Cícero chega ao quinto disco de inéditas com este “Cosmo”. Cada um deles é bem diferente do outro, guardando características preciosas, desde a inocência e a introspecção da estreia – “Canções de Apartamento”, 2011 – passando pela experimentação – “Sábado”, 2013 -, a contemplação e a vida solares – “A Praia”, 2015 – e, após a colaboração do anterior, “Cícero e Albatroz (2017), ele se sente à vontade para … não falar sobre nenhum tema específico e fazer do novo trabalho uma fonte de reflexões simples sobre o cotidiano de quem está lá pela faixa dos 30 e tantos e vê, todos os dias, diante dos olhos, algum valor derretendo. “Cosmo” é isso e já é bastante.

O disco é conciso – dez faixas em trinta minutos – e não desperdiça nenhum momento. Cícero aproveita seu amadurecimento como cantor, compositor, músico e produtor para mostrar, naturalmente, uma variedade de arranjos, climas e levadas que fazem o álbum ganhar em contexto e dimensão, soando quase como um “disco de banda”. Apesar da diversidade, “Cosmo” é gentil, investe na sutileza dos timbres, das guitarras dedilhadas, das intervenções de teclados para emoldurar versos belos e às vezes cinematográficos, que Cícero vai erguendo. Sua visão do Rio como cenário é confortante e, ao mesmo tempo, tristemente ficcional para quem só vê a cidade como um depositário de violência de injustiça. A cidade que Cícero mostra é enigmática, com tons de sol e nuvem, ainda que haja bastante do céu de Lisboa no referencial lírico-geográfico do álbum.

Há momentos em que o cantor/produtor acerta na mosca. “Some Lazy Days” é um desses casos. Em meio a uma levada noventista de rock alternativo, ele vai falando sobre fazer um filme sobre – e com – a pessoa amada, mostrando que, a partir dele tudo vai dar certo, a vida vai ser a céu aberto – “vai passar lá na Tijuca, perto do ponto do 433 e aquele vestido lindo que você tem “. É tudo bonito, utópico, desejável, carioca e simpático. “Às Luzes” é outro momento inspirado do álbum, com uma levada de bateria simpática e docemente familiar, ele vai construindo um painel minimalista, com teclados e guitarra – “todas as cidades, todas as saudades, tudo o que se perde em mim” – com um existencialismo superficial adequado e bem-vindo.

Há momentos bem surpreendentes. “Miradouro Nova Esperança”, que começa com violões e guitarras dedilhados, acaba num turbilhão de cordas, num belo resultado. A nostalgia gentil volta no arranjo de guitarra e tamborim – “visitei um velho amigo meu, de longe, de repente estava lá, passando novamente por antigamente”. São algumas visões que temos e não conseguimos racionalizar e definir. Há um fantasma de Los Hermanos pairando sobre “A Chuva”, ainda que esta seja muito mais leve e sutil do que qualquer coisa que o grupo carioca já tenha feito, guardando apenas uma lembrança. “Banzo”, o próprio termo afro-lusitano para “saudade”, é outro belo momento, mostrando que a saudade e o já-não-estar são instâncias definitivas do tempo atual.

Cícero é importante nome da música alternativa carioca da última década. Este novo álbum o coloca novamente na posição de protagonismo e nos faz esperar por novos e novos volumes musicais de suas visões dos dias.

 

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Texto de CEL  do blog Célula Pop 

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *