A COPA DO MUNDO 2014 NO BRASIL

 

 

 

Caso  tivesse  sido  convidado a    decidir  por  aceitar  realizar  a  Copa  do  Mundo  da  FIFA  2014  em   solo pátrio,  eu –   como  possivelmente  a  grande  maioria  dos  brasileiros,   que  jamais  foi consultada  por  tal  decisão,  diga-se  em  tempo… –  teria  certamente  optado  por  um   sonoro  não,  mesmo levando em conta    que  o  futebol  é   uma  verdadeira  paixão   para  todos   nós  brasileiros  e  talvez  a  derradeira  chance  para  alguns,  como  eu,  particularmente,  que  esperaram quase  uma  vida   inteira  a chance  de poder  assistir  ao  vivo à  elite  do  futebol  mundial   confrontando-se   em solo  pátrio;   por  tal motivo,  é com  imenso  júbilo  e  orgulho  que  dia  26/06,  com  meu  bilhete já  no   bolso,   estarei   nas  arquibancadas  do  estádio  Mané  Garrincha   em  Brasília  torcendo   fervorosamente  para que  o   “santo”  Cristiano  Ronaldo  leve o  Portugal  dos  meus  avós  a   uma  classificação festiva, pelo menos   para  a  próxima  fase  do  torneio.
Repetir aqui  todos  os inúmeros argumentos pelos  quais todos  nós,  brasileiros   com  alguma  sanidade  e  um  certo  nível  de  conscientização  nos  posicionamos  desde  sempre  contra   a   realização  da   Copa  da  Fifa  2014   no  Brasil,  neste  momento  delicado  que  atravessamos, pelos  motivos   hoje  amplamente   divulgados  e  já  exaustivamente  matraqueados  na  mídia,  em  redes   sociais  e  até  em  todas  as  conversas  de   “boteco”   por  este  diversificado  país   afora, soaria   mais como  uma  reverberação  inútil  e,  perante  as  circunstâncias  do  momento, a tentativa de  um  apelo   demagógico,  adulterado   pela  auto-promoção, que  poderia   até  encontrar  eco  na  compreensão de uma  maioria  tantas  vezes  conivente com  as  “unanimidades  bovinas”, mas  que  estaria inteiramente  deslocada   e  distorcida  no  tempo  e  no  espaço  presente.

Resultado de imagem para copa do mundo de 2014Não   que  essa   posição  implique  em   qualquer  tipo  de  concordância  com   as   decisões   míopes,  cínicas e torpes  –  para  dizer  o mínimo,  perante   as   gritantes  e  anos-luz   mais  necessárias  prioridades  de  nosso  país, confrontado  com  inúmeras  estatísticas  vexatórias   em  campos  infinitamente  mais  vitais do que o Esporte  na  escala  das  necessidades   básicas,  como  a  Segurança, a Saúde e  a Educação,  por  exemplo  –  tomadas  por  nossos  dirigentes ; não  que  queira  fazer  vista  grossa   para  os      “ bilhões”   de  reais  gastos na  construção  de  faraônicos  e  inúteis  estádios  e  justificados   sabe  Deus  em  quantos   e para  quais   fins e  que, sem  a  menor  sombra  de  dúvida,  teriam  sido  quintessencialmente   mais úteis  se  destinados  à   resolução  de   boa  parte  de  tais necessidades  ….   pelo  contrário!  De  longo  tempo  me considero    assumidamente  crítico  quanto  à  competência  nula  e  às  intenções  claramente   espúrias,  populistas    e   corruptas   de boa  parte de  nossos líderes,  embora   me  negue   também  a   isolá-los   como  os  “bodes  expiatórios”,  algo  que  tantos  se  apressam  em  apontar,  esquecendo   convenientemente  que  os  políticos  são  também  brasileiros   como  todos nós   e  apenas   refletem  (  sorry!!!  )  características  comuns   a   muitos  de  nós  e   à   cultura,  educação  e  princípios  –  ou  à  carência  deles  –  que  tantas  vezes    adotamos ;  no  entanto,  por todos  os motivos  racionais  e   coerentes   possíveis,  não  consigo vislumbrar nenhum  motivo   que  justifique  continuar  remando    contra   a maré   dos  acontecimentos,   a  pouco  menos  de  um  mês  do  início  da  competição,   quando  o  inevitável  nos  bate  à   porta  ;  inicialmente por  uma  razão muito prática, que  a  voz popular   já  catalogou  para  referir-se a  situações  com  tal  perfil ,   expressando-se  por   provérbios    fundamentados  no  velho  e  quase  sempre  irrepreensível   senso   comum  resultante  da  experiência  e  dos  aprendizados   que  a  vida  nos  traz :  “não adianta  chorar  pelo  leite  derramado” !  Recorrendo  mais  uma  vez  à   fonte   popular  de   conhecimentos   práticos  que  herdamos  de  nossos   antepassados,  e  sem  a  menor  intenção  de  ser  sarcástico  ou  de  tripudiar  sobre  as   mazelas  que  nos   afligem  e  que   no  frigir    dos   ovos  são   em  grande  parte  –  ou  inteiramente,  ousaria  dizer….  –    consequência  de  nossos  próprios  atos  e  escolhas, eu   diria :

