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DIFÍCIL SER FUNCIONÁRIO – POESIA DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

 

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Difícil ser funcionário

Nesta segunda-feira.

Eu te telefono, Carlos

Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia

Que me deixa assim,

Cinemas, avenidas,

E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,

O luto desta mesa;

É o regimento proibindo

Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara

Tanta roupa preta;

Tão pouco essas palavras —

Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina

Que nunca escreve cartas;

Há uma garrafa de tinta

Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,

As caixas de papéis:

Túmulos para todos

Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto

De gravata de cor,

E na cabeça uma moça

Em forma de lembrança

Não encontro a palavra

Que diga a esses móveis.

Se os pudesse encarar…

Fazer seu nojo meu…

 

 

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