Disco do mês de Setembro 2016: NICK CAVE AND THE BAD SEEDS – “Skeleton Tree”

 

 

Soturno, cavernoso, “dark” e dramaticamente teatral, esse australiano multitalentoso, na estrada desde os primórdios da década de 80, sempre foi! Mas agora ele chegou ao extremo. Corrijo: aos  extremos  dos  extremos! De fato, em “Skeleton Tree” (literalmente a árvore dos esqueletos – sentiu o drama?) Nick Cave, que sempre flertou com temas como religião, morte, dor e violência em seus trabalhos (olha só o nome de alguns de seus álbuns: “From her to eternity”, o primeiro de 1984, “The first Born is dead” de 1985, “Your funeral, my Trial” de 1986, “Murder Ballads” de 1996, “Nocturama” de 2003 e por aí vai), em seu novo trabalho ele não apenas enfoca a morte: agora ele confronta-a.

Vindo da perda de um filho que morreu ano passado com apenas quinze anos de idade ao cair de um penhasco em Brighton, East Sussex, na Inglaterra, o cantor e líder do antológico grupo The Bad Seeds que o acompanha desde os primeiros trabalhos parece querer exorcizar aqui os seus fantasmas transformando em arte a sua dor e todo o disco reflete esse trauma inconsolável.

Para reforçar as qualidades artísticas e terapêuticas desse trabalho, Nick Cave abriu o estúdio para o cineasta Andrew Dominik que complementou o álbum com o filme “One more time with feeling” em 3D.

 

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“Skeleton Tree” , o décimo sexto álbum de estúdio do figura é quase uma peça de teatro “grand guignol” em oito atos solenes que requer uma imersão apaixonada até do ouvinte mais acostumado com o universo sombrio de Nick Cave Todas as faixas são literalmente maravilhosas, mas só podem ser assimiladas em um contexto único e coeso. Na faixa inicial, “Jesus Alone”, Nick usa a característica voz gutural quase em tom de oratória numa litania de almas no purgatório para descrever imagens oníricas e quase premonitórias (a canção foi escrita antes do evento trágico) como no verso “You fell from the sky, crash-landed in a field near the River Adur”(Você caiu do céu e se espatifou num campo junto ao Rio Adur); “Rings of Saturn” é uma canção característica dos Bad Seeds, secundada por um coro de vozes que se sobrepõe aos sintetizadores; a linda e tristíssima balada “Girl in amber”, assim como “I need you” e a solene “Magneto” evocam desesperadamente a dor da perda; em “Distant Sky” um órgão celestial acompanha a divina voz da soprano dinamarquesa Else Torp e desemboca no “gospel” da faixa-título final, na qual Nick Cave canta “I call out right across the sea, but the echo comes back empty” (Eu te chamo bem junto ao mar, mas o eco retorna vazio) e finaliza dizendo que está tudo bem, mais como um fechamento do que uma aceitação que talvez nunca possa vir a ocorrer.

Um disco excepcional, provavelmente um dos melhores lançamentos do ano, mas que requer um estado de espírito próprio para ser escutado.

 

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