Este  é  o momento  em  que   “ só  nos  resta  relaxar  e   gozar….”
Por   outro  lado,   meu  desacordo  com   essa   linha   que   neste momento  aponta  a Copa  da  FIFA   como  o  “bode  expiatório”  que  tantos  se  comprazem  em  eleger   para  tentar    exorcizar  todos   os nossos  males  e   as  incontáveis    mazelas  que,  assim  como  a  péssima   qualidade  de nossos   políticos,    são  uma  consequência  natural  do  nosso próprio despreparo  educacional,  nossa   imaturidade emocional, social e cívica,  como  indivíduos  e   como  coletividade, prende-se  ao  fato  de que  tal  orientação desfocada  parece   apenas   sinalizar  uma  mensagem  improfícua  e  oportunista, que  só  contribui  para , com o perdão da expressão “chula” mas imprescindível  no  contexto  deste  texto,   jogar  mais  bosta  ainda   no  ventilador  e  para  alimentar  a  negatividade   da   corrente  daqueles   que  pregam  o velho e  equivocado  chavão  anarquista  do   “quanto  pior,  melhor…”.  Até   parece  que  precisamos  disso,  num  país  que  já  atravessa  graves convulsões   sociais  e   uma  crise   política  que   se   aprofunda  pela   ausência   de  dirigentes    confiáveis   e  éticos –  digamos  assim…  –   e  que  necessita   desesperadamente   de  um  “ background”  mínimo  de  ordem, sangue  frio e   lucidez   para  assumir  suas  mazelas  e   buscar   amadurecidamente   soluções   que  restituam   a  todos   nós,   juntamente   com  o   orgulho  de  ser  brasileiros,    uma  qualidade   de  vida  cada  vez  mais  próxima   dos países  mais  evoluídos, algo que  certamente   todos   deveríamos  vivenciar,   mas  que  provavelmente  nem   todos   fazemos   por  merecer.

Será   que  isso  pode  ser  entendido   como   um  convite  à indiferença,  quando  não à  absoluta   omissão,  algo   que   nossa   condição   de  cidadãos   já   tantas  vezes  nos  impôs    e  em  outras  circunstâncias  foi lamentavelmente   tantas  vezes   ignorada? Em  absoluto!

Será  que  devemos   continuar   expressando   nosso  descontentamento  com  a  realidade   que   nos   amesquinha  em  tópicos básicos como  Educação, Saúde e Segurança?  Será  que  devemos   exigir   mais  respeito   de  nossos dirigentes  por nossos    direitos legítimos? Será  que  devemos   cobrar  transparência  e  ética  nos  atos  públicos  que   dizem  respeito ao bem comum?  Será  que  devemos   pleitear  um  retorno   muito  mais  justo   para  os  impostos   extorsivos  que  pagamos?  Será  que devemos   denunciar  clientelismos,  bolsões  de  corrupção, improbidades  e injustiças? Será que devemos  não  calar  e  protestar, enfim?

Sim,  sim, sim  e  sim! Com certeza  e  cada  vez   com mais  ênfase  e  sem  esmorecer jamais !
Mas  faça-mo-lo  elegendo   os  alvos  precisos   no   momento  e  no espaço   corretos,  de  forma  pacífica  ordeira  e  civilizada,  e,  sobretudo,  fazendo  uso  da   nossa  capacidade  de  raciocínio  para  que  logremos  ser  práticos  e  eficazes  na   obtenção   de  nossos   objetivos.

Agora,  no  entanto, pelos  motivos   expostos   acima,  o momento  é  de  estamparmos  para  o mundo    nossos   reais   atributos  positivos,  como   a  criatividade  que   nos  caracteriza  de  forma  marcante,  a  transbordante   sensualidade  de  nosso  povo   –   que  me  perdoem  os puritanos  de  plantão,  mas  essa   é uma  característica invejada  e  identificada  positivamente  por   estrangeiros,  quando  exercida  de  forma  equilibrada  e  sadia,  –  e,  sobretudo,  a  nossa    inegável  “joie  de  vivre”  – essa alegria otimista  e  humorada,   ultimamente tão  esmaecida  por motivos até  compreensíveis  –   para  darmos  a   volta  por  cima  e   oferecermos    a  Lionel  Messi, Cristiano Ronaldo,  Franck Ribéry,  Arjen Robben,  Andrés Iniesta, e  enfim à  fina  elite dos  futebolistas  atuais,  a  todas  as  seleções  que  estarão  aqui a  partir  de  12  de  Junho  e, por  extensão,   à  plateia  do mundo   inteiro   que  acompanhará   atentamente   esse   que  é com  propriedade  considerado   o  maior    evento  esportivo  do  planeta,  uma   prova inequívoca    de  nossa   maturidade,  ao   colaborar    com   a   paz,  a  ordem  e   a  segurança  exibindo   a  nossa    conhecida  e  afável   hospitalidade  e,   com  isso  aplicando   um  formidável  tapa  com  luvas  de  pelica   em   todos   os   dirigentes   que   insistem   em    desrespeitar    nossos  direitos  e   atropelar  tiranicamente  nossas      prioridades  e necessidades   básicas.  Afinal,  todo  o  mundo   civilizado  já  as  conhece  suficientemente  bem;  aparentemente,  apenas   alguns  de  nossos  políticos e  dirigentes  é  que  as   desconhecem!

