imagem para melhores imagens da copa da rússiaVendo bem, os deuses da fortuna foram até gentis com o Putin. Já pensou se fosse a Inglaterra – a mais ferrenha inimiga do governo de Putin, depois que os dois países trocaram ferozes acusações envolvendo alta espionagem e assassinato e que culminaram com a expulsão de 23 diplomatas de ambos os países – a vencedora?  Aí não haveria cara de paisagem que resistisse a tanto. Só mesmo o Putin contratando o Ministro Gilmar Mendes pra dar um “jeito” no jogo Brasil x Bélgica, a gente derrotasse os demais adversários e o Putin pudesse evitar tantos dissabores e pudesse entregar prazerosamente a taça prá Cumpanheira Rousseff ou pro Cumpanheiro José Dirceu, já que o patrão desses dois nem mesmo o Gilmar Mendes conseguiu soltar, ainda.

E, de quebra, além de vermos essa “tchurminha” do Mal exilada e quem sabe perdida para sempre na vastidão das tundras russas, ainda seríamos Hexa!  Obaaaaaaaaa! Sonhar custa menos do que o preço de uma matrioska.  Tanto para os oprimidos, quanto para seus algozes. Tanto para nós, comuns brasileiros, quanto para o Poderoso Czar de todas as Rússias.

 

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