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DISCO DO MÊS DE JUNHO 2019

 

Confesso que mais uma vez me vi impossibilitado de escolher entre dois lançamentos deste mês – três verdadeiras obras primas – qual o verdadeiro disco do mês. Na absoluta incapacidade de escolher apenas um, e por terem uma nítida pegada lo-fi a uni-los, optei pelos três.

O primeiro é o disco “Colt” da irlandesa, Hilary Woods, na verdade lançado na Europa em 2018, mas só divulgado no novo mundo e em mercados bastante elitistas, neste ano de 2019.

ColtHilary, que começou a carreira tocando baixo de 1996 a 2003 na desconhecida banda irlandesa JJ72, deu uma breve pausa para estudos de Literatura e Cinema numa Escola de Arte, ela retornou ao universo da música – “Thanks God” –  escrevendo pérolas minimalistas de majestosa e atmosférica instrumentação,  complementadas por um vocal celestial, a partir de 2007, já em carreira solo,  e lançando 02 EP’s: “Night” em 2014 e “Heartbox” em 2016. O sucesso de crítica foi tamanho que ela retornou em 2018 com esse “Colt”,  disposta a invadir os corações dos apreciadores da boa música ao redor do mundo com um trabalho realmente deslumbrante e de emotividade raramente alcançada.  Numa sonoridade plena de notas de piano, sensuais sintetizadores, instrumentos pouco usuais e ocasionais “beats” de eletrônica que nos remete a um  universo  lírico que fica alhures entre Marissa Nadler, Grouper e Julle Cruise ela nos leva a uma jornada intensa pelo clima da angústia e ao êxtase da própria existência.  Realmente um biscoito finíssimo.

 

 

Duress

 

O segundo é o novo lançamento do grupo californiano, Froth; numa carreira iniciada em 2010 e depois de dois discos iniciais influenciados pelo garage rock, eles deram uma guinada em 2017 em direção ao shoegaze e ao dream pop com “Outside (Briefly)”, muito bem recebido pela crítica e aprofundaram essa veia no recente “Duress” no qual investem no shoegaze  melódico e na psicodelia com uma levada mais lo-fi. Um disco surpreendente em todos os sentidos e que nos permite antecipar que o grupo tem um ótimo futuro pela frente, com várias faixas de puro deleite para quem se amarra numa música viajante e inovadora.

 

 

 

 

Já  o terceiro e último disco do mês, por outro lado, é um veterano frequentador das listas musicais deste site, o americano Bill Callahan,  que inclusive já ganhou a nomeação para disco do mês de Setembro de 2013, com o belíssimo “Dream River”.

Shepherd In a Sheepskin VestCumpriu-se de fato o vaticínio de bons presságios deixado no final da resenha do disco de 2013 e Bill Callahan repete a dose com este “Shepherd in a sheepskin vest”. De fato o ex-Smog, investe num disco duplo e, como título entrega, quase pastoral e obviamente melancólico para abordar os habituais temas de solitude contemplativa, com a voz de barítono de Callahan sobressaindo-se dos arranjos  quase acústicos dos arranjos orquestrais. Embora mais solar que em seus últimos discos, os temas continuam sendo domésticos e até pastorais nos quais o cantor aborda os motivos pelos quais se sente profundamente feliz.  Talvez por isso ele soe mais solto e relaxado do que usualmente em músicas de extremo lirismo e profundidade. Callahan escreve sobre a felicidade da mesma forma elegíaca que Leonard Cohen – uma de suas óbvias influências – fazia. E o faz com igual competência presenteando-nos mais uma vez com um disco extraordinário, que merece figurar entre os melhores de sua já bem galardoada carreira.

 

 

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