Caso  isso  não  seja   suficiente,  lembremo-nos   que,  para  transcender   as  nossas  muitas  imperfeições   e  atributos coletivos  negativos,  temos  na  ostensiva   espiritualidade  que   nos   caracteriza   de  forma    marcante   a   mais  valiosa  das  qualidades  positivas,  fato  que possibilita   que   aqui   convivam   pacificamente   vários credos   religiosos  sem  vestígios  de  fanatismos   exagerados  e   com  um   relativo  grau  de   tolerância   recíproca, o que  implica  necessariamente  que,  em  nome  dessa   alegada  espiritualidade  devamos  buscar  sempre  o  caminho da  positividade  e   da  esperança.  Lembremo-nos  também  que,   há  quase  doze  anos   atrás,  quando  a  seleção   canarinho   conquistou  o  pentacampeonato  no Japão/Coreia,  o maior   expoente  dessa   nossa  espiritualidade,  Francisco  Cândido  Xavier, optou   por  deixar  este  plano terrestre,  de  acordo   com  suas  próprias   palavras, justo  no  dia  em  que  todos   nós  brasileiros   estávamos  felizes   por  ter  conquistado  mais   uma  Copa  do  Mundo,  para   que  não   sentíssemos  tanto  a  sua  ausência,  tamanha  era  a  importância e  o  apreço  que  ele  percebia  em  seus  compatriotas  pelo nobre  esporte  bretão  …ele  estava   equivocado apenas   em  um  ponto:  ainda sentimos  e  muito  a sua  ausência   física  e, em  decorrência,   é  difícil   não  lembrar  dele  e  de  seus  maravilhosos   ensinamentos   agora  que  esse  grandioso  evento  esportivo   de  celebração  e  de  congraçamento  entre  os povos   e  nações  está   prestes   a  realizar-se   no     solo   do   país  que  ele   tanto   amou.

Coloco  todo  esse preâmbulo para  esclarecer a quem  interessar  que  pessoalmente   aprovo   integralmente   o   “clip”  oficial   da  Copa  do  Mundo  da  FIFA   2014;  além  de   empolgante   e  com  um título  e uma  mensagem  totalmente fiel   ao  espírito    de   união   do  evento, ele   promove   uma   primorosa   integração   e  um perfeito equilíbrio   entre   os nossos  valores,  como   país   hospedeiro  e  único   pentacampeão  do   mundo   na  modalidade ( a   opção por  uma  maioria  de  imagens   da   nossa  seleção  em  atuação,  a  participação  esfuziante  da  Claudinha  Leitte e, “last  but  not least”,  o  toque   magistral  onipresente   do  fabuloso Resultado de imagem para abertura da copa com olodum Olodum) e  a  necessária    adaptação  a padrões  globais utilizados   pela  mídia, que,   por  tratar-se   de   um  espetáculo   em  escala   planetária,  precisou   adotar   o   inglês  –   sabidamente  a    língua   universal   de   comunicação   entre   os   povos  –    e  recorrer  a  estrelas  do   “ showbizz”    americano  –    a  cultura   artística   dominante  pelo menos  no  nosso  hemisfério  ocidental   –  para    lograr   atingir   praticamente  todos   os  rincões    do  planeta, posto que  nunca  é demais  lembrar   que   o  Futebol  (  e  mais  ainda  a Copa  do Mundo,  sem  dúvida a  cereja   desse bolo)  é   também   uma   poderosa   e  lucrativa  indústria.  E essas   são  as  regras   do  jogo  nos  States, no Congo,   na Tailândia, na Inglaterra, na Venezuela  ou  no…..  Brasil!!!  Discorda?
Mude  de  planeta…..

CLIPE   OFICIAL   DA  COPA   DO MUNDO  2014

Resta-nos   portanto  torcer,  usufruir    e entrar   na  corrente…..   pacífica   desse   espetacular  evento;  na  pior  das  hipóteses   teremos  no  mínimo   validado   um   passaporte   para  continuar   reivindicando    e   protestando   com  mais  legitimidade  ainda,  mas  agora   no  tempo   e  no  espaço   certo   e  com  os alvos   corretos  na   mira!

 

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Paulo Monteiro

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